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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

terça-feira, agosto 04, 2020

militares não tem a menor ideia do que seja comunismo”, afirma PM

“A maioria dos militares não tem a menor ideia do que seja comunismo”, afirma PM



“Perguntei para os outros militares: Alguém pode me explicar o que é comunismo? A resposta foi: Comunismo é uma ferramenta do diabo para destruir a família”

Arte: Daniel Caseiro.

Por Martel Alexandre del Colle

 

Eu tenho uma curiosidade natural que me impede de parar de estudar os mais diversos assuntos. Isso também me faz não ter muito tempo para acompanhar os delírios que rondam a internet. Entretanto, a partir do ano de 2016 eu decidi me envolver de maneira mais intensa com as mídias, pois estava ouvindo absurdos e achei que poderia mostrar que ninguém deve acreditar em uma versão da história sem antes ouvir as outras versões. Eu estou sempre aberto para contradizer a mim mesmo, a mudar. Prefiro ser essa “metamorfose ambulante” do que um manipulado por fakenews de internet.

E foi em 2016 que eu voltei a ouvir a palavra comunismo em todos os lugares. E, para minha grande tristeza, ela era muito utilizada por militares. O problema não era usar a palavra, mas não ter nenhuma noção dos conceitos capazes de se encaixarem nessa palavra. E dos conceitos que não são capazes.

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Certo dia, abri o meu facebook e estava lá o post de um policial militar, contemporâneo da escola de oficiais, dizendo: “Parabéns ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra que teve a coragem de fazer o necessário para nos livrar do comunismo!

Em primeiro lugar, esse oficial poderia ser preso por apologia ao crime/criminoso, mas eu não o quis denunciar. Talvez eu devesse, mas se acho que esse sistema punitivista não funciona para quase ninguém, por que funcionaria para ele?

Ustra era um criminoso, gente que o oficial em questão deveria combater conforme juramento que fez à sociedade brasileira. Ser militar não é apenas ser capaz de usar a força, isso qualquer bandido como o Ustra é capaz de fazer. Qualquer miliciano é capaz. Ser militar é ser capaz de usar a força para propagar o bem.

Sei que não deveria, mas fui aos comentários da postagem e encontrei um mar de policiais militares elogiando o oficial, elogiando Ustra, elogiando a tortura e as execuções. Eu poderia tacha-los de ignorantes, mas eu sempre procuro investigar antes, como disse. Então perguntei: Alguém aqui pode me explicar o que é comunismo?

A resposta foi: Comunismo é uma ferramenta do diabo para destruir a família.

Eu respondi: Está explicado este post sem sentido.

Eles não haviam estudado nada, só reproduzido. Sem argumentos, partiram para o tradicional Ad Hominem: Quem é você para falar isso? Nós militares nos sacrificamos pela nação e só defende o comunismo quem não é militar e não sabe das coisas.

Eu respondi: Eu sou militar.

Eu não vejo o comunismo como a solução para nosso planeta, nem como modelo ideal ou viável, entretanto eu respeito quem o defende, pois eu ainda tenho muito para estudar antes de fechar tal assunto em minha cabeça. Por enquanto eu engordo os quadros da esquerda reformista.

Alguns ficaram em choque quando descobriram que eu era militar. Depois descobriram que eu era aspirante e ficaram com receio de debater. Não entendo esse medo de debater com um superior, mas não os julgo. Não fui praça. Talvez o curso de formação de soldado encha o policial de temor, o que eu acho um absurdo. A opinião no Brasil ainda é livre, que eu saiba. Você deve poder discordar de seu superior hierárquico, basta ter argumentos.

Qual é a dificuldade de estudar antes de falar? Eles só estavam reproduzindo o que ouviram dentro dos quartéis. Estavam defendendo a versão de realidade que permitiu que Ustra não vivesse na prisão e não pagasse por seus crimes. E por que será que ele queria que você defendesse a versão dele? Não descobriu ainda?

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Não é curiosa a proposta de tirar “tudo que está aí” para colocar apenas o que ele acredita?

Por que as pessoas insistem em falar sobre algo que não estudam? Está no google. É só pesquisar. Isso evitaria a vergonha de afirmar que Marx não trabalhava. Eu imagino o que um escritor deve sentir quando vê alguém falando uma asneira dessa. Então escrever livros não é trabalho? A obra de Marx foi tão importante que você ouve falar dele até hoje por um rio de gente que nunca leu nada do que ele escreveu. Por que todo esse medo? Marx foi tão importante que todos os cursos de economia dedicam um tempo interessante às obras produzidas por ele, mesmo que você estude em uma organização estudantil de baixa qualidade, como o Instituto Mises, você ouvirá falar de Marx.

Não sei, mas eu odeio que mastiguem conhecimento para mim. Conhecimento mastigado é mais fácil de ser manipulado, por isso eu prefiro ouvir o que a pessoa tem a dizer. Procuro ler Mises, Marx, Mill, Keynes, Hayek. Aconselho que você faça o mesmo, ou tenha a humildade de não se colocar como expert num assunto que você não domina. Falta muita humildade por aqui…

Caso pior é o dos cristãos que criticam o comunismo de maneira geral. Eles não falam de Maoismo, ou Leninismo-Marxismo, mas de comunismo. Será que essa galera não possui o livro de Atos dos Apóstolos na Bíblia deles? Será que eles estão na igreja e não sabem o que é o comunismo cristão? Será que eles não ouviram falar da igreja primitiva, na qual todos os bens eram comuns. Onde todos os novos membros entregavam tudo para os líderes para que eles dividissem. Que nenhum cristão considerava alguma coisa sua, mas tudo era coletivo. Será que eles não sabem do caso do casal que tentou ficar com seus bens e caiu morto pelo poder do Espírito Santo?

E eu nem vou entrar na figura de Jesus Cristo. Aquele cara que dividia comida, ajudava pobres, não queria matar ninguém.

Eu já vi cada malabarismo para tentar por palavras na boca de Cristo. Tanto de militares para justificar assassinatos como “solução pra segurança”, como de pastores para justificar uma vida de luxos. Certa vez, na Igreja Batista do Bachareri, igreja que já abrigou Moro e Dalagnol, e da qual eu já fiz parte, lembro-me de um pastor usar o “dai a César o que é de César” para dizer que os “comunistas de plantão” (termo utilizado por ele) deveriam aceitar o capitalismo, pois Jesus dizia que exploração era top.

Acho que Deltan até está indo bem, sabendo do lugar de onde ele absorve a sua autoestima e sensação de herói na luta contra a corrupção. É muita inocência.

Ainda tem gente que acredita na falácia da iminência do golpe comunista em 64. O golpe comunista era tão iminente que quando os militares tomaram o poder, ninguém se opôs com armas. Os primeiros atentados ocorreram anos depois, e alguns dos atentados eram forjados pelos próprios militares para ter uma desculpa a fim de centralizar ainda mais os poderes. Se tivesse algo organizado, você não acha que eles tentariam impedir os militares de tomar o poder? Bora pensar antes de engolir uma versão da realidade? Bora?

Se você ainda acredita em golpe comunista em 64, então pesquise sobre um cara chamado Carlos Lacerda. Talvez lhe ajude. Talvez ajude o país se pararmos de passar pano para torturador, estuprador e assassino também.

O golpe comunista era um perigo tão grande que durante a revolução cubana Fidel Castro sequer era comunista. O que revoltava o povo por lá, e por aqui também, era a exploração, a pobreza, a desigualdade. Fidel conquistou Cuba com um exército muito menor do que o exército nacional, e só conseguiu porque o povo não aguentava mais os abusos e explorações do Estado e das multinacionais. Fidel se tornou comunista após a revolução, devido a necessidade de apoio para governar. E tal apoio era importante devido a pressão que Cuba começou a sofrer quando nacionalizou empresas que exploravam a ilha. Nem sei por que estou falando isso. Afinal, aposto que todos os críticos de Cuba e do comunismo já sabiam disto, não é?

Não tenho a menor pretensão de ser a voz que sabe de tudo. Estou sempre disposto a aprender, a mudar, a questionar, a me admitir errado e a mudar de novo. E isso me dá coragem para não engolir nenhuma história sem antes investigar um pouco.

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Para finalizar, eu me questiono: Por que Bolsonaro e a extrema direita insistem em dizer que “o Nazismo é de esquerda”?

Eu sou de esquerda, e a gente não acorda e dorme falando que o Nazismo é de direita. Ele, de fato, é de direita, mas isso é uma questão acadêmica para nós, não uma questão moralizante. Então, por que eles querem tanto jogar o Nazismo para a esquerda? Vou lhe explicar.

Acontece que todas as atitudes de Bolsonaro e da extrema direita são iguais as dos nazistas: gostam de uma ditadura, acham que existem grupos superiores e inferiores na sociedade, pregam o extermínio do diferente, pregam a violência como solução para o desenvolvimento de uma nação forte, um nacionalismo exacerbado e pregam uma “grande burrice”, se posicionando contra a ciência, contra a educação e contra a autonomia das pessoas para pensarem por si próprias.

A questão é que o filho é tão parecido com o pai que eles precisam de algo diferente. Ou seja: “ser de esquerda”. Então o discurso vira: Nós fazemos tudo o que o nazismo fazia, mas não somos nazistas, pois “o nazismo é de esquerda”.

No meio do processo eles vão adocicando o nazismo e o autoritarismo. É por isso que Bolsonaro elogia torturadores, estupradores, e companhia limitada, seja no Chile, no Paraguai, no Peru ou no Brasil. A ideia é dizer que esses ditadores são feios, mas não tão feios, porque feia mesmo é a esquerda. Como Mises que achava boa uma ditadura, desde que ela obrigasse o povo a trabalhar em nome do progresso. Para ele, era necessário “quebrar alguns ovos para fazer a omelete”. Pena que ovos aqui são a sua vida, a sua liberdade, os seus direitos e a sua felicidade.

Primeiro eles acusam a esquerda de ser “feia” e “fazer atrocidades”, depois dizem que a esquerda é feia porque é de esquerda, e não por causa das atrocidades. Aí eles fazem atrocidades, enquanto convencem a população a demonizar a esquerda e o “comunismo”. E está concluído o plano. O alienado aceita qualquer coisa para derrotar a esquerda. E é importante destacar que o conceito de esquerda dos extremistas de direita é bem amplo. Para eles o Reinaldo Azevedo é de extrema esquerda já.

Muita gente morreu para que você tivesse a chance de questionar, de pesquisar, de estudar. Muita gente morreu na ditadura pela sua liberdade. Não desperdice essas vidas não. Use o poder que te deram. Pesquise, procure, tente me refutar. Só não seja massa de manobra de gente sem coração.

A finalidade da vida é ser feliz, o resto é maquiagem de gente malvada. Vai por mim. Vai por mim nada! De agora em diante é só na base da pesquisa, né?

E se quiser uma ajudinha para entender o que são comunismo, socialismo, democracia, eu recomendo os canais Saia da MatrixTese Onze e Jones Manoel.

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.