A Copa de 50 segundo Mino Carta
Por wilson yoshio.blogspot
Da Agência Pública
Mino Carta conta a Copa de 50: “A Fifa não era esta coisa vergonhosa”
Por Andre Dip
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O jornalista e diretor de redação da Carta Capital cobriu o evento
quando tinha 15 anos para veículos italianos: “O Brasil era o país
ideal”
Em entrevista à Pública, o jornalista e diretor de redação da Carta
Capital lembra a cobertura que fez aos 15 anos para veículos italianos
sobre a primeira Copa depois da Segunda Guerra: “O Brasil era o país
ideal”. Ali começaria sua longa carreira como jornalista.
Mino fala das muitas mudanças que ocorreram nesses 62 anos no mundo
do futebol. A Fifa, por exemplo, não tinha nada a ver com esta de hoje,
“que se tornou o que é graças a João Havelange, que, digamos, na Sicília
estaria perfeito, dirigindo a máfia”.
E explica que apesar do “Maracanaço”, como ficou conhecida a dolorosa
vitória do Uruguai sobre o Brasil no estádio com quase 200 mil pessoas,
aqueles eram tempos tranquilos e felizes para o país.
Sobre a Copa de 2014, o jornalista não se mostra otimista. E dispara:
“Mazelas mil. Porcarias variadas e mentiras… É uma floresta de
enganos”. Senhoras e senhores, com a palavra, Mino Carta:
Você cobriu a Copa de 50 aos 16 anos. Foi seu primeiro trabalho? Como foi parar lá?
Na verdade, foi assim: meu pai detestava futebol e recebeu um pedido
de jornais italianos para escrever uma série de artigos sobre a
preparação para o Campeonato Mundial de 1950. Eu ainda tinha 15 anos,
meu pai detestava o balípodo [futebol]. Me convocou e disse: “Olha, você
que gosta dessa porcaria, você gostaria de escrever algo a respeito?”.
Eu disse: “Quanto vale?”. Ele disse x e como esse x daria para
encomendar um terno azul marinho num alfaiate de muita boa qualidade, eu
disse “perfeito!”. Nesse tempo íamos aos bailes de sábado de terno e
gravata.
O terno azul era o objeto de desejo?
No meu caso, era o terno azul marinho. Então eu escrevi seis artigos
sobre a preparação da Copa. Fui pago, fiz o terno azul marinho e depois
quando vieram as equipes dos jornais para os quais eu tinha escrito–
que, na verdade, eram dois jornais irmãos, um de Roma e outro de Gênova –
o pessoal me usou como intérprete, como ajudante, como contínuo, mil
coisas.
A Fifa era menos exigente?
A Fifa não era essa Fifa, que se tornou o que é graças a um
brasileiro ilustre que se chama João Havelange, que, digamos, é um
concorrente do Totò Riina, do Provenzano. Ele na Sicília estaria
perfeito, dirigindo a Máfia. A diferença é que ele está solto e Totò
Riina e Bernardo Provenzano estão na cadeia. Esse Blatter é outro. Esse
Ricardo Teixeira é outro. Aliás, aprenderam tudo com o João Havelange,
que foi o autor desta Fifa vergonhosa. Agora, o campeonato de 1950
funcionou muito bem. Não houve problema algum.
Foram construídos estádios na época?
O Maracanã. Basicamente, o Maracanã, que eu saiba. Eu me lembro
porque São Paulo tinha o Pacaembu, que havia sido construído em 1942 e
que era um estádio novo e bonito. O Pacaembu aguenta 50 mil espectadores
com tranquilidade. São Paulo, nesse momento, beirava os 2 milhões de
habitantes. Era um outro mundo. São Paulo tinha 50 mil carros. A gente
se locomovia pela cidade com perfeição. Ainda funcionavam os bondes.
O Brasil não parou por causa da Copa, então?
De jeito nenhum. E veio muita gente de fora. O jogo da final, no
Maracanã, que foi uma tristeza, um momento de enorme tristeza… Mas
também, sabe?, o jogo começou com a distribuição de postais que
mostravam o time brasileiro como se já fosse campeão.
Foi mais vergonhoso…
Não, não foi vergonhoso, porque o Uruguai, além de tudo, tinha um
time excelente. O Uruguai tinha um time melhor que o do Brasil. Você não
perde por acaso. Você perde porque tem pela frente um time que pelo
menos, naquele jogo, jogou melhor. Tinha craques incríveis o time do
Uruguai, jogadores excelentes. E o Brasil, como frequentemente acontece,
era um time desequilibrado. Na defesa, havia muitas falhas. Tinha
atacantes excepcionais e uma defesa… Um meio campo muito bom e uma
defesa que deixava a desejar. Bom, não foi culpa do goleiro. O marcador
do ponta direita do Uruguai não segurava o homem, chamava-se Bigode, o
nosso. O outro chamava Ghiggia e corria bem mais. Então, é por aí. Mas
enfim, foi um campeonato tranquilo, sem desordem.
O senhor estava lá?
Estava. Triste, foi muito triste. O que tinha de gente chorando na rua era impressionante…
Como foi o clima do estádio nessa hora?
Silêncio. Silêncio aterrador. A alegria de uma pequena torcida
uruguaia e silêncio. Porque também os estrangeiros torciam pelo Brasil,
os que tinham vindo e tinham ficado muito impressionados. Sobretudo com
as duas vitórias por goleada e a exibição de gala, então imagine… Foi
triste.
Os torcedores eram pessoas comuns? Os ingressos eram baratos?
Totalmente. Mas olha, o que é impressionante é que (risos) Eu lembro
quando eu ia ao Pacaembu, antes quando eu era menino, tinha uns 13, 14
anos, uma ofensa dirigida ao árbitro que eventualmente, na opinião do
torcedor, roubava contra o time dele era “tuberculoso!”. Era muito raro
ouvir um palavrão no estádio. As pessoas portavam-se de outra maneira. O
Brasil virou um país muito vulgar.
E como foi sua cobertura? Como foi essa experiência?
Foi ótima. O que eu realmente escrevi foram os artigos de preparação.
Depois, quando o campeonato se deu eu estava ali como ajudante dessa
equipe de jornalistas italianos e fiquei como tal. Quer dizer, era
sobretudo, um ajudante, um menino. Ali eu já tinha 16 anos e era um
menino esforçado, ajudava no que podia.
Os artigos ainda estão por aí?
Eu não guardo nada. Não tenho uma única coleção de alguma coisa que
eu tenha feito. Do mundo nada se leva, é minha convicção granítica.
O senhor torcia para o Brasil?
Nesse tempo, sim. Hoje eu mudei muito minha postura. Me irrita pensar
que em 70 os presos da ditadura gritavam gol juntamente com os
carcereiros. Essa debilidade moral me irrita sobremaneira, hoje em dia.
Naquele tempo, não. Ao contrário: eu torcia, sim, pelo Brasil. É claro,
lógico. Mas eu tentava ser frio na análise. Porque, realmente, por
exemplo, o Uruguai tinha um grande time. Tinha alguns jogadores ali
soberbos. No fundo, melhores que os nossos. Schiaffino era um jogador
excepcional, por exemplo. Muita cabeça, muita inteligência, via o jogo.
Não era só habilidade individual, era capacidade de mentalizar, de no
campo mudar a estratégia. Então tinha alguns jogadores excepcionais.
O que o senhor espera pra essa Copa de 2014?
Parece-me que as coisas não estão bem postas. Primeiro, o roubo é
absolutamente inegável. Um roubo deslavado, escancarado, transparente.
Está ali, para todo mundo ver, mas ninguém dá a mínima. Também é difícil
imaginar que em menos de dois anos e meio as cidades brasileiras,
sobretudo São Paulo, Rio, Belo Horizonte, consigam montar um esquema que
facilite o deslocamento das pessoas para jogos. Não vejo como… As
cidades são completamente desequipadas, são miseráveis em certos pontos.
Temo um desastre, do ponto de vista da organização. E como teremos
eleições em 2014 me parece que esse desastre não vai facilitar em nada
para quem do governo quiser continuar aí. Isso vai acabar repercutindo
no resultado eleitoral. Acho que, do ponto de vista técnico, o Brasil
não tem time para jogar esse mundial, em relação a alguns times europeus
que praticam um futebol, hoje, muito mais eficaz para que os bolsos
daquele ou desse se encham. Eu não tenho boas perspectivas. Eu acho que
foi uma decisão populista do Lula. Uma decisão errada. E nem se fale das
Olimpíadas. Tivemos um exemplo que devia ter sido aproveitado, que
devia influenciar nas decisões de hoje, que foi o Panamericano do Rio,
que foi um roubo, uma coisa monstruosa.
E aquelas obras nem vão servir para as Olimpíadas…
Claro. E veja: estava prevista uma despesa de 400 milhões e a despesa
chegou a 4 bilhões. É uma coisa…Dolorosa. Se a Copa for um desastre, o
mundo vai ser perguntar “por que as Olimpíadas?”. “Temos de repetir
aquela tragédia?”. É isso. O de 50 foi apenas triste porque o Brasil
esperava a vitória, mas era um Brasil ingênuo e simples. De uma forma,
tenro e um pouco patético, né? Mas nada a ver com o Brasil de hoje.
Então a gente pode dizer que a Copa de 50 foi benéfica pro Brasil?
Foi ótima. Pena que muita gente chorou. Isso que foi pena.
E a segurança? Como era feita?
O Brasil era um país ideal. As pessoas viviam numa boa. Não existiam os medos e receios de hoje.
Então não foi feita uma segurança de guerra como eles estão querendo fazer agora?
Eu tive a sorte e o prazer de assistir a parte final do campeonato
europeu realizado em Portugal em julho de 2004. À parte o fato que gosto
de Portugal, gosto da comida portuguesa e gosto dos vinhos portugueses,
à parte esse detalhe, que não deixa de ter sua importância – foi uma
coisa impecável. Uma polícia fantástica, portando-se com fidalguia, com
cortesia. Olha, uma coisa impecável! E tinha ali torcidas além de
eventualmente muito ruidosas e muito fortes, como a torcida holandesa,
por exemplo, que é um pessoal imponente, mas de comportamento impecável.
Fiquei muito bem impressionado. Uma organização perfeita. Realmente,
parece que para essa ocasião construíram alguns estádios, sobretudo em
Lisboa e no Porto, dois estádios muito bonitos e muito modernos. Mas
vejam, um detalhe: esse estádio que a Fiat construiu para o time dela, o
Juventus de Turin. Eles construíram um estádio moderníssimo, foi
inaugurado há menos de um ano. Esse estádio, moderníssimo, a última
palavra em termos de estádio, custou um quinto do que vai custar esse
estádio de São Paulo (Itaquerão). Um quinto. Imagina? Imagina o que que
ali tem de superfaturamento. Mazelas mil. Porcarias variadas e mentiras…
É uma floresta de enganos. É isso.
Colaborou: Jéssica Mota
*Nassif