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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quinta-feira, junho 23, 2011

DE VOLTA À BARBÁRIE: EM CINCO ANOS, POLÍCIA DE SP MATA MAIS DO QUE TODA POLÍCIA DOS EUA

Uma sombra para a democracia

Os métodos da polícia de São Paulo se inspiram cada vez mais na mesma violência que ela diz combater. Basta relembrar como os policiais têm reprimido com violência as mais recentes manifestações populares para se ter uma ideia de como é sua ação em todos os outros casos. Se as cenas já espantavam, os dados agora confirmam: a polícia de SP provocou mais mortes do que todo efetivo policial dos EUA nos últimos cinco anos.

Segundo dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública) 2.045 pessoas foram mortas no estado de São Paulo pela Polícia Militar em confronto – casos que foram registrados como resistência seguida de morte – entre 2005 e 2009. Já o FBI (polícia federal americana) aponta que todas as forças policiais dos EUA mataram em confronto 1.915 pessoas em todo o país no mesmo período.

Levando em conta que a população do estado de São Paulo é oito vezes menor que a dos EUA, algo só pode estar errado em toda essa conta. E o erro passa justamente pela “lógica de guerra” na qual se pauta a polícia paulista e pela ideia de que “bandido bom é bandido morto”, impregnada na cultura brasileira.O fato é que as fronteiras entre policial e criminoso estão ficando cada vez mais tênues (sempre foram, mas agora esse fato ganha mais visibilidade). Por que as mortes provocadas por um policial são mais justas e legítimas do que as mortes provocadas por um “criminoso”? O que condena um e glorifica o outro?

Dúvidas à parte, a realidade expõe diante dos nossos olhos o fato de que o policial, também ele, comete o seu crime particular, movido por uma cultura da violência pela violência que o cotidiano e a história da sociedade brasileira soube produzir muito bem durante a ditadura militar e que ainda germina até os dias de hoje.

Veja trecho de notícia sobre o assunto publicada pelo Portal R7:

Em cinco anos, PM de São Paulo mata mais que todas as polícias dos EUA juntas
Corporação paulista matou 6% mais que polícias americanas entre 2005 e 2009
Por Luciana Sarmento, do R7
Com uma população quase oito vezes menor que a dos Estados Unidos, o Estado de São Paulo registrou 6,3% mais mortes cometidas por policiais militares do que todo os EUA em cinco anos, levando em conta todas as forças policiais daquele país. Dados divulgados pela SSP (Secretaria de Segurança Pública), e analisados pela Ouvidoria da Polícia, revelam que 2.045 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo pela Polícia Militar em confronto – casos que foram registrados como resistência seguida de morte – entre 2005 e 2009.
Já o último relatório divulgado pelo FBI (polícia federal americana) aponta que todas as forças policiais dos EUA mataram em confronto 1.915 pessoas em todo o país no mesmo período. As mortes são classificadas como justifiable homicide (homicídio justificável) e definidas pelo “assassinato de um criminoso por um policial no cumprimento do dever”.
Para Guaracy Mingardi, ex-subsecretário nacional de Segurança Pública e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a diferença no total de mortes do Estado e dos Estados Unidos se deve à própria cultura geral da sociedade brasileira, que tende a apoiar os assassinatos cometidos por policiais e prega que “bandido bom é bandido morto”.
- Nós temos uma diferença. O júri americano tem uma tendência a inocentar [o acusado] porque ele desconfia do Estado. Aqui, apesar de o nosso Estado ser pior, o júri tende a condenar [o acusado] porque ele considera que, se a polícia pegou, é porque ele tem culpa no cartório. (Texto completo)
*educaçãopolitica

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