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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sábado, maio 14, 2011

EUA proibem a compra, por Cuba, de remédio para tratar crianças com câncer.


Mais um hediondo crime do império do Norte

Messias Pontes *

 

Notícia sobre os crimes praticados pelo imperialismo, notadamente o norte-americano, não é mais novidade. Porém o último chama a atenção do mundo civilizado pela crueldade cometida por quem, cinicamente, fala em defender os direitos humanos. Trata-se da proibição da compra, por Cuba, de remédio para tratar crianças com câncer. O governo dos Estados Unidos obstaculizou que Cuba pudesse comprar dos laboratórios Abbott os anestésicos sevoflurane e dexmetomidina.A denúncia feita pelo presidente da Sociedade Cubana de Anestesiologia e Reanimação, Humberto Saínz Cabrera, foi publicada pelo jornal espanhol La República.

De acordo com Cabrera, o agente inalatório sevloflunare é um fármaco utilizado para a anestesia geral de crianças, e também é reconhecido por suas qualidades como protetor do coração contra infartos, isquemia e arritmias durante os atos anestésicos cirúrgicos em pacientes com enfermidades cardíacas, enquanto que a dexmetomidina é utilizada é utilizada na anestesiologia por suas propriedades de sedação analgésica e de potencializar agentes anestésicos maiores.

O injustificável e criminoso boicote econômico, financeiro e comercial imposto à Ilha há meio século já causou prejuízos de mais de US$ 770 bilhões aos cubanos. Isto tem impedido o desenvolvimento econômico daquele país caribenho e consequentemente imposto àquele heróico povo grandes sacrifícios. Há décadas as Nações Unidas e os democratas de todo o mundo exigem o fim desse criminoso boicote, contudo o governo ianque faz ouvidos de mercador, zombando de todos.

O governo norte-americano mente sempre para manter os seus interesses em todo o planeta e não cumpre os acordos e tratados que assina ou simplesmente os ignora. Isto tem ocorrido desde que os Estados Unidos se tornaram um país imperialista. Atualmente, o orçamento militar dos Estados Unidos é maior que a soma de todos os demais países na área de defesa. Sendo a maior potência militar, age como se fosse o xerife do mundo.

A eleição de um democrata negro para a presidência, fato inédito na história daquele país, trouxe esperança para os amantes da liberdade e da paz. Ele recebeu inclusive o Prêmio Nobel da Paz depois de prometer terminar com as guerras no Iraque e no Afeganistão e fechar as prisões de Guantánamo e Abu Ghraib. Além de não ter cumprido com a palavra empenhada na sua campanha eleitoral, Barack Obama aumentou o efetivo militar no Afeganistão e decidiu começar outra guerra na Líbia matando civis inocentes e destruindo hospitais.

Numa longa carta enviada a Barack Obama após o assassinato de Osama Bin Laden, o Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, expressa sua “preocupação e indignação de ver como a destruição e a morte semeada em vários países, em nome da ‘liberdade e da democracia’, duas palavras prostituídas e esvaziadas de conteúdo, termina justificando o assassinato e é festejada como se tratasse de um acontecimento desportivo”.

Em um trecho da carta a Obama, Esquivel enfatiza que “as atrocidades cometidas por teu país no mundo são tão grandes que dariam assunto para muita conversa. Isso é um assunto para historiadores que deverão investigar e saber dos comportamentos, políticas, grandezas e mesquinharias que levaram os EUA à monocultura das mentes que não permite ver outras realidades”.

Retornei de Cuba na madrugada da última segunda-feira, juntamente com um grupo de 12 cearenses que foi participar dos festejos do 1º de Maio. Pude ver de perto o quanto esse criminoso boicote imposto pelo império do Norte é nocivo aos cubanos, No entanto o efeito esperado pelo governo dos Estados Unidos é diametralmente oposto, gerando um sentimento anti-imperialista impressionante.

O patriotismo manifestado pelos cubanos, mesmo por aqueles que têm restrições às mudanças estabelecidas ultimamente, é de fazer inveja. A defesa da Revolução é qualquer coisa de extraordinária, está na alma da esmagadora maioria do povo e é demonstrada com muito orgulho. A participação no festejo do 1º de Maio é impressionante. Delegações sindicais de dezenas de países se fizeram presentes, e do Brasil destacou-se João Batista, presidente nacional da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil.

Chama a atenção o cuidado dispensado à saúde e à educação, em especial às crianças e adultos. Um ano após o triunfo da Revolução, o analfabetismo foi erradicado em todo o país. No que pese todas as dificuldades impostas pelo criminoso boicote norte-americano, o governo cubano criou e mantém a Escola Latino Americana de Medicina (ELAM) formando estudantes pobres da Ásia, África e America Latina. Do Brasil já foram formados 348, sendo 12 do Ceará e 32 estão em formação, sendo que três se formarão em julho próximo. Trinta e nove mil médicos cubanos atuam em mais de uma centena de países, o mesmo acontecendo com milhares de professores, inclusive em Fortaleza.

A secretária de Educação de Fortaleza, Ana Maria Cavalcante, e o presidente da Comissão de Educação da Câmara Municipal de Fortaleza, Guilherme Sampaio (PT), que integravam a nossa comitiva, mantiveram contatos com autoridades educacionais de Cuba visando convênios. Todos nós visitamos a ELAM e recebemos da direção daquela instituição e de estudantes cearenses todas as informações relativas à formação de estudantes pobres do mundo todo.

Existem em Fortaleza médicos formados em Cuba atuando nos bairros Praia do Futuro, Goiabeiras, José Walter, Mudubim, Pirambu, Vila Velha Barra do Ceará, Pici, Henrique Jorge e Pio XII; no interior cearense existem dezenas deles atuando em Madalena, Quixeramobim, Tamboril, Monsenhor Tabosa, Sobral, Senador Pompeu, Icapuí, dentre outros.

Há muita pobreza em toda a Ilha, porém não existe miséria. A alegria do povo é contagiante e sua cultura é muito parecida com a nossa. O povo cubano, tanto na capital como no interior do país, tem uma verdadeira veneração ao ex-presidente Lula que eles dizem ser amigo do Comandante Fidel e de Cuba.

Vale a pena conhecer Cuba, mesmo os que discordam.


* Diretor de comunicação da Associação de Amizade Brasil-Cuba do Ceará, e membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará e do Comitê Estadual do PCdoB.

Gurgel defende decisão de Lula sobre Battisti


O Estado de S. Paulo - 13/05/2011
Para procurador-geral, STF deve rejeitar queixa de governo italiano e manter ex-ativista no País

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, afirmou ontem que o Supremo Tribunal Federal (STF) deve rejeitar uma reclamação do governo italiano contra a decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter no Brasil o ex-ativista italiano Cesare Battisti.

Em seu último dia de governo, Lula recusou-se a entregar Battisti para a Itália apesar de o STF ter autorizado a extradição do ex-ativista. Na Itália, Battisti foi condenado à prisão perpétua em processos nos quais foi acusado de envolvimento em assassinatos.

Os advogados do governo italiano reclamam que o ex-presidente Lula teria desrespeitado o julgamento do Supremo que, em 2009, autorizou a extradição de Battisti.

Para o procurador, no entanto, isso não ocorreu. Ele observou que o STF deixou claro ao final do julgamento que o presidente da República não estava vinculado à decisão tomada pela Corte.


"Parece evidente que em momento algum o Supremo Tribunal Federal determinou ao presidente da República que efetivasse a extradição de Cesare Battisti", afirmou. "O requisito primordial para a propositura de reclamação é o descumprimento de decisão emanada do Supremo Tribunal Federal. Se, como visto, a decisão da Corte não vinculou o presidente da República, nada havia para ser afrontado", acrescentou.

O procurador também disse que seria uma afronta à soberania nacional a tentativa da Itália de reverter a decisão do governo dentro do próprio Estado brasileiro. "A despeito da seriedade das imputações aduzidas, o ato praticado pelo Brasil, considerado pela reclamante como ilícito interno e internacional, não pode ser submetido pela República da Itália ao crivo do Supremo Tribunal Federal por força das infrações aos princípios internacionais da soberania, autodeterminação dos povos e não intervenção de um Estado em assuntos internos de outro", afirmou Gurgel.

Julgamento. Encaminhado o parecer ao STF, cabe agora ao relator do caso, ministro Gilmar Mendes, concluir seu voto e liberar o processo para ser julgado em plenário. Não há previsão para que isso ocorra.

Cesare Battisti foi preso no Rio de Janeiro desde 18 de março de 2007. Ele foi depois transferido para Brasília, onde espera o fim do processo de extradição. Se a reclamação da Itália for negada, o ex-ativista italiano deverá ser solto.

PAPAI NEYMAR

Por Bráulio Wanderley

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Bola na trave ou golaço? (Foto: Jornal ESPN/O Estado de São Paulo)

Aconteceu o que faltava: Neymar vai ser papai. Qual a novidade nesse fato? Nenhuma.

Forma-se o craque, despreza-se o cidadão. Cria-se o ídolo, menospreza-se o (bom) exemplo.

Onde está o cuidado contraceptivo? Ou para os mais puros, o voto de castidade tão bem guardado por seu colega Kaká? Pior que a paternidade de Neymar, cujo 'ônus' será uma boa pensão alimentícia à menor que ele deflorou, é a perda da juventude da mãe, que acaba por endossar o ranking das adolescentes que engravidam precocemente.

O filme é velho, conta com um protagonista de peso e, até agora por motivos de menor idade, uma atriz figurinista. Entretanto, a onda de especulações invadiu alguns blogs. Para uns a 'sortuda mamãe' se chama Nicole Bahls (ex-namorada de Léo, artista do Parangolé), outras fontes apontam para FS (já que segundo alguns ela possui 17 anos, o blog posta apenas as iniciais e se isenta de postar fotos).

Torcemos, tal qual adoramos suas brilhantes jogadas em campo, para que Neymar, junto a futura mamãe, possam dar a devida instrução ao seu futuro bebê na condição de pais presentes e não como pais que apenas dão presentes e transformam crianças em órfãs de pais vivos.

É isso.
*históriavermelha

Charge do Dia

Os inimigos da Petrobras são os inimigos do Brasil

“Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.”



Getúlio Vargas, na Carta-Testamento, 24 de agosto de 1954


Escrevi o post sobre o resultado recorde da Petrobras antes de ler os jornais de hoje. E fiquei impressionado com a quantidade de ódio e de despeito que a elite brasileira destila, através de sua mídia, contra a maior e mais importante empresa brasileira. No momento em que ela atinge os maiores lucros da história, em que acumula sucesso após sucesso e, até, mostra na prática sua utilidade para a regulação da cadeia – privada – da comercialização de combustíveis (a ANP e nada, nesta crise, foram o mesmo), só o que se vê é manipulação e inveja por parte dos jornais.
Vou colecionar alguns títulos de matérias publicadas hoje no Estadão: Investimentos da Petrobrás caem 11% no 1º tri e somam R$ 15,87 bi; Custo de extração sobe 10,6%, para US$ 11,38 por barril; Balança comercial da Petrobrás sai do positivo para o negativo no 1º tri; Petrobrás adia anúncio do plano de investimentos .
O Globo segue a mesma linha, com menos vigor e a Folha só range os dentes. Prefere aunciar novo caos no abastecimento de etanol para dezembro .
Não é de hoje, como mostra a citação de Vargas, que a Petrobras é o alvo  político das forças que só entendem o Brasil como colônia. Não perdoam o fato de que Fernando Henrique  não tenha conseguido abrir mais completamente o setor de petróleo para as multinacionais. Não porque não o quisesse, é claro, mas porque a surda resistência da consciência brasileira e a própria força econômica e capacidade técnica da empresa – que enfrentou nos leilões, como pôde, a entrada das multis – impediu que ela tivesse o destino da Vale, que sangrou na terra as riquezas do país sob os aplausos de mídia colonialista.
Eles são e serão assim, atacando cada vez com mais vigor – e servindo-se de qualquer expediente para isso – o grande patrimônio nacional que ela, e as jazidas de petróleo contidas em  nosso solo e nosso  mar , representa.
Não será possível repelir estes ataques se não houver vigor. A empresa e o governo devem sair de uma postura tímida e mostrar como e porque nossa política para o petróleo é vital para nosso sonho – e direito – à soberania nacional.
Porque agora, como há 60 anos com Vargas, os inimigos da Petrobras são os inimigos de um Brasil independente, rico, autônomo.
A própria Presidente Dilma, logo, terá de ser a líder deste enfrentamento, como foi indispensável que Lula, antes, tomasse a frente do movimento de afirmação da Petrobras.
*tijolaço

sexta-feira, maio 13, 2011

Amor

Charge do dia

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O NAVIO NEGREIRO E MÃE AFRICANA

O que falta para a abolição? Não termos escravocratas

Como gaúcho-carioca, não quis dar muito palpite nessa polêmica em torno da estação do Metrô no bairro rico de Higienópolis, onde, aliás, reside o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Mas hoje, lendo a matéria sobre a declaração do também ex-presidente Lula,classificando de “absurda” e “inadmissível” a reação que fez o governo do Estado desistir de abrir uma estação na avenida Angélica, não posso deixar de entrar no assunto e reproduzir suas palavras.
“Eu acho um absurdo, porque isso demonstra um preconceito enorme contra o povo que anda de transporte coletivo neste país”, disse Lula, lamentando que haja gente criticando a possibilidade circulação de pobres no bairro de alto padrão.
“Sinceramente, não posso conceber que uma pessoa que estudou e tem posses seja tão preconceituosa e queira evitar que as pessoas mais humildes possam transitar no bairro onde mora”, disse.
Aqui no Rio, o Metrô está também  em Ipanema, em Copacabana e vamos muito bem, obrigado. Se algum erro há é que não esteja igualmente em outros bairros, mais carentes de transportes.
E será assim em Higienópolis, ou bem pertinho, e depois esta polêmica será apenas uma triste lembrança.
Que servirá, como serve, para lembrar que a abolição da escravatura, que hoje completa 123 anos, não significou o fim do pensamento escravocrata. Que sobrevive a alma mesquinha de quem acha que pobre serve como porteiro, zelador, babá, empregada doméstica, mas não é um ser humano que não mereça passar quatro ou cinco horas nos ônibus e engarrafamentos, porque não tem direito à família, ao lazer, ao descanso e, até, a estudar para progredir.
Mas vou ser coerente e parar por aqui. Vou deixar que alguém que vive lá em Higienópolis, a jornalista Leila Suwwan, que assina o blog Ronda Paulistana, em O Globo fale, muito melhor do que eu seria capaz de fazer, sobre esta inacreditável rejeição ao Metrô de Higienópolis.

Higienópolis, higienismo

“Gosto de eufemismos para dar acidez às piadas. Mas os eufemismos me dão azia quando são usados para mascarar o preconceito. Pode ter sido uma escolha ruim de almoço, mas meu estômago ainda está revirado com a notícia de hoje: os moradores de Higienópolis protestaram contra a construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica. Rejeitam a presença de “pessoas diferenciadas” e temem “ocorrências indesejáveis”. Déjà vu. Sou de Brasília e me lembrei de quando moradores da “Asa Sul” protestaram contra a passagem do metrô por ali: “isso vai facilitar o acesso da população das cidades satélites nos finais de semana”. Não se enganem: em ambos os casos, faltou uma coragem, digamos assim, bolsonaresca, de dizer: pobres são criminosos. Pobres não têm direito de ir e vir. Pobres estragam a paisagem.
Não tenho dúvida de que são as mesmas pessoas que dizem que os aeroportos viraram um inferno porque a classe C (os antigos “pobres”) pode comprar passagens. Não teria nada a ver com anos de descaso e falta de investimentos no setor aéreo. Ou que são as mesmas pessoas que não enxergam a fina ironia do destino quando se sentem discriminados em suas viagens aos Estados Unidos e à Europa, reduzidos a “brazucas”. Afinal, antes de serem cidadãos brasileiros, são cidadãos de uma classe que se pensa melhor, ou com mais direitos. Esse status deriva do privilégio e depende quase que exclusivamente do esforço segregacionista.
Eu moro em São Paulo há quase um ano e meio, no bairro de Santa Cecília, também conhecido como o “baixo” Higienópolis. Essa pseudo-nobreza imobiliária me rende piadas, a mais nova é a que pago um aluguel “diferenciado”. A região é “baixa” porque não tem nome nordestino _ no “alto” de Higienópolis, as pessoas medem seu status pelo nome da rua, em uma equação inversamente proporcional ao desenvolvimento humano de alguns estados, como o Maranhão e o Piauí. Mas, principalmente, minha Higienópolis é baixa porque está no declive que desemboca no “minhocão”, local visto lá do “alto” como um dos círculos do inferno de Dante.
Pois bem, Higienópolis conseguiu se ironizar ao extremo com esta trágica paródia do higienismo urbano. Triste ver que o eufemismo é contagioso. Na “Folha de S. Paulo”, de uma moradora da zona leste que trabalha em Higienópolis: “Seria ótimo porque trabalho aqui, mas acho a opinião deles válida. Vai bagunçar mais”. É como se essa trabalhadora não quisesse ver o “privilégio” do acesso, liberado por “eles”, concedido aos demais. Fosse o Brasil um país mais instruído, menos injusto, veríamos o protesto oposto.
Na verdade, há no Facebook um movimento: “o churrascão da gente diferenciada”, marcado no bairro para este sábado. Seria uma resposta à moradora que, ano passado, já havia declarado à Folha: “Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada…” A ver se vai realmente acontecer.” 
*tijolaço