A RECORDAÇÃO DE CHE, SEGUNDO SARAMAGO:

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"A Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e de Caetano, chegou um dia
o retrato clandestino de Ernesto Guevara. Esse retrato chegou e nos
comoveu a todos... Existia una esquerda ativa, séria e trabalhadora que o
viu como uma referência... E também havia, por cima, ou por baixo, como
se queira entender, uma esquerda que podemos chamar de intelectual que
às vezes com boa fé convertia Che numa espécie de ícone. Isso ocorreu
muito menos entre gente da classe operária, que desde então chamávamos
de esquerda afetiva, que no fundo seguiram Che e a Revolução Cubana como
se fossem modas.
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"Não quer dizer que não havia aí inclusive
alguma ou muita sinceridade, porém também havia um pouco de oportunismo.
Quando o tempo passou e Che tinha morrido, e as coisas se normalizaram
de alguma forma, a esquerda deixou de parecer a muita gente essa espécie
de aurora, de algo que iluminava todo o espaço. Foi então quando
escrevi que o retrato de Che desapareceu da parede e em alguns casos se
jogou no lixo. Esse texto é ao mesmo tempo uma homenagem a Che Guevara, e
também, um olhar irônico sobre a instabilidade das ideologias, em que
por vezes se dá mais valor ao superficial que ao profundo".
Era a
vida que tinha mudado. Eles mesmos se viram mudados e sem demasiadas
idéias progressistas. E, portanto, o retrato de Che Guevara deixou de
representar para eles o que representava antes. “Cansaram-se e no lugar
de Che, puseram outra coisa”.
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"Se pudesse falar com eles,
estou seguro de que no teriam nenhuma dúvida em reconhecer que se houve
uma pessoa nos tempos recentes que deu ao mundo um exemplo de dignidade,
um ideal realmente supremo, esse foi Che. E o MELHOR DE TUDO é que a
gente também se encontra continuamente com MENINOS E MENINAS QUE SABEM
TUDO o que há que saber sobre a vida e sobre as ações de Che Guevara, e
que VESTEM SUA CAMISETA, MAS DE CORAÇÃO".
*MariaLeite
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