Tucanos/SP: casa é boa. Pobre é que estraga

Saiu no R7 artigo de
Ricardo Kotscho:
O sonho da casa própria está
virando um pesadelo para as famílias do conjunto habitacional Paulo
Gomes Romeo, em Ribeirão Preto, interior paulista. As cerca de 200 casas
populares, entregues pelo governador Geraldo Alckmin em dezembro,
apresentam variadas falhas de construção, mas mesmo assim foram ocupadas
pelos moradores contemplados.
Após receber muitas queixas, o
diretor regional da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e
Urbano), Milton Vieira de Souza Leite, foi fazer uma inspeção na manhã
de quinta-feira para ver o que estava acontecendo. E chegou a uma
inacreditável conclusão: as casas são boas, os pobres que foram morar
nelas é que estão estragando tudo.
“A gente conhece o nível de
educação dos moradores. O pessoal veio da favela. Não está acostumado a
viver em casa”, afirmou o sábio, em entrevista gravada pela repórter
Gabriela Yamada e publicada na Folha desta sexta-feira.
E disse mais: “Você não consegue
mudar a educação delas somente mudando de local”. Para ele, seria
necessário um trabalho social a longo prazo para ensiná-las a morar numa
casa.
Entre outras barbaridades, Souza Leite insinuou que, além de ignorantes, os moradores são tarados e vagabundos.
Ao falar do caso de uma moradora
que reclamou da pia da cozinha ter caído ao colocar sobre ela uma cesta
básica, resolveu fazer graça, como relata a repórter:
“O que ela foi comer era outra
coisa, disse, insinuando que a pia caiu durante uma relação sexual. Mais
adiante, ao encontrar moradores dormindo, saiu-se com essa: Você viu?
Não sei se eles estavam dormindo porque trabalharam à noite ou porque
continuam sem fazer nada”.
O dirigente da CDHU também
responsabilizou os moradores pelas fissuras encontradas em volta de
portas e janelas: “As portas são fixas com bucha. A camada de
revestimento é muito pequena, e a forma como vai batendo a porta, em uso
comum, vai provocar uma fissura”.
Ao final da inspeção, Souza Leite
procurou tranquilizar os moradores, garantindo que as casas do
recém-inaugurado conjunto Paulo Gomes Romeo não correm risco de desabar.
Menos mal.
Até o momento em que escrevo este
texto, não há notícias de que o diretor regional Milton Vieira de Souza
Leite tenha sido demitido do cargo.
Uma coisa é certa: os últimos
acontecimentos em São Paulo estão mostrando que não se trata de
eventuais acidentes de percurso de uma administração pública, mas de um
método. A culpa é sempre dos pobres.
A política “policial-higienista”,
que já “limpou” as áreas da Cracolândia e do Pinheirinho, agora
encontrou os responsáveis pelas casas populares com defeito: os seus
moradores. Espera-se que a PM não seja chamada para resolver o problema.
*PHA
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