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terça-feira, abril 02, 2013

Por Álvaro Cunhal

Ser comunista não consiste apenas em ter um objetivo político e lutar pela sua realização. Ser comunista não é apenas uma forma de agir politicamente. É uma forma de pensar, de sentir e de viver. E isto significa que os comunistas, não só têm objetivos políticos e sociais, não só têm uma ideologia e um ideal de transformação da sociedade, como têm também uma moral própria, diferente da moral da burguesia e superior a ela.

A moral comunista assenta numa base objetiva que determina a sua natureza de classe.

De fato, a base material da moral comunista são as condições de trabalho e de vida do proletariado, a sua luta contra o capital, e, depois da revolução socialista vitoriosa, a sociedade libertada da exploração do homem pelo homem. A moral comunista integra princípios herdados do patrimônio ético do passado. Mas o que a caracteriza e diferencia são os princípios que resultam da natureza, dos objetivos e da missão histórica do proletariado. A coesão, a solidariedade, a ajuda recíproca, a abnegação, a generosidade, a combatividade, a determinação, a capacidade de sacrifício, a disciplina, a confiança em si próprio e no futuro, são elementos éticos que resultam das próprias condições de trabalho e de vida da classe operária, dos seus objetivos e da sua luta. 

A moral proletária e comunista desenvolveu-se e continua a desenvolver-se com o avanço da luta de classes e a evolução social. Espontânea e instintiva — antes da criação do socialismo científico. Formulada, sistematizada, expurgada de elementos estranhos e contrários — pelo marxismo. Encarnada, institucionalizada em princípios de conduta e transformada num instrumento de influência na classe e nas massas — pelos partidos comunistas. Enriquecida com a nova realidade e como uma das bases da criação do homem novo — pela construção do socialismo. Ao longo de todas estas fases, a moral comunista conservou sempre a sua raiz e a sua natureza de classe — classe à qual cabe o papel determinante da transformação social na época histórica em que vivemos.

A moral comunista sofre o influxo criativo e formativo do ideal político e da prática revolucionária.

A missão histórica do proletariado, a luta contra a exploração e a opressão, contra o parasitismo e as injustiças sociais, pela igualdade dos seres humanos independentemente do sexo, da nacionalidade e da raça, as vitórias e realizações na construção do socialismo, as exigências e sacrifícios que aos militantes coloca a prática revolucionária, exercem poderosa influência na formação dos conceitos morais, acentuando os traços de generosidade, de dedicação, de isenção, de respeito pelos outros, de respeito pela verdade, de coragem, de sacrifício, de heroísmo. 

Enquanto o capitalismo, o imperialismo, o chauvinismo, o colonialismo, o neocolonialismo, o racismo, se traduzem no plano moral por conceitos e sentimentos de egoísmo, rapacidade, domínio ilegítimo, desprezo pelos outros seres — a causa operária inspira conceitos e sentimentos de generosidade, de fraternidade, de solidariedade, de amor pelo ser humano. O ideal político comunista é inspirador de uma moral superior. A prática revolucionária dos comunistas é uma escola de elevada educação moral e de formação do carácter.

* Álvaro Cunhal foi um político, escritor e teórico socialista de Portugal, que dedicou sua vida ao ideal comunista

Texto extraído da obra O Partido com paredes de vidro
*centro do socialismo

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