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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
sábado, fevereiro 19, 2011
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Estados Unidos: um país fora da lei
Eva Golinger: Obama coloca no orçamento verba para grupos contra Chávez na Venezuela
EUA: Departamento de Estado solicita financiamento para a oposição venezuelana em 2012
por Eva Golinger, Adital
Nessa segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011, o Presidente Barack Obama apresentou ante o Congresso estadunidense um orçamento de 3,7 trilhões de dólares para 2012. No orçamento trilionário de Obama encontra-se um financiamento especial para os grupos anti-chavistas na Venezuela.
A excessiva soma de dinheiro representa o orçamento anual mais alto de toda a história estadunidense. No monto total encontram-se mai de 670 bilhões de dólares para o pentágono e para as operações militares, cerce de 75 bilhões de dólares para os serviços de inteligência e 55,7 bilhões de dólares para o Departamento de Estado e para a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID).
Por primeira vez nesses anos, o orçamento do Departamento de Estado destaca um financiamento direto de 5 milhões para os grupos anti-chavistas na Venezuela. Especificamente, o documento detalha. “Esses fundos ajudarão a fortalecer e apoiar a sociedade civil venezuelana para proteger o espaço democrático. O financiamento aumentará o acesso à informação objetiva; facilitará o debate pacifico sobre assuntos chave; ministrará apoio às instituições e aos processos democráticos; promoverá a participação cidadã e reforçará a liderança democrática”.
Apesar de que, talvez, soe “bonita” a linguagem empregada para justificar os milhões de dólares para grupos opositores da Venezuela, esse dinheiro tem funcionado como fonte principal para alimentar a subversão e a desestabilização contra o governo de Hugo Chávez. Somente de 2008 a 2011, o Departamento de Estado canalizou mais de 40 milhões de dólares à oposição venezuelana, principalmente investindo esse dinheiro nas campanhas eleitorais contra o presidente Chávez e na maquinaria midiática para influir sobre a opinião pública venezuelana.
O financiamento solicitado para 2012 para os grupos anti-chavistas na Venezuela provém de uma divisão do Departamento de Estado chamada “Fundo de Apoio econômico”. No entanto, não é essa a única fonte de financiamento para os setores opositores na Venezuela. Receberão também entre 1 e 2 milhões de dólares da NED (Fundo Nacional para a Democracia) e vários milhões de dólares de outras agências estadunidenses e internacionais.
Financiamento proibido
Chama a atenção que nesse ano se divulga publicamente o financiamento para a oposição venezuelana porque na Venezuela agora existe a Lei de Defesa da Soberania Política e da Autodeterminação Nacional que proíbe o financiamento externo para fins políticos no país. Então, teremos que perguntar-nos de que maneira o Departamento de Estado pensa canalizar esses fundos multimilionários a grupos venezuelanos, já que sua entrega seria uma violação da lei.
Em anos anteriores, não se detalhava o financiamento direto a grupos políticos na Venezuela no orçamento anual do Departamento de Estado porque desde 2002 a USAID tem sido o canal principal para esses fundos. No entanto, o escritório não autorizado da USAID em Caracas decidiu trasladar abruptamente suas operações na Venezuela para os Estados Unidos no dia 31 de dezembro de 2010 e, desde então, o próprio Departamento de Estado assumiu a responsabilidade do financiamento à oposição na Venezuela.
Em 2012, há eleições presidenciais e regionais na Venezuela, razão pela qual poder-se-ia especular que esses 5 milhões de dólares fazem parte de um financiamento que estão preparando para as campanhas da oposição.
No orçamento do Departamento de Estado para 2012, também se destacam 20 milhões de dólares no financiamento para grupos e organizadores que trabalham contra a Revolução Cubana.
Segundo o porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, o financiamento dado através do Fundo de Apoio Econômico (ESF, por suas siglas em inglês) é para países de “alta importância estratégica” para Washington. Normalmente os fundos não são autorizados pelos governos desses países, mas são entregues diretamente a grupos e organizações políticos que promovem os interesses dos Estados Unidos.
Jornalismo para quem precisa
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| Don Civita |
Recentemente, li sobre a criação, em 2010, do Instituto de Altos Estudos em Jornalismo, sob os auspícios da Editora Abril. Entre os mestres do tal centro estavam o dono da editora, Roberto Civita, mantenedor da Veja, e Carlos Alberto Di Franco, do Master de Jornalismo, uma espécie de Escola das Américas da mídia nacional voltada para a formação de “líderes” dentro das redações. Di Franco, além de tudo, é um dos expoentes, no Brasil, da ultradireitista seita católica Opus Dei, a face mais medieval e conservadora da Igreja Católica no mundo.
Sinceramente, não vejo que “altos estudos”, muito menos de jornalismo, podem sair de um lugar assim.
Não tenho dúvidas de que a representação do tal instituto não é acadêmica, embora seja dirigido por Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobras no governo do PT, renomado estudioso da imprensa no Brasil. Trata-se de uma representação fundamentalmente ideológica, a reforçar as mesmíssimas estruturas de poder das redações, estruturas ultraverticalizadas, essencialmente antidemocráticas e personalistas, onde a possibilidade de ascensão funcional, sobretudo a cargos de chefia, está diretamente ligada à capacidade de ser subserviente aos patrões e bestas-feras com os subordinados.
Felizmente, o surgimento da internet deu vazão a outro ambiente midiático, regido por outras regras e demandas, um devastador contraponto ao funcionamento hermético das grandes redações e ao poder hegemônico da velha mídia brasileira, inclusive de seus filhotes replicadores e retransmissores Brasil adentro. O fenômeno dos blogs e sua capacidade de mobilização informativa é só a parte mais visível de um processo de reordenamento da comunicação social no mundo. As redes sociais fragmentaram a disseminação de notícias, fatos, dados estatísticos, informes e informações em um nível adoravelmente incontrolável, criando um ambiente noticioso ainda a ser desbravado por novas gerações de repórteres que, para tal, precisam ser treinados e apresentados a novas técnicas e, sobretudo, a novas idéias.
A “era do aquário”, para ficar numa definição feliz do jornalista Franklin Martins – aliás, contrário à obrigatoriedade do diploma –, está prestes a terminar. O jornalismo decidido por cúpulas restritas, com pouco ou nenhum apego à verdade dos fatos, está reduzida a um universo patético de mau jornalismo desmascarado instantaneamente pela blogosfera, vide a versão rocambolesca da TV Globo sobre a bolinha de papel na cabeça de José Serra ou a farsa do grampo sem áudio que uniu, numa mesma trama bisonha, a revista Veja, o ministro Gilmar Mendes, do STF, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás.
Não será a escola de “altos estudos” da Veja e do professor Di Franco, portanto, a suprir essa necessidade. Essa demanda terá de ser suprida por repórteres ciosos de outro tipo de jornalismo, mais aberto e solidário, comprometido com a verdade factual e a honestidade intelectual, interessado em boas histórias. Um jornalismo mais leve e mais humano, mais preocupado com a qualidade da informação do que com a vaidade do furo. Um jornalismo vinculado à realidade, não a interesses econômicos. E isso, certamente, só poderá ser viabilizado dentro de outro modelo, cooperativo e democrático, a ser exercido a partir das novas mídias virtuais.
Por isso, é preciso estabelecer também um contraponto à ideologia da mídia hegemônica no campo da formação, em complemento aos cursos superiores de jornalismo. Abrir espaço para os milhares de estudantes de comunicação, em todo o Brasil, que não têm chance de participar dos cursinhos de treinees dos jornalões e das grandes emissoras de radiodifusão. Dar a eles, de forma prática e barata, uma oportunidade de aprender jornalismo com bons repórteres, com repórteres de verdade.
Leandro Fortes é jornalista, professor e escritor, autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado Brasília eu Vi. http://brasiliaeuvi.wordpress.com.
Ilustração by: Netto
* Terra Brasilis
Demoniocracia Capetalista Trucana Dem
Protesto em frente a prefeitura de São Paulo
Manifestantes reivindicavam uma reunião de negociação com o prefeito (DEMo) Gilberto Kassab para pedir a revogação do reajuste no preço da tarifa do transporte público. No início da noite, o protesto tomou a frente do prédio.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo disse que "sempre manteve canais abertos de diálogo com a sociedade e, por isso, afirma não ser possível compreender e aceitar a violência usada por manifestantes que protestam contra a tarifa do sistema de transporte público da cidade".
O diálogo demotucano é assim:
Uma solução pra o NunKassab
Prefeitura ainda não sabe como fechar buraco na Zona Oeste de SP
Cratera de 10 metros de profundidade atrapalha trânsito no Pacaembu
Basta jogar lá dentro todos os manifestantes que protestavam em frente a prefeitura.
*comtextolivre
Américo diz que os vereadores estavam reunidos com um representante da prefeitura quando ouviu o barulho das bombas. "Imediatamente interrompemos a conversa e tentamos dialogar [com a polícia], mas a tropa de choque nos agrediu com gás lacrimogêneo e gás de pimenta", afirma o vereador.
Petista e estudantes apanham da polícia do Serra/Alckmin
Policiais agridem os vereadores José Américo (ao fundo) e Antonio Donato, ambos do PT, durante protesto contra o aumento da tarifa de ônibus no centro de São Paulo
Policiais militares reprimem protesto contra o aumento da passagem de ônibus no centro de São Paulo
Manifestação desta quinta-feira (17) contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo terminou, mais uma vez, em pancadaria. Os manifestantes protestavam em frente à Prefeitura, quando policiais militares reprimiram o ato com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha.
“Eles vieram como uma truculência desproporcional”, afirma Fábio Nassif, que integra a comissão de comunicação do Comitê contra o Aumento da Passagem, grupo formado por movimentos sociais, partidos políticos de esquerda, grêmios estudantis, sindicatos, associações de bairro e pelo Movimento Passe Livre.
O protesto tem como objetivo pressionar a prefeitura para que seja revogado o aumento da tarifa de ônibus, que subiu de R$ 2,70 para R$ 3 em janeiro --variação de 11%-- após decreto do prefeito Gilberto Kassab (DEM).
Policial tucana prende, bate e arrebenta durante protesto contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo
Durante a pancadaria, sobrou paras os vereadores petistas Antonio Donato e José Américo, que participavam do ato e integram a comissão de negociação. Os dois parlamentares apanharam dos policiais com cassetetes e gás lacrimogêneo, mesmo após terem se identificado. Donato afirma ter sido agredido por policiais militares. “Está uma confusão aqui. Levei um monte de borrachada”, disse, por telefone, ao UOL Notícias.
Américo diz que os vereadores estavam reunidos com um representante da prefeitura quando ouviu o barulho das bombas. "Imediatamente interrompemos a conversa e tentamos dialogar [com a polícia], mas a tropa de choque nos agrediu com gás lacrimogêneo e gás de pimenta", afirma o vereador.
Segundo Fábio Nassif, um manifestante que foi agredido pelos PMs está detido ao lado do prédio da prefeitura. Carlos Ceconello, fotógrafo da Folha de S. Paulo, foi ferido na perna por estilhaços de bomba.
Não é a primeira vez que uma manifestação contra o aumento da tarifa em SP termina em pancadaria. Em 14 de janeiro deste ano, um protesto na praça da República foi reprimido por policiais militares. O mesmo ocorreu em uma manifestação no parque Dom Pedro, em janeiro de 2010.
*osamigosdopresidenteLula
*Cappacete
O que há em comum entre as ditaduras árabes e os governos paulistas do PSDB?
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| Egito |
| Argélia |
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| Bahrein |
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| São Paulo |
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| São Paulo |
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| São Paulo |
As semelhanças não ficam apenas no autoritarismo e na brutalidade policial, há também a corrupção generalizada, as relações promíscuas com a imprensa, o elitismo, as políticas excludentes, e a sede de perpetuação no poder.
*Cappacete
Hitler falava em nome dos cristãos?
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| Hitler é o da direita |
Estou cansado de ler textos analíticos de esquerda e de direita sobre o Oriente Médio.
E todas acabam se perdendo em elucubrações sobre o islamismo.
Como se o islamismo fosse um bicho papão.
Isso na verdade é o preço que se paga ao se ilustrar pela mídia corporativa que não vende informações, mas adjetivos.
O islamismo, como toda religião, tem seus altos e baixos.
O perigo é a generalização.
Associar o radicalismo ao islamismo é o mesmo que associar o cristianismo ao nazismo e o sionismo ao judaísmo.
Nem todo cristão é nazista e nem todo judeu é sionista.
Ambas as religiões tem seu lado bom e seu lado ruim.
O que está acontecendo no Oriente Médio não tem nada a ver com religião.
Tem a ver com a miséria, exclusão, fome e opressão.
No Oriente Médio ha nações ocupadas fisicamente – Iraque, Palestina, Líbano, Síria, o que as transforma em nações colonizadas em pleno século 21.
E há nações ocupadas monetariamente por corporações que mantêm no poder títeres cuja única preocupação é assaltar seus países e manter suas populações sob o jugo dos carrascos.
O que ocorre agora na região não tem nada a ver com religião, mas com revoluções que num primeiro momento prescindem das armas, mas todos sabemos o que pode acontecer num segundo momento.
Sempre se fala que a vontade do povo é soberana, que a voz do povo é a voz de Deus, mas ai do povo que acreditar nisso.
Acaba pagando um preço muito alto.
No entanto e independente disso, a roda da História sempre caminha para frente.
Pode até haver alguns recuos para que o sistema tenha alguma sobrevida, mas que ela anda para a frente, ela anda.
E se o povo do Oriente Médio entender que o islamismo pode sim ajudar na realização de bons governos, que assim seja.
Pelo menos o islamismo não produziu a inquisição, nem as duas guerras mundiais e nem jogou bombas atômicas sobre Nagazaki e Hiroshima.
Então que tal deixarmos o islamismo em paz e nos atermos ao que de fato interessa?
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Ecossocialismo nas latitudes ao sul do Trópico de Câncer
No Fórum Social Mundial 2011, realizado em Dakar, no Senegal, a questão do ecossocialismo ocupou novamente espaço dentre os ativistas e participantes desse importante encontro internacional. Mas afinal, o que vem a ser mesmo esse tal de ecossocialismo?
A virada do milênio tem trazido algumas questões novas à extensa pauta das preocupações com o futuro da Humanidade. Na seqüência de eventos históricos carregados de significado, talvez o mais importante tenha sido o fim da experiência do chamado “socialismo real” na maior parte dos países do leste europeu, bem como das conseqüências provocadas sobre os países que dependiam econômica e diplomaticamente daquele bloco em todos os continentes do globo.
O crescimento, em escala global, dos movimentos preocupados com a questão ambiental fortaleceu o surgimento dos próprios partidos chamados “verdes” ou “ecologistas”, que passaram a contar com representantes nos espaços legislativos em grande parte dos países, especialmente aqueles do mundo desenvolvido. Apesar de apresentarem uma visão muitas vezes restritiva em sua pauta política, a entrada em cena desses novos atores representava o início do debate a respeito da questão ambiental de forma institucional e definitiva. Não haveria mais como ignorar esse tema, até então pouco presente de forma explícita nas agendas políticas dos Estados.
Por outro lado, cada vez mais as forças políticas que partilhavam uma visão crítica do modelo de sociedade, tal como praticado pelos países defensores de uma economia de mercado - o nosso antigo e velho conhecido modo capitalista de produção, passaram a incorporar em suas reflexões a preocupação com a questão ambiental. Ou seja, a questão da superação do capitalismo passou a estar acompanhada da preocupação com um modelo social e econômico que estivesse também referenciado na própria sustentabilidade do planeta.
O crescimento da importância e da influência políticas exercidas pelo movimento altermundista reforçou igualmente tal tendência, à medida que as sucessivas edições do Fórum Social Mundial (FSM) aprofundavam os debates a respeito das estratégias para se aproximar do lema “um outro mundo é possível”. Em 2011, no evento realizado há poucos dias em Dakar, no Senegal, a questão do ecossocialismo ocupou novamente espaço dentre os ativistas e participantes desse importante encontro internacional.
Mas afinal, o que é vem a ser mesmo esse tal de ecossocialismo?
A conjugação de forças para a consolidação desse movimento foi bastante dispersa, como tende a ocorrer com as tentativas que buscam refletir uma tendência histórica e/ou conjuntural que perpassa fronteiras nacionais e barreiras de natureza até mesmo político-ideológica. Mas, ao que tudo indica, a idéia para uma iniciativa comum concretizou-se em 2001, quando os professores Joe Kovel (1) e Michael Löwy, dentre outros, propuseram o lançamento de um Manifesto Ecossocialista em escala internacional.
Pode-se começar a ter uma idéia mais objetiva do que seja o movimento a partir das considerações presentes no próprio texto introdutório do documento, escrito há quase uma década:
“O ecossocialismo não é ainda um espectro, tampouco está baseado em partido político ou movimento concreto. É somente uma alínea racional que parte de uma determinada interpretação da crise atual e das condições necessárias para superá-la. Não temos nenhuma pretensão de onisciência. Pelo contrário, nossa meta é convidar ao diálogo, a discussão, as emendas e, sobretudo, pensarmos como podemos efetivar está idéia. Por todos os lugares do universo caótico do capital mundial surgem espontaneamente pontos inumeráveis de resistência. Muitos são intrinsecamente ecossocialistas em seu conteúdo.” (2)
Com isso, percebe-se claramente um avanço em relação às críticas mais características do movimento ecologista. Em geral, este último sempre abriu suas baterias genericamente contra os chamados modelos predatórios e de destruição do meio-ambiente. Já os que se consideram integrantes da corrente ecossocialista procuram identificar no modelo capitalista as causas de tal degradação.
O texto do manifesto é claro quanto a essa qualificação:
“Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão profundamente relacionados e deveriam ser vistos como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais. As primeiras derivam, de uma maneira geral, da industrialização massiva, que ultrapassou a capacidade da Terra absorver e conter a instabilidade ecológica. O segundo deriva da forma de imperialismo conhecida como globalização, com seus efeitos desintegradores sobre as sociedades que se colocam em seu caminho. Ainda, essas forças subjacentes são essencialmente diferentes aspectos do mesmo movimento, devendo ser identificadas como a dinâmica central que move o todo: a expansão do sistema capitalista mundial.” (3)
No entanto, uma das grandes dificuldades de natureza teórica e política de tal proposição reside na maneira de como encarar a questão da inclusão de bilhões de indivíduos em condições de vida minimamente civilizatórias e a questão da redução do abismo de desigualdade sócio-econômica em escala planetária. Afinal, uma coisa é ter preocupação com o modelo de sustentabilidade em sociedades que já atingiram, há muitas décadas, padrões de bem estar social para a maioria das respectivas populações, com infra-estrutura econômica e social implantada no conjunto da sociedade e capacitação produtiva para buscar modelos de produção assim chamados de “verdes” e menos agressivos ao meio-ambiente. Já o desafio apresenta-se muito mais complexo quando se trata de sociedades – a grande maioria do mundo, diga-se de passagem – do mundo subdesenvolvido ou em desenvolvimento. A maior parte da população do mundo vive em países onde o nível de carência básica e as exigências de caráter emergencial exigem soluções muitas vezes contraditórias com o modelo um tanto idealizado do movimento ecossocialista.
A construção de uma estratégia para sustentar um modelo ecossocialista deve passar, necessariamente, pelo enfrentamento da questão do crescimento e do desenvolvimento econômicos. Afinal, não existe alternativa à inclusão social e econômica que não seja por essa via. E nesse momento, na encruzilhada do debate, surge a questão do “limite ao crescimento”, como o próprio manifesto tenta abordar, como veremos no parágrafo abaixo.
“O ecossocialismo insiste em redefinir a trajetória e objetivo da produção socialista em um contexto ecológico. Ele o faz especificamente em relação aos “limites ao crescimento”, essencial para a sustentabilidade da sociedade. Isso sem, no entanto, impor escassez, sofrimento ou repressão à sociedade. O objetivo é a transformação das necessidades, uma profunda mudança de dimensão qualitativa, não quantitativa. Do ponto de vista da produção de mercadorias, isso se traduz em uma valorização dos valores de uso em detrimento dos valores de troca um projeto de relevância de longo prazo baseado na atividade econômica imediata.” (4)
E por mais que se tente argumentar, infelizmente a questão é inescapável. Na situação atual, para a maioria da população do globo, impor limites ao crescimento significa estabelecer algum grau de escassez e de inacessibilidade ao padrão de vida já alcançado justamente pelas sociedades onde surgiram tais teorias. O grande desafio é encontrar um caminho que combine os requisitos de sustentabilidade em escala planetária com a necessária satisfação das necessidades de bilhões de pessoas que se encontram excluídas do acesso a bens básicos. E isso significa, sim, de alguma forma, ampliar o padrão atual de consumo em escala mundial. A busca de respostas, caminhos e soluções para esse dilema é exatamente o foco desse momento que parecemos viver no mundo, desse início de milênio.
Nesse sentido, parece um tanto idealista a proposição de operar exclusivamente na escala local, no plano do microempreendimento. Essa solução pode funcionar em alguns casos, em alguns países, mas dificilmente dará conta, no curto e no médio prazos, do atendimento em escala ampla. Da forma como o manifesto trata esse ponto, a livre associação de produtores pareceria capaz de oferecer a solução de generalizar a produção em bases ecológicas. Senão vejamos,
“A generalização da produção ecológica sob condições socialistas pode fornecer a base para superação das crises atuais. Uma sociedade de produtores livremente associados não cessa sua própria democratização. Ela deve insistir em libertar todos os seres humanos como seu objetivo e fundamento. Ela supera assim o impulso imperialista subjetiva e objetivamente.” (5)
Como se pode perceber, a questão é bastante complexa e não poderia ser esgotada aqui nesse espaço. Resolver essa dificuldade implica, entre outros aspectos, em reconhecer que o tratamento da sustentabilidade e dos diversos modelos a serem adotados deve obedecer, entre outros, ao critério da diversidade. E, desse ponto de vista, o ecossocialismo para as latitudes ao sul do Trópico de Câncer deveria merecer critérios diferenciados em relação àqueles da Europa e América do Norte. A maioria dos países da África, da Ásia, da América e da Oceânia apresenta carências urgentes e imediatas. O contra-argumento, igualmente relevante e essencial, é de que qualquer caminho deve levar em consideração os limites físicos do potencial de recursos físicos do planeta.
O momento atual e os anos a seguir serão fundamentais para que se encontrem soluções capazes de combinar o caminho da sustentabilidade da Terra, da redução das desigualdades entre as populações e do atendimento de padrões de vida condignos para todos.
NOTAS
(1) Ver entrevista em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17428
(2) Ver a íntegra em: http://www.iefd.org/manifestos/ecosocialist_manifesto.php
(3) Idem.
(4) Idem.
(5) Idem.
Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
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