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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sábado, agosto 24, 2013

Porque cuidar da vida é tão simples




Os médicos cubanos estão chegando para tratar do povo que os brasileiros se recusaram a tratar: alvíssaras!

Enfim, caiu a ficha: palmas para Ela, que saiu de uma defensiva até compreensível e optou com coragem e determinação pelos milhões de brasileirinhos que nunca viram um médico na vida, mas que, apesar dos chiliques da direita reacionária, também são filhos de Deus.

Nenhum dos 371.788 profissionais  formados nas 200 faculdades conectadas à lucrativa indústria da doença vai ter como se sentir preterido. A todos indistintamente foi oferecida a oportunidade de exercer a medicina como nos bons tempos, quando o médico tinha paciência para ouvir o paciente e uma boa conversa era meio caminho andado.
A todos os médicos do mundo, e não são só aos brasileirões, foi oferecida uma remuneração três ou quatro vezes superior às duas SUS e dessas clínicas particulares vinculadas a planos de saúde, alem de casa, comida e roupa lavada.

Formados para depender de parafernálias

Mas poucos formados aqui podiam aventurar-se no escuro, por que o máximo que aprenderam foi prescrever exames e entupir pacientes (palavra sob medida) de remédios oferecidos por atuantes propagandistas (o genérico ainda não entrou no seu receituário), generosos em brindes, viagens e até remuneração pela prescrição dos medicamentos dos seus laboratórios. Veja reportagem da revista SUPER INTERESSANTE.

Quem sabe mesmo, nem plano de saúde aceita. Está ganhando muito bem no atendimento a uma elite que pode pagar R$ 500,00 por uma consulta para perder uns quilinhos, fazer plásticas à primeira ruga, e cuidar do embelezamento em dermatologistas estéticos.

Durante os últimos 100 dias, desde o primeiro encontro do chanceler brasileiro com o cubano, a mídia, sob todas as formas, foi bombardeada por personagens raivosos e lobistas insolentes, que tentaram de todos os meios, com baixarias de toda natureza demonizar os médicos cubanos.

Houve até quem garantisse que na ilha de tantos avanços no campo da saúde, reconhecidos no mundo inteiro principalmente pela insuspeita ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, só formavam 100 médicos por ano: os outros eram perigosos agentes comunistas desses que, não sendo como os padres de Boston, se dedicavam a comer criancinhas.

Cruzada juntou a ganância com intolerância

Aliaram-se nessa cruzada obscurantista conselhos de medicina que tiveram processos eleitorais em julho, e precisavam atrair aqueles que pagam quase R$ 600,00 compulsoriamente todos os anos para ter seus registros em dia; os donos do complexo industrial e de serviços que precisam cada vez mais do mercado de enfermos, paranoicos e aprendizes de hipocondríacos,  e os desesperados fascistas que não admitem como até hoje, decorridos 52 anos, a sua dourada potência militar imperialista não conseguiu derrubar a revolução cubana, ou assassinar Fidel Castro, nem mesmo quando se dedicou a uma guerra química na década de 70, despejando sobre a ilha o vírus da dengue hemorrágica importado da Ásia.

É uma aliança suja e mal lavada. Como já aconteceu em Tocantins e Roraima, não faz muito, esses médicos com formação nada mercantilista vão mostrar com a simplicidade e a responsabilidade de um missionário que  não vão precisar da parafernália de ressonâncias magnéticas para cuidar da saúde dos cidadãos.

Um pesadelo para a indústria das doenças

Basta que se despojem das tentações pecuniárias e organizem uma relação FAMILIAR com a vizinhança antes mesmo da ocorrência de enfermidades. Nessas cidades para onde irão, de tão pobres, não se depararão certamente com vítimas de motoristas aloprados e da violência urbana, principais causas de mortes no país.

A elite mercantilista mudou o tom do discurso e agora fala com a maior leviandade das relações de trabalho, embora ainda ameace ir à polícia contra o atendimento que os médicos brasileiros recusaram numa cruzada seletiva de exclusão de quem vive longe da praia e dos shoppings.  Essa turma sabe muito bem como funcionam convênios entre nações, da autonomia de cada uma, mas joga para a platéia e fala menos no revalida, por que soube de uma articulação para que faça o próprio dever de casa: a exigir dos outros, os conselhos de Medicina deveriam fazer o mesmo que a OAB, que obriga a "prova da ordem" para o bacharel advogar.

Se entre os advogados o índice de reprovação chega a 89%, imagine entre os recém-formados de Medicina de faculdades que mal garantem aulas teóricas (agora, estão usando até aulas on line). Essa possibilidade fez murchar um pouco o discurso do revalida.

Sem "revalida" para pastores que curam


E o que dizer das práticas de curandeirismo das igrejas evangélicas? Todos os dias, em diversos horários, poderosas redes de televisão exibem curas feitas por Deus, através de pastores que nunca passaram perto de uma faculdade, em quem havia sido desenganado pelos médicos.  Não seria o caso do CFM pedir um revalida para os pastores que fazem curas em massa com o simples uso de um lenço ou de uma água milagrosa?

Faça-se uma estatística e a água benta dos pastores está "curando" mais do que a os médicos com sua tecnologia de ponta. Daí o crescimento vertiginoso das igrejas evangélicas, especialmente na periferia, onde os doutores não querem nem chegar perto.

Da mesma forma, os milhares de médicos decentes (e os não médicos) não entendem a indiferença desses conselhos diante de clínicas ilegais de aborto, de clínicas privadas de baixa qualidade, e desses atendimentos médicos em "serviços sociais" de políticos clientelistas. Expor as mazelas da rede pública, isso eles fazem diariamente. Mas as privadas parecem gozarem de uma estranha imunidade, embora o exercício da medicina afete a todos.

O desmascaramento da lenda dos fugitivos

Enquanto o Brasil já gastou U$ 2 bilhões com soldados
no Haiti, Cuba mandou um exército de 1200 médicos, o
que nenhum outro país do mundo fez,  nem os EUA.

Por outro lado, vai ser vexaminoso para os arautos da direita desta sociedade fissurada em grana continuar repetindo surradas aleivosias, como aquela de que o maior desejo de  todo cubano é fugir para o mundo consumista. Alegam para os incautos e idiotas que esses médicos são verdadeiros escravos: só falta forjarem "fotos" de médicos cubanos acorrentados. Esses "escravos" já salvaram vidas em mais de 100 países, de onde voltam orgulhosos para a ilha rebelde.

Na verdade,  toda essa turma doentia está morrendo de medo do entrosamento dos médicos cubanos com as populações pobres, como aconteceu em Mucajaí, a 60 km de Boa Vista, Roraima, onde o médico cubano Josué Jesus Matos casou-se com uma brasileira, naturalizou-se e acabou eleito prefeito da cidade pelo inexpressivo PSL, derrotando o candidato do PMDB, que tentava a reeleição.  

A menos que esses defensores da medicina de mercado consigam tumultuar um programa que se configura o pagamento de uma grande dívida com as populações pobres - esse perrengue atinge também os moradores das grandes cidades que não acham médicos nos postos quando precisam - vamos ver uma mudança real nas condições de saúde dessas populações, onde hoje é comum crianças morrerem até de diarreias.

Aí, com certeza, poderá vingar finalmente no Brasil o programa do médico de família, implantado como uma caricatura em muitas cidades, devido à mentalidade curativa de conveniência da medicina de mercado.
*GilsonSampaio

Maconha pode ajudar no tratamento de depressão, diz estudo

Pesquisa concluiu que componente ativa o sistema endocanabinoide encontrado naturalmente no cérebro para alterar a resposta a imagens ou emoções negativas

Estudo analisou homens que consumiam maconha no mínimo quatro vezes por ano, mas não mais que uma vez por semana Foto: Getty Images
Estudo analisou homens que consumiam maconha no mínimo quatro vezes por ano, mas não mais que uma vez por semana
Foto: Getty Images
Pesquisas já relacionaram a maconha a variados benefícios, como aliviar fobia social, tratar câncer, diminuir dor crônica. Pois a lista acaba de crescer. De acordo com um estudo realizado no Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda, o consumo pode ajudar no tratamento da depressão. Os dados são do jornal Daily Mail. 

O levantamento, divulgado na publicação europeia Neuropsychopharmacology, testou um grupo de homens usuários ativos da maconha. Podiam participar os que experimentaram a droga quatro vezes ou mais em um ano, mas não mais do que uma vez por semana.

Parte dos voluntários receberam THC, o principal componente psicoativo da planta, enquanto o restante usou placebo. Todos foram convidados a imitar imagens de expressões faciais “boas” ou de “medo”. Os que tinham o composto na corrente sanguínea eram menos precisos ao imitar as expressões de medo, mas eram capazes de copiar perfeitamente as felizes. Os resultados foram confirmados por exames de ressonância magnética do cérebro, que revelaram um efeito benéfico do THC em regiões de processamento de emoção.

Concluiu-se que o THC ativa o sistema endocanabinoide encontrado naturalmente no cérebro para alterar a resposta a imagens ou emoções negativas. “Administração do THC reduziu o viés negativo no processamento emocional”, afirmou o relatório. 

Vale dizer que, no mês passado, um estudo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, descobriu que adolescentes que fumam maconha regularmente podem sofrer danos cerebrais permanentes e têm grande risco de desenvolver esquizofrenia. É que a droga é particularmente perigosa para um grupo de pessoas que têm uma predisposição genética para o distúrbio de saúde mental e, então, funcionaria como um gatilho.
*Terra
Negro é lindo!
 
Maria Rita Casagrande, autora do blog True Love, analisa como o conhecimento e o orgulho pela história e cultura negra podem ajudar a proteger as crianças do racismo
Por Maria Rita Casagrande, no Blogueiras Negras
Há umas duas semanas recebi da escola de meu filho um documento de atualização cadastral. Qual não foi minha surpresa: para a escola, ele mora na mesma residência que ambos os pais (que não residem juntos desde que a criança tem 1 ano) e ele é BRANCO. A primeira reação é a de imaginar que alguém cometeu um erro. Talvez fosse mais fácil replicar um endereço apenas, ao invés da tediosa tarefa que é preencher um endereço para a mãe e outro para o pai. Mas como explicar para mim e para a criança que a cor dele não foi notada?
Ele me entregou a ficha já fazendo a observação – Tá errado, eu não sou branco!
O negro, ao longo da história, foi tão apontado como feio, inferior, burro, que isto ainda traz consequências nocivas para nós negros e permite que “erros” como este sejam cometidos na intensão de ser agradável. Na ficha consta BRANCO porque evitaria que nós , a família (mãe negra, pai branco), nos ofendêssemos com o NEGRO estampado no papel, o preconceito interiorizado de quem enxerga desvantagens em ser negro, que faz as associações como cabelo ruim e o asqueroso “black service” e o “afinal quem quer ser negro?”.
(Foto: Pink Sherbet / Creative Commons)
Já se passaram muitos anos desde o “Black is Beautiful” , movimento cultural iniciado por negros nos Estados Unidos na década de 60, que mais tarde se espalhou entre negros do mundo todo. O movimento tinha como meta eliminar a noção de que as características naturais dos negros, como cor da pele, traços faciais e cabelo são inerentemente feios. O movimento também incentivou homens e mulheres a pararem de tentar eliminar traços identificados como africanos, como não endireitar o cabelo ou tentar clarear sua pele.
O esforço do movimento era para contrariar a ideia típica prevalecente na cultura americana (não apenas na americana, compartilhamos desta mesma ideia aqui no Brasil) de que negros são menos atraentes ou desejáveis do que os brancos, tendo em vista que uma ideia negativa a respeito da negritude é altamente prejudicial para a psiquê dos afrodescendentes.
Como não estamos mais nos revolucionários anos 60 e o mundo atual é multicultural, uma pluralidade de heranças, classes sociais, credos e cores e nossos filhos estudam em salas coloridas como um arco íris de pessoas e convivem com crianças de lugares diferentes do globo terrestre, não há a menor necessidade de enfatizar o orgulho negro ainda mais, certo? ERRADO!
Apesar de terem oportunidades diferentes de seus antepassados, as crianças afrodescendentes ainda possuem dificuldade de estar orgulhosos de sua herança racial. Como tão bem explicitado na repetição do teste das bonecas da década de 40, no qual os psicólogos negros Kenneth e Mamie Clark mostram uma boneca branca e uma negra para que crianças relacionem aspectos positivos e negativos a elas. A boneca branca acaba por ser a escolhida pelas crianças pelas características positivas enquanto a negra era preterida. O mesmo teste foi feito em 2006 e o resultado foi semelhante.
Diante de situações como estas ou de pedidos como “eu quero uma franja”, “eu quero ser branco”, “porque não sou igual a minha coleguinha” ou “porque me chamam de preto se é cor de lápis”, mesmo a mais preparada das mães ou pais paralisa. Paralisamos porque passamos por situações semelhantes, paralisamos porque doeu em nós e pode doer neles.
De acordo com uma pesquisa publicada no Journal of Child Development, estimular o interesse de uma criança negra a aprender sobre sua raça faz mais do que lhes dar impulso pessoal, também auxilia academicamente esta criança. O estudo foi conduzido por Ming-Te Wang e James P. Huguley da Universidade de Pittsburg e da Universidade de Harvard, respectivamente, e constatou que “a socialização racial”, ensinar as crianças sobre a sua cultura e envolvê-los em atividades que promovam o orgulho racial e conexão ajuda a compensar a discriminação racial e os preconceitos que as crianças enfrentam pelo mundo exterior.
O ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira, a luta dos negros no Brasil, A cultura Negra Brasileira e O Negro na formação da sociedade nacional é obrigatório por lei desde 2003 em todas as escola do país. Mas seria isto o bastante para ensinarmos aos nossos filhos o quanto eles são lindos? Será isto que fará com que nosso filho ame a cor da sua pele? Este ensino não é aplicado para crianças na primeira infância (de 0 a 6 anos) , período decisivo na formação da personalidade, do caráter e do modo de agir do adolescente e do adulto.
Precisamos criar o hábito de elogiar nossos filhos. Edificar uma criança é como vestir-lhe uma armadura, tão forte que elemento nenhum da sociedade poderá feri-lo diante de suas certezas de que Negro é Lindo. Quantos de nós, adultos negros, sentimos a dificuldade de aceitar e acreditar em um elogio sincero. Não conseguimos nos acostumar com o “você é lind@”, “você é muito inteligente”. Isso não nos foi repetido com o furor necessário para que ficasse claro que podemos ser, sim, lind@s, inteligentes, poderos@s.

 
“Você é gentil. Você é inteligente. Você é importante” – The Help
Alguns métodos que eu adotei dentro de casa e acredito serem válidos:
Conte histórias: conte você mesmo a história dos negros pelo mundo, as coisas incríveis que nossos antepassados já fizeram, nossas lutas, conquistas , dificuldades e vitórias.
Brinquedos: hoje já conseguimos encontrar bonecas negras com maior facilidade (não com a mesma oferta e em todos os locais). É importante discutir a singularidade e a beleza de cada uma destas bonecas. Servirá de alicerce para a construção da autoestima desta menina ou menino (sim, ensine também que homens podem cuidar de um outro ser humano).
Ligue os pontos: situe seu filh@ com relação aos laços culturais que nos ligam ao nosso lar ancestral – a África. Seja o penteado trançado, a comida que vai pra nossa mesa, no ritmo da música que a gente escuta. Pontue que esta é nossa herança, nosso legado.
Incentive a aprendizagem multicultural: existem negros no mundo inteiro. A história dos negros americanos é diferente da dos negros caribenhos. Ensine a história dos povos indígenas, asiáticos, europeus. Crianças são curiosas e o conhecimento não só aumenta a autoestima como ensina o respeito.
E este último é um exercício para você que me lê. Corre no espelho e repete agora para não esquecer nunca mais: Você é gentil. Você é inteligente. Você é importante. A autoestima dos pais reflete diretamente na da criança. Tenha orgulho e acredite que você é capaz de ensinar e seu filh@ capaz de aprender!
*revistaforum

Há 59 anos, se suicidava Getúlio Dorneles Vargas.


O suicídio do Presidente Getúlio Vargas foi o desfecho trágico de um período de crise política do país que teve como um de seus principais artífices o então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, o corvo.

O episódio conhecido como “atentado da Rua Toneleros”, do qual saiu ferido de morte o major Rubens Florentino Vaz, além de o próprio Carlos Lacerda, provável alvo do atentado, ter supostamente recebido um tiro num dos pés, foi a gota d’água que terminou por desestabilizar irremediavelmente o governo de Getúlio Vargas.

Foi impossível para Vargas administrar tantas pressões que lhe chegavam de todos os lados. As Forças Armadas praticamente não lhe respeitavam mais a autoridade de Comandante.

Após dois mil oficiais aviadores terem se reunido no Clube da Aeronáutica para estudar o caso, ficou decidida a instauração de um inquérito próprio, que correria paralelamente àquele que estava sendo feito pelo Ministério da Justiça. As Forças Armadas se tornaram um quase governo paralelo, que ficou conhecido como República do Galeão.

Em pouco tempo, chegou-se à conclusão de que o mandante do atentado havia sido um membro da Guarda Pessoal do Presidente, o “tenente” Gregório Fortunato. No dia 22 de agosto, um grupo de oficiais das Forças Armadas encabeçado pelo brigadeiro Eduardo Gomes publicou um manifesto em que se exigia a renúncia do Presidente da República. Num discurso em Belo Horizonte, Vargas declarou que cumpriria seu mandato até o fim. Enquanto isso já havia tumulto nas ruas, e o povo – inflamado pela campanha antigetulista promovida pela imprensa reacionária, sobretudo pelo jornal “Tribuna da Imprensa”, de propriedade de Carlos Lacerda – exigia justiça (da mesma forma que exige hoje em relação à AP 470 do MENTIRÃO).

Getúlio Vargas passou as primeiras horas da madrugada do dia fatídico numa reunião com ministros no Palácio do Catete. Já pela manhã o Repórter Esso anunciaria a primeira notícia de impacto daquele dia. Repare que, nessa primeira inserção matutina do noticiário, o Presidente é tratado por “Senhor”:

“Rio. Urgente. O SENHOR Getúlio Vargas acaba de licenciar-se da Presidência da República pelo período de três meses. No decorrer da dramática reunião do Ministério, esta madrugada, o SENHOR Getúlio Vargas repeliu a proposta de renúncia que lhe foi transmitida pelo general Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, em nome dos chefes militares. (...) A notícia da licença do presidente Getúlio Vargas foi anunciada às quatro horas e quarenta e cinco minutos da manhã de hoje. Assumirá a chefia do governo o vice-presidente, senhor João Café Filho.”

Por volta das oito e meia daquela mesma manhã, entrou novamente no ar o Repórter Esso:

“Rio. Urgente. O PRESIDENTE Getúlio Vargas acaba de suicidar-se com um tiro no coração, às oito horas e vinte e cinco minutos, em seus aposentos particulares do Palácio do Catete. (...) Foi encontrado um bilhete do próprio punho do presidente: ‘À sombra de meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que desejava’.”

Daí por diante, a gente conhece toda a história. Desde a comoção popular desabalada que tomou todo o Brasil até as conturbadas sucessões presidenciais (Juscelino, Jânio e Jango) que desaguariam no tenebroso golpe de 1964.

Acho que vale a reflexão sobre o potencial destruidor que as campanhas de desestabilização de governos possuem. Quando os setores reacionários da sociedade se unem contra um governo popular, quem sofre o maior golpe é a democracia. Em 1954, o suicídio de Vargas freou o golpe que os setores reacionários da sociedade planejavam. Mas a imprensa golpista que atua em defesa desses setores não descansou e, dez anos mais tarde, alcançaria seu objetivo, depondo o presidente João Goulart, suspendendo a democracia no Brasil e instaurando uma ditadura que fez a festa do capital internacional e a miséria do povo brasileiro.
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A seguir, a íntegra da Carta-testamento de Getúlio Vargas:

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”
*Amoralnato


Aos médicos que detestam os excluídos e às entidades de classe e congêneres que continuam 
 

E abaixo, o Juramento de Hipócrates que eles continuam ignorando

"Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:

Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.

A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. 

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."

Internautas lançam campanha de boicote à Globo e ao Criança Esperança


Imagem da campanha. Imagem: Divulgação


Conforme relatado pelo youtuber João Revolta, bem como pelo demonstrado por publicações nas redes sociais, internautas estão aderindo a uma campanha de boicote à Rede Globo e ao Criança Esperança.


A ação seria motivada por possível hipocrisia na conduta da empresa ao sonegar centenas de milhões em impostos e pedir dinheiro a cidadãos comuns alegando a necessidade de amparar
crianças.
crianças.

Assista abaixo:


 
Mariana Ribeiro
Política na Rede
*Ajusticeiradeesquerda

ATENÇÃO BÁSICA Mais Médicos: 400 profissionais cubanos chegam ao Brasil


ATENÇÃO BÁSICA

Mais Médicos: 400 profissionais cubanos chegam ao Brasil

Eles desembarcam no Brasil a partir deste sábado (24) em quatro capitais para participar do módulo de avaliação. Profissionais começam a atuar nos municípios em 16 de setembro
Os 400 médicos cubanos que atuarão na primeira etapa do programa Mais Médicos por meio de acordo entre o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) chegam ao Brasil neste fim de semana. Eles saem de Havana em dois voos fretados pelo governo de Cuba e desembarcam em quatro capitais brasileiras onde participarão, ao longo de três semanas, do módulo de avaliação do programa sobre saúde pública brasileira e língua portuguesa junto com os demais estrangeiros e brasileiros formados no exterior que se inscreveram no programa.
Após a aprovação nesta etapa, a partir de 16 de setembro, eles serão encaminhados para atender a população nas unidades básicas de saúde de um dos 701 municípios que não foram selecionados por nenhum médico brasileiro nem estrangeiro.
No sábado (24), um grupo de 206 médicos cubanos chegam em voo que fará escala às 13h50 no Aeroporto Internacional Gilberto Freire, em Recife, e seguirá para o Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília, com pouso previsto para 18h.
No domingo (25), outro grupo de 194 médicos cubanos chega em voo que fará escalas em Fortaleza e Recife antes de chegar a Salvador. Em Fortaleza, os profissionais desembarcam no Aeroporto Internacional Pinto Martins às 13h20. Em Recife, eles chegam às 16h05 no Aeroporto Internacional Gilberto Freyre. E em Salvador, os médicos desembarcam às 18h50 no Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães.
Estes profissionais serão direcionados para atuar nos 701 municípios que não foram escolhidos por nenhum médico na etapa de chamamento individual do programa, tanto de brasileiros quanto de estrangeiros.
A concessão de registro profissional desses profissionais de Cuba segue a regra fixada para os demais estrangeiros que trabalharão no Mais Médicos: eles terão autorização especial para trabalhar por três anos exclusivamente nos serviços de atenção básico em que forem lotados no âmbito do programa.
“Estes profissionais vão atender a população de cidades que apresentam o pior índice de desenvolvimento humano do país e que enfrentam dificuldades de contratar médicos. Estão chegando profissionais muito bem preparados, experientes, que já trabalharam em países de língua portuguesa e com especialização em saúde da família”, destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Os médicos cubanos que trabalharão no Brasil já participaram de outras missões internacionais, sendo que 42% deles já estiveram em pelo menos dois países dos mais de 50 com que Cuba já estabeleceu acordos deste tipo. Além disso, todos têm especialização em Medicina da Família. A experiência também é alta: 84% têm mais de 16 anos de experiência em Medicina. A busca por esse perfil visou a encontrar profissionais habituados cidades com habitantes em situação de vulnerabilidade.
MUNICÍPIOS –Até o final do ano, outros 3.600 médicos cubanos devem chegar ao Brasil para atuar pelo Programa Mais Médicos, completando um total de 4 mil profissionais de Cuba para atuar na iniciativa por meio de um termo de cooperação assinado entre o Ministério da Saúde brasileiro com a Opas para as vagas que não foram escolhidas por brasileiros e estrangeiros.
A maioria dos 701 municípios que não despertaram o interesse de nenhum profissional (68%) apresenta os piores índices de desenvolvimento humano do país – IDH muito baixo e baixo, segundo PNUD – e 84% estão no interior do Norte e Nordeste em regiões com 20% ou mais de sua população vivendo em situação de extrema pobreza.

Juntas, essas cidades abrangem população de 11 milhões de pessoas – 5 milhões delas vive em áreas rurais. O índice de mortalidade infantil neste conjunto é 1,5 vezes maior que a média nacional. Enquanto no Brasil a média é 16 mortes por mil nascidos vivos, nessas cidades o número salta para 26.
Os 701 municípios excluídos pelos profissionais inscritos na primeira etapa do programa estão distribuídos em 22 estados brasileiros. O Piauí é o que concentra o maior número de cidades, 121, seguido da Bahia, 108. No Maranhão, 90 municípios estão nessa lista. Esses três estados possuem algumas das menores proporções de médicos por mil habitantes do Brasil, com destaque para o Maranhão, que conta com o menor índice do país – 0,5 médicos/mil habitantes.
A região Nordeste abrange 72% (503) das cidades, seguidos pelo Norte, que reúne 88 cidades, e Sul, 79. Do restante, 26 estão no Sudeste e 5 no Centro-Oeste. Em todos os estados do Nordeste e do Norte, 100% dos municípios que não despertaram interesse em nenhum médicodesta primeira etapa do programa possuem 20% ou mais de sua população vivendo em situação de extrema pobreza.
MAIS MÉDICOS – Neste final de semana, também estão chegando ao país os 244 médicos estrangeiros e brasileiros com registro profissional no exterior inscritos na seleção individual na primeira etapa do programa.Esses profissionais desembarcam em oito capitais onde participarão do módulo de avalição do programa sobre saúde pública brasileira e língua portuguesa: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza.
Além dos 244 médicos que estão chegando para atuar nesta primeira etapa do programa, 48 ainda estão apresentando documentos para emissão de passagem a tempo de participar do primeiro ciclo de avaliação. Os demais inscritos podem dar continuidade ao cadastramento para participar da segunda etapa de seleção, que está aberta até dia 30 deste mês.
No primeiro mês de seleção individual, 1.096 profissionais com diplomas do Brasil e 244 formados no exterior – sendo 99 de nacionalidade brasileira e 145 estrangeiros – confirmaram sua participação no Mais Médicos. Eles estão distribuídos em 516 municípios e 15 distritos sanitários indígenas. Ao todo, 3.511 cidades aderiram ao programa apontando 15.450 vagas.
A segunda seleção foi aberta nesta segunda-feira (19) para adesão de novos municípios e médicos brasileiros e estrangeiros, que podem se cadastrar até o dia 30 de agosto. Os profissionais selecionados nesta etapa iniciarão as atividades ainda na primeira quinzena de outubro.
Lançado pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, no dia 8 de julho, o Mais Médicos faz parte de um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do SUS, com objetivo de acelerar os investimentos em infraestrutura nos hospitais e unidades de saúde e ampliar o número de médicos nas regiões carentes do país.
*CarlosMaia

O analfabeto politico e o midiático: coisas em comum

O pior analfabeto é o analfabeto midiático



“Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões do jornalista Celso Vicenzi em torno de poema de Brecht, no século 21
*+http://turcoluis.blogspot.com.br/

Licença Paternidade e Maternidade: uma igualdade que o feminismo defende

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Licença Paternidade e Maternidade: uma igualdade que o feminismo defende

Fernando Azevedo - Causas Perdidas

Já começo o post ratificando uma informação sobre a qual muitos leigos quanto ao que é o feminismo se confundem: o inverso do machismo não é o feminismo. Trata-se, na verdade, de uma questão até linguística. O contrário de “macho”, um substantivo, não é o adjetivo “feminino”, mas sim o substantivo “fêmea”. Portanto, o outro lado do machismo é o “femismo”, no caso, uma ideologia não tão difundida que prega que a mulher é superior ao homem e dá a ela direitos que o homem não tem.
Muitas vezes, tenho o desejo pessoal de que certas mulheres que se dizem feministas lembrem-se disso também: o feminismo se trata de igualdade, não superioridade. Trata-se de uma luta por justiça, não de uma disputa entre dois extremos, uma medição de forças carregadas de radicalismo e desrespeito.
Enfim, a luta pelas licenças maternidade e paternidade igualitárias é um tópico que lembra muito que o feminismo está aí como uma luta por igualdade (teoricamente falando, ao menos). Qual a proposta desse tópico?
Atualmente, toda mãe tem direito assegurado pela CLT a quatro meses de afastamento. Em algumas situações, pode haver a Licença Amamentação, que dá um horário para a mulher amamentar seu filho. O homem, entretanto, recebe míseros cinco dias de licença.
A impressão deixada por esse quadro é óbvia e se trata de um dos grandes estereótipos combatidos pelo feminismo: a mulher é a criatura que cuida dos filhos, em casa, enquanto o homem é a parte que sustenta financeiramente o lar.
Antigamente, talvez, essa até pudesse ser uma proposta válida e inquestionável, mas hoje o número de mulheres que trabalham e se dedicam a essa atividade tanto quanto os homens cresce de forma inquestionável, balanceando o conceito padronizado de núcleo familiar.
“Ah, tá, cara, você está certo. Pode até ser que a mulher trabalhe tanto quanto o homem. Mas, biologicamente, ela precisa desse tempo. Afinal, o bebê saiu do corpo dela, não do homem. Ela precisa desse tempo para se recuperar, para amamentar e tudo o mais.”
Devo concordar com a parte biológica do contra-argumento, de fato. Mas então eu coloco outra situação hipotética: a mulher acaba de sair do hospital, onde teve parto normal ou cesariana. De qualquer forma, seu corpo não é mais o mesmo. Seus seios estão inchados, seu organismo lentamente se reajusta para não abrigar mais criança alguma e, lógico, ela tem que amamentar. E ela tem o marido para ajudá-la durante cinco dias. Depois, ela tem que lidar com o corpo, com a amamentação do bebê, seus choros, suas fraldas, sua saúde, tudo sozinha. Sim, ela conta com familiares e amigos, mas não seria justamente este o momento indispensável para a presença do homem que, afinal, pode não ter ficado grávido, mas é tão pai da criança quanto a mulher?
Eis que entra a licença paternidade igualitária, e ela é proposta de duas maneiras. Primeira: as duas licenças são longas, de mesma duração e simultâneas. É um período bom para que pai e mãe atuem na manutenção dos primeiros dias de vida da criança em conjunto. Na segunda, as duas licenças ocorreriam uma depois da outra. A primeira seria a materna, em função da restituição física da mãe e da sagrada amamentação. A segunda seria a paterna, em que o pai teria as mesmas chances de cuidar da criança. Estrategicamente, sou favorável à segunda opção, mas, para núcleos familiares que não contam com o auxílio de terceiros para cuidar da criança, a primeira opção pode ser melhor.
familia de sextuplos
Porém a questão não se limita aos cuidados do bebê, apesar de ser o cerne da coisa. Há outras implicações na existência da licença maternidade.
Vamos a uma entrevista de emprego. Já podemos imaginar a sala branca, os móveis executivos e aquele entrevistador com rosto sorridente, mas olhos duros do outro lado. “Sinta-se a vontade, mas não tanto assim”, eles dizem. OK.
Você é homem e ele pergunta se você tem planos de ser pai. Diz que sim, e isso é bom. Significa que você não tem receio de responsabilidade e, em algum momento, terá uma boca a mais para alimentar, o que o fará pensar muito mais vezes antes de sair da empresa. Ele não pensa que você poderia não ter tempo de cuidar do filho e sairia do emprego. Ninguém pensaria. Homem de verdade não faz isso.
Agora, você é mulher. O entrevistador pergunta se você deseja ter filhos e você diz que sim. Péssimo. Em algum momento vai ter que tirar licença maternidade e nenhum empresário quer ter desfalque de funcionário à toa. E a mulher é que cuida do filho, então ela pode se ver sem tempo e, de repente, sair da empresa. Péssimo, péssimo.
Agora é outra coisa se a mulher for solteira. Ninguém supõe que uma mulher solteira tenha tanta liberdade sexual assim para engravidar de repente. E ela provavelmente não terá planos de ter filhos.
“Ah, então saquei! Viu, mais uma vez, as feministas estão pensando no próprio umbigo e só querem igualdade nisso para ferrar com nós, homens, também. E eu aqui achando que elas queriam nosso bem também.”
Como homem, digo que não é tão legal assim ter uma desvantagem durante uma entrevista. Imagina se você quer ter filhos e a licença paternidade existe: você não pode confessar isso numa entrevista. Ou confessa e corre o risco de não ser escolhido. Porém, pense que atualmente inúmeras mulheres sofrem por causa disso. Não é injusto que elas tenham que suportar essa pressão enquanto nós não? Sim, é! Num mundo ideal, as empresas não fariam isso, mas estamos distantes de estar num mundo ideal.
Por isso, sim. A licença paternidade traz para os homens uma vantagem: ficar com a criança, poder exercer seu título de pai com mais do que “colocar dinheiro na casa”. Traz também sua desvantagem: sofrer algum tipo de preconceito, em âmbito profissional, por querer ser pai. Entretanto, a igualdade não é representada por uma balança por motivos meramente estéticos. Para se trazer o balanceamento, é necessário o compartilhamento do peso em ambos os braços da balança social.
E você, leitor, o que acharia de ter licença paternidade ou um marido que pudesse compartilhar as responsabilidades de cuidar de um bebê?
Lembrando que este post foi inspirado no inteligente “Coisas que as feministas defendem e você não sabia: licença paternidade e maternidade igualitárias”, da Cíntia em seu site cintiacosta.com. Não deixe de dar uma conferida no site dela.
*Mariadapenhaneles