Uma parábola do escritor americano Richard Bach

Uma parábola do escritor americano Richard Bach, autor de “Fernão
Capelo Gaivota” (1970), do livro “Ilusões, as Aventuras de Um Messias
Indeciso” (1977), que apresenta uma versão sobre o que é aliberdade do
homem e a criação de mitos sobre salvadores e messias nas culturas
humanas. É deste livro também a bela citação que diz ”O que a lagarta
chama de fim do mundo, o mestre chama de borboleta” –
“Certa vez vivia um povo no leito de um grande rio cristalino. A
correnteza deslizava silenciosamente sobre todos eles, jovens e velhos,
ricos e pobres, bons e maus. E a correnteza seguia seu caminho, alheia a
tudo que não fosse sua própria essência de cristal.
Todas
aquelas criaturas se agarravam como podiam aos ramos e às pedras do
leito do rio, porque sua vida consistia em se agarrar e porque todas
elas, desde o berço, tinham aprendido a resistir à correnteza. Mas por
fim uma das criaturas disse: “Estou farta de me agarrar. Mesmo que meus
olhos não vejam o que há pela frente, confio que a correnteza saiba para
onde vai. Vou me soltar e deixar que ela me leve pra onde quiser. Se eu
continuar aqui, imobilizada, morrerei de tédio!”
As outras
criaturas riram e exclamaram: “Tola! Se você se soltar, essa correnteza
que você venera a lançará, aos trambolhões e feita em pedaços, contra as
pedras. Ela a matará mais depressa que o tédio.” Mas ela não lhes deu
ouvido. Inspirou profundamente e se soltou. A correnteza lançou-a com
violência contra as pedras, mas a criatura, embora machucada, estava
decidida a não se agarrar novamente. E então a correnteza a trouxe à
tona e ela não mais sofreu nem se lastimou.
As criaturas que
viviam rio abaixo e não a conheciam exclamaram: “Vejam, um milagre! Uma
criatura igual a nós, e no entanto voa nas águas! Olhem, é o Messias que
veio nos salvar!” E a que que tinha sido arrastada pela correnteza
respondeu: “Não sou mais Messias do que vocês. O rio gosta de nos fazer
voar, com a condição de que ousemos nos soltar. Nossa verdadeira missão
na vida é esta viagem, esta aventura”.
As outras continuaram
gritando, cada vez mais alto: “O Salvador! O Salvador”, mas ainda
agarradas às pedras. E quando levantaram os olhos, ela tinha
desaparecido. Ficaram sozinhas, criando lendas sobre um Salvador.”
*EustachioA.P.
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