Páginas
Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
quarta-feira, agosto 21, 2013
FILHO DE EDIR MACEDO SE ASSUME GAY E CHOCA COMUNIDADE EVANGÉLICA
Mesmo assim, a saída do armário de Moyses está sendo amplamente divulgada em sites gospel do Brasil.
Apesar
de viver “escondido” por conta de sua rebeldia, o rapaz cresceu nos
Estados Unidos e já esteve envolvido em algumas polêmicas absurdas, como
uma suposta gravação onde se masturba, joga a Bíblia para o alto e
aponta o dedo do meio para o público.
*centrodosocialismo
Operação 7 de setembro da direita
20/08/2013
Altamiro BorgesEm sua coluna de domingo (18), em O Globo, o “imortal” Merval Pereira deu a pista. Após expressar os seus temores com o julgamento do “mensalão do PT”, ele apostou suas fichas nas “grandes manifestações que estão sendo convocadas em todo o país para comemorar o Dia da Independência na visão da cidadania”.
Um rápido monitoramento na internet revelou de qual “cidadania” o jornalista gosta. Uma tal “Operação 7 de setembro” está sendo organizada com forte influência de setores da direita nativa.
Até o momento, segundo os organizadores, há 162 protestos agendados, incluindo todas as capitais. A mobilização não tem nada de “espontânea”. A página do grupo é bem profissional – com um vídeo incendiário, áudios e outros recursos multimídias. As bandeiras da “Operação 7 de setembro” explicam a alegria do colunista global: “prisão dos mensaleiros”; “fim do voto obrigatório” e “reforma tributária”, entre outras propostas que agradam tanto os setores conservadores da sociedade.
Para os mentores dos protestos, a reforma tributária deve “desonerar a folha de pagamento das empresas, acabar com a contribuição do salárioeducação e parte da contribuição patronal para a Previdência Social”.
Em dezenas de páginas no Facebook, a postura fascistoide dos organizadores da “operação” fica ainda mais explícita. Vários deles pedem “ditadura militar, já”; “fora os petralhas corruptos”; “fechamento do Congresso Nacional”.
Há, também, mensagens progressistas por mais educação, saúde e justiça social, mas elas são minoritárias. No caso da convocação do ato para Brasília, alguns insinuam com provocações durante a parada militar do 7 de setembro.
Com a chamada jornada de junho, a direita nativa ganhou coragem para ir às ruas – como atestaram várias cenas fascistoides contra as forças de esquerda. É bom ficar esperto!
**Brasildefato
Cassação em Taubaté é nova bomba de Alckmin
Depois das denúncias no metrô,
envolvendo as empresas Siemens e Alstom, governador de São Paulo,
Geraldo Alckmin, terá que explicar a corrupção na Fundação para o
Desenvolvimento da Educação, que, nos últimos anos, liberou mais de R$
700 milhões em bolsas universitárias; até recentemente, a FDE era
comandada por José Bernardo Ortiz, homem de total confiança de Alckmin;
ontem, seu filho, José Bernardo Ortiz Júnior, teve seu mandato cassado
na prefeitura da rica cidade de Taubaté justamente em função dos
desvios na FDE, que alimentaram sua candidatura; é mais um escândalo
que conecta desvios no setor público ao financiamento de campanhas
políticas
Uma decisão tomada ontem pela Justiça
Eleitoral, que cassou o mandato do prefeito de Taubaté (SP), José
Bernardo Ortiz Júnior, do PSDB, é a nova bomba que explode no colo do
governador Geraldo Alckmin, que ainda não se recuperou do chamado
propinoduto do metrô, alimentado pelas empresas Siemens e Alstom. Ortiz
Júnior foi cassado porque sua campanha foi alimentada, segundo a
Justiça, com recursos desviados da Fundação para o Desenvolvimento da
Educação (FDE), uma poderosa autarquia do governo estadual, que, nos
últimos anos, distribuiu mais de R$ 700 milhões em bolsas universitárias
(leia mais aqui sobre a cassação de Ortiz Júnior).
O problema é que, até recentemente, a
FDE era comandada por um dos mais próximos auxiliares de Alckmin: José
Bernardo Ortiz, que vem a ser o pai do prefeito cassado. Ortiz foi
afastado do comando da FDE e teve seus bens bloqueados porque, segundo a
Justiça, teria superfaturado licitações até para a compra de mochilas
escolares. Mesmo com todas as suspeitas, Alckmin sempre reiterou a
confiança em Ortiz (leia mais aqui). Segundo o Ministério Público, as mochilas teriam sido superfaturadas em R$ 11,5 milhões.
No entanto, café pequeno perto dos R$
700 milhões distribuídos em bolsas universitárias nos últimos anos em
São Paulo – o que fez com que instituições de ensino recém criadas se
transformassem rapidamente em potências do setor (leia mais aqui).
Com a cassação de Ortiz Júnior, Alckmin
se depara mais uma vez com um escândalo que conecta desvios de
recursos no setor público ao financiamento de campanhas políticas.
Exatamente como no caso do metrô.
No 247*comtextolivre
MARCO AURÉLIO ATACA "MASSACRE" À DIVERGÊNCIA
Ministro Marco Aurélio Melo defende Ricardo Lewandowski; atacou "censura
contra divergência" feita por Joaquim Barbosa; pediu registro "de forma
perene" nos anais do Supremo; Barbosa aquiesceu e dirigiu-se a outro
ministro, seguindo a sessão: "ministro Dias Tofoli, vamos trabalhar",
disse, com certa ironia; antes, presidente pedira discretas desculpas;
"Não me move a intenção de cercear a livre manifestação"; Lewandowski
disse que se sentiu "extremamente confortado" pelo apoio de jornalistas,
magistrados e parlamentares de todo o País diante da crítica de Barbosa
na sessão anterior; afirmou, em seguida, querer deixar o "lamentável
episódio de lado"; assista ao vivo
247 –
Foi com desculpas discretas que o presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF), Joaquim Barbosa, iniciou a sessão desta quarta-feira 21
da Ação Penal 470. Sem citar o nome de Lewandowski, o ministro negou que
tenha tido a intenção de "cercear a livre manifestação" na corte, mas
ressaltou que é de sua obrigação, como presidente do tribunal, "zelar
pelo bom andamento dos trabalhos", uma vez que "Justiça que tarda não é
Justiça". Na semana passada, Barbosa acusou Ricardo Lewandowski de fazer
"chicana", pouco antes de encerrar a sessão.
"Como presidente desta corte, tenho a responsabilidade de respeitar os
preceitos fundamentais, zelar pelo bom andamento dos trabalhos, o que
inclui a regularidade e celeridade dos trabalhos dessa corte. Uma vez
que Justiça que tarda não é Justiça. Todas as minhas iniciativas deste
tribunal estão impregnadas desta visão. Não me move a intenção de
cercear a livre manifestação desta corte, muito menos de extrapolar as
prerrogativas do cargo. Eu retifico porém que é dever do presidente
dessa Casa para que o andamento seja célere, sem delongas", disse
Barbosa.
Assista à sessão ao vivo pela TV Justiça.
O ministro Ricardo Lewandowski pediu a palavra e respondeu que deseja
deixar o "lamentável" episódio "de lado". Ele disse também ter se
sentido "extremamente confortado" pelas manifestações de associações de
classe da magistratura, do presidente do Conselho Federal da OAB, de
dezenas de editoriais e de colunas dos mais importantes jornais do
Brasil, do "apoio e solidariedade" de colegas, de juristas, acadêmicos,
parlamentares, membros do Executivo, ministros dessa Casa, de hoje e de
ontem, ex-presidentes.
"De maneira que quero deixar esse episódio de lado, considerando-o
ultrapassado porque este tribunal, pela sua história, é maior do que
cada uma de seus membros individualmente considerados e do que a
somatória de todos os seus integrantes. Eu, como todos nós, somos órgãos
do Estado", finalizou o ministro. O decano Celso de Mello também fez um
discurso sobre o episódio, que segundo ele, "jamais deveria ser feito".
Ele afirmou que divergências "valorizam as decisões" e defendeu o
"debate, a aceitação, a diferença e o acolhimento do pluralismo de
ideias".
Recursos
O Supremo retomou hoje o julgamento dos recursos apresentados pelos
condenados na Ação Penal 470, o processo do mensalão. Será a terceira
sessão exclusiva da Corte para analisar os embargos declaratórios,
recursos que servem para questionar pontos omissos ou contraditórios do
julgamento.
A pauta deve ser retomada com a análise do recurso do ex-deputado
federal Bispo Rodrigues (PL-RJ), atual PR. Ele foi condenado a seis anos
e três meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de
dinheiro. Na última quinta-feira (15), os ministros iniciaram o
julgamento de Rodrigues, mas a sessão foi suspensa após um bate-boca
entre o presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, e o ministro Ricardo
Lewandowski.
A previsão da presidência do STF é que sejam julgados também os recursos
de Katia Rabelo, José Roberto Salgado, Vinicius Samarane, Marcos
Valério e Delúbio Soares. O quórum da sesssão deverá estar completo esta
semana, com 11 ministros. Na semana passada, Teori Zavascki não
participou do julgamento por causa da morte de sua mulher, na última
segunda-feira (12)
Desde o início do julgamento dos recursos, no dia 14 deste mês, o STF
rejeitou sete dos 25 recursos apresentados pelos condenados no processo.
O único que teve os embargos aceitos foi o empresário Carlos Alberto
Quaglia. A decisão da Corte foi unânime ao analisar recurso apresentado
pela defesa do réu, que sequer chegou a ser julgado pelo Supremo no ano
passado.
EXCLUSIVO: CHEGAM 400 MÉDICOS CUBANOS
“Nesta quarta-feira, o ministro da Saúde,
Alexandre Padilha, anuncia a formalização do acordo com Cuba para a vinda de
400 médicos ao Brasil. Outros 1.500 profissionais cubanos devem
desembarcar um pouco mais adiante. A decisão reflete um novo momento do
programa ‘Mais Médicos' que ,progressivamente, furou o bloqueio duplo da má
vontade conservadora e do elitismo corporativista. Lançado em oito de julho, a
iniciativa ataca fatores emergenciais e estruturais que multiplicam áreas
desassistidas no país.
O Brasil tem apenas 1,8 médico por mil
habitante; a Argentina tem três. O governo quer elevar o índice brasileiro para
2,5 por mil. Precisará de mais 168.424 médicos. As escolas brasileiras
formam cerca de 18 mil médicos por ano. Mais de 3.500 municípios aderiram ao
programa. O ministro Padilha pretende acudir a emergência com a vinda imediata
de profissionais estrangeiros; e corrigir a usina estrutural desse hiato
incorporando as escolas de medicina à política da saúde pública no Brasil.
De dois modos: incentivando a formação do
clínico-geral e transformando a residência médica em prestação de serviço
remunerada no SUS. O acordo com Cuba, bombardeado originalmente,
foi revalidado pelo próprio boicote corporativista, que tornou
explícita a indiferença das elites em relação aos segmentos mais
vulneráveis da população. Foi obra da paciência política do governo. Hoje, mais
de 54% dos brasileiros declaram-se favoráveis à vinda de estrangeiros para
socorrer as regiões distantes e periferias conflagradas. Mais que uma
vitória isolada, o Mais Médicos descortina uma nova família de políticas
públicas, que convoca a universidade se incorporar ao do passo
seguinte do desenvolvimento brasileiro.”
*Saraiva
O analfabeto midíatico
Por Celso Vicenzi, no sítio Vermelho:
Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis.
Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no País.
Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do País calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ, denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.
O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar.
Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos.
Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “Então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”.
Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.
O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.
O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos.
Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.
O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público.
Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
*Miro
Por Celso Vicenzi, no sítio Vermelho:
Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis.
Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no País.
Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do País calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ, denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.
O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar.
Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos.
Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “Então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”.
Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.
O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.
O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos.
Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.
O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público.
Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
*Miro
terça-feira, agosto 20, 2013
O estigma da ilegalidade afeta nossa cultura, manifestando-se em forma de intolerância
![NOVOS HEREGES (Por Renato Malcher - neurocientista)
Em 1600, aos 52 anos, o filósofo, matemático e astrônomo Giordano Bruno foi acusado de heresia e queimado vivo. Não se sabe ao certo o que pesou mais para que os inquisidores de Roma decidissem silenciar seu cérebro de forma tão exemplar: se sua convicção de que o Sol era apenas mais uma estrela no céu, ou sua crença de que existiam incontáveis planetas habitados no universo, cada qual com seus respectivos e diversos Deuses. Na idade das trevas, a heresia era o pior dos crimes, mesmo sem afetar a integridade física ou subtrair qualquer bem de outra pessoa. Um crime que, em termos práticos, pode ser definido como o ato de compartilhar qualquer pensamento que fosse distinto da verdade inventada por uma elite dominadora. Portanto, hereges eram aqueles que ousavam alforriar seus próprios neurônios.
O anseio pelo controle dos neurônios alheios sobreviveu aos séculos e, mais do que aquele pela paz, parece compor a base filosófica das leis que criaram a guerra às drogas. A proibição de uma substância psicoativa, sem base lógica e em detrimento de sua regulamentação por meio dos mesmos parâmetros usados para outros fármacos, impede que os indivíduos tenham acesso a opções mais seguras e adequadas aos seus organismos do que aquelas arbitrariamente permitidas pelos políticos. Não é uma questão “apenas” de direitos individuais, é importante regulamentar com base científica o uso de quaisquer fármacos para evitar que eles causem mal tanto aos indivíduos quanto à sociedade. Entretanto, pretender controlar pela força da lei o ato íntimo de alterar o próprio estado de consciência é tão razoável quanto delegar a legisladores que decidam pela pessoa o que fazer para satisfazer sua vida afetivo-sexual ou religiosa. A lei que criminaliza o uso da droga não convence pessoas adultas a dividir com o estado a soberania sobre si mesmas. Especialmente em casos como o da maconha, que é muito menos lesiva aos indivíduos e à sociedade do que outras drogas permitidas pela lei. A criminalização ofende, constrange, instiga preconceitos, prejudica o acesso à informação, à orientação médica, a tratamentos em casos de abuso e, no caso da maconha, ainda impede a pesquisa e a aplicação de suas propriedades medicinais. Porém, não acaba com a demanda, favorecendo a prosperidade de um mercado negro comandado pelo crime e regulado pela violência. Esta violência, somada à da própria guerra contra este mercado, gera desgraças pessoais e danos sociais absurdamente desproporcionais ao mal que qualquer droga possa causar.
O estigma da ilegalidade afeta nossa cultura, manifestando-se em forma de intolerância semelhante àquelas que levavam famílias de bem ao êxtase diante do martírio de Giordano Bruno e de tantos outros espíritos visionários os quais, em sua sinceridade, compartilharam dessa extraordinária capacidade tão humana, que é a de multiplicar ideias e visões do mundo. Não é um problema restrito aos usuários de drogas ilegais, mas é emblemático perceber que famílias de bem, colunistas de jornais, apresentadores de TV e políticos, que outrora estariam na claque das fogueiras a gritar “Hereges Malditos!”, hoje gritam “Maconheiros Vagabundos!”. E o fazem com o mesmo ódio doloso com os quais também se usam expressões como “puta vadia”, “preto safado”, “mendigo nojento”, “bicha depravada” e assim por diante. Será que tanta agressão é melhor para a sociedade do que o trabalho daqueles que usam a maconha, por exemplo, para estimular sua criatividade e sensibilidade artística? O que seria, por exemplo, da música brasileira (e mundial) sem a maconha? Tudo isso parece irrelevante diante do poder entorpecente da intolerância, que afaga o próprio ego de quem a professa, como um recurso fácil para se sentir superior aos outros sem precisar fazer nada de útil ou belo pela humanidade ou pelo planeta. A intolerância é o ópio daqueles que ainda não aprenderam a contribuir generosa e criativamente para o aprimoramento e expansão do extraordinário potencial humano. Vício capaz de controlar rebanhos gordos de preconceitos e psicologicamente dependentes da desinformação. Massa de manobra para aqueles que lucram com as desgraças das guerras, inclusive as da guerra às drogas.
Apesar de o obscurantismo permanecer uma força opressora da razão, o entendimento científico do mundo e das coisas vivas permanece avançando. Assim como avançam os recursos para acessarmos estas informações e para conhecermos um número cada vez maior de pessoas com suas diversas formas de entender e apreciar o mundo e a vida. Porém, o acesso ao conhecimento pode ser bloqueado em grande parte pelas próprias leis, por instituições governamentais, pelo preconceito cultural, e pela ação da mídia de comunicação de massa. Desta forma, a ciência também sofre censura e cerceamento quando as informações que ela traz contradizem as vontades, os interesses ou os preconceitos de quem cria e banca as leis. Por muitos anos, o vínculo de agências financiadoras de pesquisa com politicas de estado do governo norte-americano, por exemplo, comprometeu seriamente a pesquisa acerca dos reais efeitos da maconha sobre a saúde e facilitou a proliferação de artigos que, frequentemente de forma tendenciosa, apoiassem a política antidrogas do governo. O National Institute on Drug Abuse dos Estados Unidos (NIDA) prestou esse desserviço à humanidade por muitas décadas. No Brasil, devemos repudiar essas visões ultrapassadas que apoiam leis e posturas políticas as quais, por sua vez, sabotam a pesquisa e a utilização das inquestionáveis propriedades medicinais da maconha. Obstruindo, de forma anticientífica e, portanto, antiética, o alívio de sofrimentos severos em pessoas que, em plena sintonia com a ciência, fazem uso inteligente dessa obra-prima da natureza. Apesar de expressivas exceções, boa parte da grande mídia, dos políticos, do governo e até dos médicos, foge do conhecimento científico e histórico subjacentes a estas questões. Simplesmente se esquivam diante do tabu e, talvez, do receio em admitir que milhares de pessoas, incluindo crianças, trabalhadores honestos, criminosos e policiais honrados, são mortos em vão na guerra contra uma planta medicinal.
A maconha não deve ser usada por jovens em crescimento e o abuso não é bom nem para adultos. Entretanto, a dependência psicológica de maconha é relativamente rara e seus efeitos danosos, para o indivíduo e para a sociedade, demandam cuidados, mas não justificam a ilegalidade. A maconha não mata, não causa esquizofrenia, não causa câncer, não danifica o cérebro, não causa dependência fisiológica, não tira a consciência do usuário e não torna a pessoa violenta. Ela pode atrapalhar o desempenho de jovens em idade escolar e ser prejudicial a um grupo minoritário de pessoas com distúrbios psiquiátricos não diagnosticados, por exemplo. Mas, para a grande maioria das pessoas, os efeitos da maconha não só são muito menos nocivos que os do álcool e os do cigarro, como são também, ao contrário destes, perfeitamente recomendáveis para diversas aplicações medicinais. Erra quem diz que usar maconha leva ao uso de outras drogas. Porém, seus efeitos ansiolíticos, antidepressivos, e inibidores de parte do sistema nervoso que ativa reação ao estresse, torna o uso da maconha uma alternativa como porta de saída para dependentes de drogas mais pesadas e viciantes como o álcool, o crack e a cocaína: a maconha pode aliviar a síndrome de abstinência dessas drogas.
Séculos após o assassinato de Giordano Bruno, o astrofísico Carl Sagan, mundialmente famoso por seu brilhantismo científico, dedicou, como Bruno, sua vida à busca do conhecimento sobre o universo e nosso lugar dentro dele. Sagan também defendeu a possibilidade de vida em outros planetas e, em seu extensivo trabalho de divulgação cientifica, explicou de forma lindíssima a ciência que veio confirmar a astronomia de Bruno... Carl Sagan não escaparia se vivesse na mesma época: além de um convicto herege à moda antiga, ele também era maconheiro! Sim, e ainda cometeu a blasfêmia de escrever textos contando como a maconha o ajudou no desenvolvimento de muitos de seus preciosos insights intelectuais. Se havia algo que a inquisição abominava tanto quanto hereges, era o uso de plantas que, além de expandir os limites da consciência, pudessem mitigar sofrimentos do corpo e da mente - funções que eram como que propriedades intelectuais da Igreja. Celebramos, portanto, os bravos hereges responsáveis pelo lançamento desta revista que, embora seja semSemente, ajudará a semear a paz da qual todos colheremos frutos.
[texto publicado na primeira edição da revista semSemente]
Renato Malcher (neurocientista, membro do International Centre for Science in Drug Policy http://icsdp.org/) é Mestre
em Biologia Molecular, doutor (Ph.D) em Neurociências. Atualmente é professor adjunto do Departamento de Fisiologia da Universidade de Brasília e autor do livro "Maconha, Cérebro e Saúde" escrito em colaboração com o neurocientista Sidarta Ribeiro.
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=139654219510282&set=a.134992279976476.30639.134982639977440&type=1&theater](https://fbcdn-sphotos-b-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash4/s403x403/1001605_275570959251940_500565303_n.png)
Em 1600, aos 52 anos, o filósofo, matemático e astrônomo Giordano Bruno foi acusado de heresia e queimado vivo. Não se sabe ao certo o que pesou mais para que os inquisidores de Roma decidissem silenciar seu cérebro de forma tão exemplar: se sua convicção de que o Sol era apenas mais uma estrela no céu, ou sua crença de que existiam incontáveis planetas habitados no universo, cada qual com seus respectivos e diversos Deuses. Na idade das trevas, a heresia era o pior dos crimes, mesmo sem afetar a integridade física ou subtrair qualquer bem de outra pessoa. Um crime que, em termos práticos, pode ser definido como o ato de compartilhar qualquer pensamento que fosse distinto da verdade inventada por uma elite dominadora. Portanto, hereges eram aqueles que ousavam alforriar seus próprios neurônios.
O anseio pelo controle dos neurônios alheios sobreviveu aos séculos e, mais do que aquele pela paz, parece compor a base filosófica das leis que criaram a guerra às drogas. A proibição de uma substância psicoativa, sem base lógica e em detrimento de sua regulamentação por meio dos mesmos parâmetros usados para outros fármacos, impede que os indivíduos tenham acesso a opções mais seguras e adequadas aos seus organismos do que aquelas arbitrariamente permitidas pelos políticos. Não é uma questão “apenas” de direitos individuais, é importante regulamentar com base científica o uso de quaisquer fármacos para evitar que eles causem mal tanto aos indivíduos quanto à sociedade. Entretanto, pretender controlar pela força da lei o ato íntimo de alterar o próprio estado de consciência é tão razoável quanto delegar a legisladores que decidam pela pessoa o que fazer para satisfazer sua vida afetivo-sexual ou religiosa. A lei que criminaliza o uso da droga não convence pessoas adultas a dividir com o estado a soberania sobre si mesmas. Especialmente em casos como o da maconha, que é muito menos lesiva aos indivíduos e à sociedade do que outras drogas permitidas pela lei. A criminalização ofende, constrange, instiga preconceitos, prejudica o acesso à informação, à orientação médica, a tratamentos em casos de abuso e, no caso da maconha, ainda impede a pesquisa e a aplicação de suas propriedades medicinais. Porém, não acaba com a demanda, favorecendo a prosperidade de um mercado negro comandado pelo crime e regulado pela violência. Esta violência, somada à da própria guerra contra este mercado, gera desgraças pessoais e danos sociais absurdamente desproporcionais ao mal que qualquer droga possa causar.
O estigma da ilegalidade afeta nossa cultura, manifestando-se em forma de intolerância semelhante àquelas que levavam famílias de bem ao êxtase diante do martírio de Giordano Bruno e de tantos outros espíritos visionários os quais, em sua sinceridade, compartilharam dessa extraordinária capacidade tão humana, que é a de multiplicar ideias e visões do mundo. Não é um problema restrito aos usuários de drogas ilegais, mas é emblemático perceber que famílias de bem, colunistas de jornais, apresentadores de TV e políticos, que outrora estariam na claque das fogueiras a gritar “Hereges Malditos!”, hoje gritam “Maconheiros Vagabundos!”. E o fazem com o mesmo ódio doloso com os quais também se usam expressões como “puta vadia”, “preto safado”, “mendigo nojento”, “bicha depravada” e assim por diante. Será que tanta agressão é melhor para a sociedade do que o trabalho daqueles que usam a maconha, por exemplo, para estimular sua criatividade e sensibilidade artística? O que seria, por exemplo, da música brasileira (e mundial) sem a maconha? Tudo isso parece irrelevante diante do poder entorpecente da intolerância, que afaga o próprio ego de quem a professa, como um recurso fácil para se sentir superior aos outros sem precisar fazer nada de útil ou belo pela humanidade ou pelo planeta. A intolerância é o ópio daqueles que ainda não aprenderam a contribuir generosa e criativamente para o aprimoramento e expansão do extraordinário potencial humano. Vício capaz de controlar rebanhos gordos de preconceitos e psicologicamente dependentes da desinformação. Massa de manobra para aqueles que lucram com as desgraças das guerras, inclusive as da guerra às drogas.
Apesar de o obscurantismo permanecer uma força opressora da razão, o entendimento científico do mundo e das coisas vivas permanece avançando. Assim como avançam os recursos para acessarmos estas informações e para conhecermos um número cada vez maior de pessoas com suas diversas formas de entender e apreciar o mundo e a vida. Porém, o acesso ao conhecimento pode ser bloqueado em grande parte pelas próprias leis, por instituições governamentais, pelo preconceito cultural, e pela ação da mídia de comunicação de massa. Desta forma, a ciência também sofre censura e cerceamento quando as informações que ela traz contradizem as vontades, os interesses ou os preconceitos de quem cria e banca as leis. Por muitos anos, o vínculo de agências financiadoras de pesquisa com politicas de estado do governo norte-americano, por exemplo, comprometeu seriamente a pesquisa acerca dos reais efeitos da maconha sobre a saúde e facilitou a proliferação de artigos que, frequentemente de forma tendenciosa, apoiassem a política antidrogas do governo. O National Institute on Drug Abuse dos Estados Unidos (NIDA) prestou esse desserviço à humanidade por muitas décadas. No Brasil, devemos repudiar essas visões ultrapassadas que apoiam leis e posturas políticas as quais, por sua vez, sabotam a pesquisa e a utilização das inquestionáveis propriedades medicinais da maconha. Obstruindo, de forma anticientífica e, portanto, antiética, o alívio de sofrimentos severos em pessoas que, em plena sintonia com a ciência, fazem uso inteligente dessa obra-prima da natureza. Apesar de expressivas exceções, boa parte da grande mídia, dos políticos, do governo e até dos médicos, foge do conhecimento científico e histórico subjacentes a estas questões. Simplesmente se esquivam diante do tabu e, talvez, do receio em admitir que milhares de pessoas, incluindo crianças, trabalhadores honestos, criminosos e policiais honrados, são mortos em vão na guerra contra uma planta medicinal.
A maconha não deve ser usada por jovens em crescimento e o abuso não é bom nem para adultos. Entretanto, a dependência psicológica de maconha é relativamente rara e seus efeitos danosos, para o indivíduo e para a sociedade, demandam cuidados, mas não justificam a ilegalidade. A maconha não mata, não causa esquizofrenia, não causa câncer, não danifica o cérebro, não causa dependência fisiológica, não tira a consciência do usuário e não torna a pessoa violenta. Ela pode atrapalhar o desempenho de jovens em idade escolar e ser prejudicial a um grupo minoritário de pessoas com distúrbios psiquiátricos não diagnosticados, por exemplo. Mas, para a grande maioria das pessoas, os efeitos da maconha não só são muito menos nocivos que os do álcool e os do cigarro, como são também, ao contrário destes, perfeitamente recomendáveis para diversas aplicações medicinais. Erra quem diz que usar maconha leva ao uso de outras drogas. Porém, seus efeitos ansiolíticos, antidepressivos, e inibidores de parte do sistema nervoso que ativa reação ao estresse, torna o uso da maconha uma alternativa como porta de saída para dependentes de drogas mais pesadas e viciantes como o álcool, o crack e a cocaína: a maconha pode aliviar a síndrome de abstinência dessas drogas.
Séculos após o assassinato de Giordano Bruno, o astrofísico Carl Sagan, mundialmente famoso por seu brilhantismo científico, dedicou, como Bruno, sua vida à busca do conhecimento sobre o universo e nosso lugar dentro dele. Sagan também defendeu a possibilidade de vida em outros planetas e, em seu extensivo trabalho de divulgação cientifica, explicou de forma lindíssima a ciência que veio confirmar a astronomia de Bruno... Carl Sagan não escaparia se vivesse na mesma época: além de um convicto herege à moda antiga, ele também era maconheiro! Sim, e ainda cometeu a blasfêmia de escrever textos contando como a maconha o ajudou no desenvolvimento de muitos de seus preciosos insights intelectuais. Se havia algo que a inquisição abominava tanto quanto hereges, era o uso de plantas que, além de expandir os limites da consciência, pudessem mitigar sofrimentos do corpo e da mente - funções que eram como que propriedades intelectuais da Igreja. Celebramos, portanto, os bravos hereges responsáveis pelo lançamento desta revista que, embora seja semSemente, ajudará a semear a paz da qual todos colheremos frutos.
[texto publicado na primeira edição da revista semSemente]
Renato Malcher (neurocientista, membro do International Centre for Science in Drug Policy http://icsdp.org/) é Mestre
em Biologia Molecular, doutor (Ph.D) em Neurociências. Atualmente é professor adjunto do Departamento de Fisiologia da Universidade de Brasília e autor do livro "Maconha, Cérebro e Saúde" escrito em colaboração com o neurocientista Sidarta Ribeiro.
*Visãoampla
*FláviaL.
Assinar:
Postagens (Atom)






