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domingo, julho 01, 2012

Kassab contra a solidariedade


Não vai longe certa visão sanitarista abraçada pelas autoridades municipais da cidade de São Paulo, que se fez manifesta em vistosas placas verdes que determinavam a proibição de atrair pombos nas praças públicas.

Os termos do alerta não fazia referência ao ato de alimentar aves, porque proibi-lo traria implícita consigo a admissão da naturalidade da presença delas nos espaços públicos, como fora durante o longo tempo em que não se imaginava uma área verde sem os agitados tico-ticos e pombos brancos trazidos pela corte de D. João VI.

Afastados os pombos, ainda que o retardasse a teimosia recalcitrante de idosos e crianças cuja sensibilidade não entendia quais as ameaças oferecidas pelos pequenos animais que tanta vida traziam à praça, o imperativo da higiene alcançou os próprios seres humanos.

Não da forma enviesada como pretenderam os alertas destinados aos amantes de aves 30 anos antes, mas de maneira direta, explícita, chocante como jamais o imaginaria aquele que sendo humano conviva entre homens, e não entre feras, na ambiência da cidade.

É proibido alimentar pessoas, decretou há poucos dias o prefeito Kassab. Da mesma forma como décadas antes confiscavam os fiscais da prefeitura as migalhas de pão em mãos de aposentados nas manhãs de domingo, homens armados da prefeitura tem ordens agora de confiscar pratos de sopa das mãos de quem os receba de caridosos concidadãos.

Apressam-se as autoridades em atribuir a insólita ordem à busca de eficiência dos serviços municipais voltados à população em situação de rua. Julgam-na uma decisão administrativa como qualquer outra, que regra as atividades desenvolvidas na cidade e as coisas que lhe são próprias.

Ao dar primazia aos inexistentes serviços prestados pelo governo municipal, pelo menos na escala e amplitude necessária, o que se assiste é ao Estado interferir na relação solidária entre pessoas, obstar o exercício de práticas humanitárias que nunca se pensou pudesse qualquer governo  visar.

Dá-se com a iniciativa passo ousado para criminalizar a solidariedade humana dirigida à mitigação da pobreza, à ação individual que permite ao ser humano enxergar-se como tal. Manifestar humanidade e fazer aquilo que o Estado tarda a fazer está prestes a tornar-se crime. A crueldade está aponto de virar política de governo, para espanto daqueles que pensavam não chegar a tanto a insensibilidade de tecnocratas de governo.

Rebelar-se contra essa ignomia é mais que um direito, é uma imposição do sentimento humano. Que sejam estilhaçados, pois, os vidros do gabinete do Sr Prefeito, para lembrar a todos os governantes que ninguém está obrigado a perder sua humanidade em razão de regras municipais.
*Brasilquevai

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