As liberdades de Cuba

O assunto “Cuba” andou frequentando o DR nas últimas semanas, não
apenas em função da visita da Presidenta Dilma à ilha caribenha – e o
tucanato de plantão espichou as orelhas, vendo no fato uma oportunidade
de formulações críticas à postura do Estado Brasileiro -, mas também
porque a visita provocou, por parte da grande mídia, muitas reportagens,
todas, invariavelmente, contrárias ao regime cubano e todas,
invariavelmente, deixando de observar o saudável princípio do
contraditório que recomenda, na busca de uma hipotética verdade, a
audição das duas partes envolvidas. Aqui no site, é claro, os artigos
que trataram do assunto enfocaram esses distintos pontos de vista.
Como não me manifestei então, faço-o agora, movido não apenas pelo
desejo da não omissão, mas também pelo fascínio do tema, que integra
minha visão do mundo desde o tempo de jovem, quando os guerrilheiros de
Sierra Maestra derrubaram o governo de Fulgencio Batista, então
amparado pelos Estados Unidos, em uma época em que se fazia de muitos
países da América Latina – Cuba, principalmente – um grande quintal
americano, um quintal sujo pelas atividades mafiosas, pela corrupção
generalizada, e pela desavergonhada exploração do povo cubano por uma
elite que fazia o jogo do imperialismo. Esses não são termos usados ao
acaso, não são chavões de que me valho para retratar a situação de
então. Qualquer ida aos livros mostra que a política do “big stick” do
Roosevelt do início do século XX veio tendo desdobramentos e
materializações em intervenções militares nos países considerados “focos
desestabilizadores” ou na sustentação de governos corruptos que
representavam seus interesses políticos e/ou econômicos (caso da Cuba de
então).
Maiores justificativas não poderia haver para a Revolução Cubana que
então se efetivou, com franco apoio popular. E a animosidade em relação
aos americanos, se já tinha esses antecedentes históricos, mais profunda
se tornou após a malograda tentativa da invasão por refugiados e
mercenários (treinados e contratados pela CIA) na Baía de Porcos.
De lá para cá, é preciso entender a história da ilha e das opções
ideológicas e estratégicas do governo fidelista a partir da correlação
de forças que rachava o planeta na chamada guerra fria. Os aliados
cubanos não poderiam ser outros senão os que representavam, à época, a
negação do capitalismo explorador que a ilha experimentara de perto e
não queria ver revivido.
Do jovem idealista que via a Revolução cubana como uma marca da
liberdade, até o homem maduro de hoje, fui acompanhando a distância o
que acontecia na ilha, nem sempre amparado por notícias confiáveis, até
que resolvi, em 2004, ir a Cuba. O regime já estava passando por sérios
problemas decorrentes do isolamento submetido pelos americanos, o
bloqueio, agora sem o contraponto aliado do mundo socialista que havia
ruído. Mas eu queria ver de perto o que acontecia e, de alguma forma,
resgatar uma história que me tinha sido tão cara nos tempos da
juventude.
Claro que foi uma viagem no tempo, como se costuma dizer ao mencionar os
velhos carros americanos deixados na ilha pela elite em fuga e a
ausência de aparatos tecnológicos e de conforto que a realidade da ilha
não permitia. Encontrei, aqui e ali, alguns sinais de que o sistema
socialista não poderia resistir imutável por muito tempo, seja porque os
jovens ansiavam por um outro descortino do mundo, seja porque os
próprios setores governamentais, principalmente através do turismo,
percebiam que a abertura era uma questão de sobrevivência.
Mas tive oportunidade de ver – sem qualquer dificuldade – que, também
como componente daquela “parada no tempo” (se pensarmos nos valores do
“progresso tecnológico” de hoje), havia aspectos realmente dignos de
destaque positivo: os cubanos não possuíam mendigos nem crianças
abandonadas pelas ruas, e disso se orgulhavam: os cubanos não morreriam
desassistidos pelas autoridades de saúde, pois tinham um sistema de
referência mundial; os cubanos não tinham analfabetos (foi interessante
perceber que os jovens adolescentes, em sua maioria, liam muito: quase
todos conheciam, por ler, obras clássicas consagradas, como o Dom
Quixote); os cubanos tinham uma saudável educação do corpo; a droga e a
prostituição, se existiam, eram absolutamente pouco significativas, se
comparadas com os “padrões” ocidentais.
Voltei com duas convicções. A primeira, de que, seria inevitável a
abertura cubana, lenta e gradual, não por causa da perversa pressão
norte-americana, que se mostrou inócua durante mais de 50 anos , mesmo
diante de uma pequena ilha a uma hora de Miami e com uma base inimiga em
seu território, mas porque os tempos imporiam, infelizmente, tais
mudanças. Cuidadosas mudanças, para não permitir a volta ao regime de
quintal e a presença de espiões, agentes e sabotadores ávidos por um
festim desestabilizador... A segunda convicção é a de que, se, após a
distensão, Cuba souber manter as suas grandes conquistas sociais, sem
paralelo em qualquer ponto da América Latina – e poderá, dado o grau de
politização do seu povo - certamente se transformará, logo nas primeiras
décadas deste século, no país mais exitoso de todo o complexo
latino-americano.
As liberdades de ir e vir e de expressar-se são, sim, viscerais e
importantes. Mas são relativas e não são as únicas. Um país que mantém
mendigos, miseráveis e analfabetos, por exemplo, não lhes permite tais
liberdades. Um país que comercializa a saúde e a educação, por exemplo,
desconsidera muitas outras liberdades, tão ou mais relevantes para a
dignidade humana.
Rodolpho Motta Lima
Advogado
formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de
Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade
em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos
anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário
aposentado do Banco do Brasil.rdades, tão ou mais relevantes para a
dignidade humana.Direto da Redação
*Oterrordonordeste
Nenhum comentário:
Postar um comentário