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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Haddad alinhará prefeitura ao governo federal

Fernando Haddad promete " reinventar " SP, caso seja eleito
Haddad: “Curiosamente ela (Dilma) está descrevendo as etapas das minhas angústias com muita acuidade”
Por Raymundo Costa e Luciano Máximo | VALOR
O Palácio do Planalto confirmou ontem que o ministro Fernando Haddad (Educação) deixa o governo, na terça-feira, para concorrer às eleições para prefeito de São Paulo. Haddad deixa o governo, mas o governo vai com ele para a campanha. Ele promete “reinventar São Paulo”, ao alinhar a prefeitura ao governo federal, tem a promessa dos apoios da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas assegura que não se esconderá na campanha.
“Vou me fiando muito na opinião daqueles que me querem bem”, disse o ministro ao Valor, em conversa na noite da terça-feira. Haddad afirma que sente uma “vibração” muito forte tanto de Lula quanto de Dilma. Promessa do ex-presidente: “Você pode contar que em março vai ter um cabo eleitoral muito disposto a te ajudar”, disse Lula, durante uma visita que o ministro lhe fez na antevéspera do Natal de 2011. O ex-presidente carregava o tripé com os medicamentos que lhe foram receitados para tratar um câncer na laringe.
“Tenho conversado muito com a presidenta Dilma, que viveu uma coisa muito parecida com a que eu vou viver”, contou Haddad na entrevista. “Curiosamente ela está descrevendo as etapas das minhas angústias com muita acuidade. Ela vai te descrevendo um processo que vai te tornando mais forte, a cada etapa vencida.” Segundo Haddad, Dilma já está tendo um papel em sua candidatura. Mas ele não sabe dizer se ela participará da campanha. “É a primeira eleição que ela vai viver como presidente. Eu acho que o partido deve respeitar os limites que ela estabelecer.”
“Eu não acredito numa campanha que esconda o candidato”, disse Haddad ao ser questionado sobre o fato de ser o candidato de Lula e Dilma. “O candidato é a sua história, o que ele fez, o que ele estudou, onde ele trabalhou, o que promoveu de avanços, o que pretende”, afirmou. “Mas também é os que o apoiam. Não há como dissociar o candidato das forças que o apoiam.” Indagado se isso significa que em seu palanque estará, por exemplo, o ex-ministro José Dirceu, acusado de “chefiar” a quadrilha do suposto esquema do mensalão, responde: “Estarão no meu palanque todos os companheiros do PT e dos partidos que estiverem coligados com o PT nessa empreitada.”
O ministro acha que as campanhas não devem esconder seus candidatos nem seus apoiadores, sob o risco de o efeito ser contrário ao esperado. Citou como exemplo as campanhas do PSDB que esconderam o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os tucanos saíram derrotados.
Durante toda a entrevista ao Valor, Haddad tentou relativizar a possibilidade de uma aliança com o PSD, o partido do atual prefeito Gilberto Kassab. Não demonstrou entusiasmo, mas também não descartou. O ministro diz preferir tratar com os aliados do governo federal, a abrir uma discussão com quem o coloca como terceira alternativa na eleição – Kassab tem declarado que apoiará José Serra, se ele for o candidato tucano, ou o vice-governador Guilherme Afif Domingos, na hipótese de reedição da aliança tucano-kassabista. “Discutir essa hipótese nessas circunstâncias é algo que inverte totalmente o processo”, disse. “E o processo que se dá agora é esse: a administração atual buscando o apoio do PSDB – ou oferecendo, no caso do candidato José Serra, ou buscando o apoio, no caso do vice-governador Afif.”
Haddad evitou até mesmo criticar a ação do governo e da Prefeitura de São Paulo na Cracolândia: “Não vi ninguém defender a tese de que a situação pudesse permanecer como estava, sem nenhuma iniciativa do poder público por décadas a fio.” Prefeito, ele teria agido de outra maneira, com integração da ação policial com a saúde e a assistência.
“À luz dessa conjuntura nós vamos iniciar dois movimentos. Um no sentido de elaborar o diagnóstico temático da cidade com lideranças petistas e não petistas. O outro, já discutido com o PT municipal, no de buscar um entendimento intenso com os partidos da base aliada do governo Dilma, sobretudo PR, PCdoB, PSB e PDT, em função do fato de que o PMDB já está um pouco adiantado na sua postulação (a candidatura do deputado federal Gabriel Chalita), mas que seria também um interlocutor natural do nosso campo.”
“São essas as duas decisões tomadas à luz desse movimento [a oferta de aliança feita por Kassab], que é até generoso da parte do prefeito, por reconhecer a qualidade das nossas pretensões, da nossa postulação”, afirmou. E acenou: “Se alguém faz um gesto de simpatia à sua candidatura, você não precisa estar aliado a ele necessariamente no primeiro turno. Mas você sabe que, para compor maioria em São Paulo, dependendo de quem for seu adversário, as alianças de segundo turno são mais flexíveis do que no primeiro turno.”
Por enquanto, o que Haddad fala é em resgatar projetos do último governo do PT na cidade, da senadora Marta Suplicy. Nesse aspecto, ele deixa entrever que dará mais prioridade ao ônibus no que se refere à mobilidade urbana. “Não podemos continuar construindo dois quilômetros de metrô por ano. Algumas cidades construíram dez vezes mais”, disse. “Mas nós não podemos imaginar que uma cidade com a característica de São Paulo vá se resolver só com o modal [metrô]. Nós vamos ter que resgatar o plano dos corredores, se quisermos que as pessoas cheguem em casa.” Segundo Haddad, esse é um dos projetos que “é a cara do PAC” e que lhe permitirá, se eleito, desenvolver uma intensa parceria com o governo federal.
O ministro disse também, em relação ao longo domínio do PSDB na política de São Paulo, que sente “uma ansiedade do paulista e do paulistano em ouvir um discurso novo; vamos ver se esse som agrada”. O candidato promete um debate de alto nível: “Eu espero que a eleição de 2012 seja diferente da eleição de 2010. A eleição de 2010 não foi uma celebração da democracia no sentido de projetos que se confrontam mas se respeitam. A partir de determinado momento a injúria, a difamação e o golpe baixo prevaleceram sobre o bom debate.” Em 2010 – afirmou – “houve uma degradação do ambiente político. É consenso da sociedade. Inclusive da parte do próprio PSDB. Eu vi declarações do Aécio Neves e do Fernando Henrique Cardoso nessa direção”.
*Briguilino

Vídeo: 2º WebFor - convite do Zé Dirceu


*blogdamilitância

As Organizações Globo dirigem o Brasil e com mão de ferro. Todos têm medo dessa instituição e as autoridades judiciais do país se omitem vergonhosamente. Os empregados da Globo com comunicados lacônicos deram por encerrado o episódio criminoso do BBB12. É muito triste!

O cartunista Chico poderia fazer uma charge sobre o BBB12. Que tal?

 

 

Em e-mails, PanAmericano negociou doação irregular ao PSDB

banco_panamericano_silvio_santosUma troca de e-mails entre diretores do PanAmericano dá indícios de que o banco pode ter feito doações irregulares para a campanha eleitoral do PSDB em Alagoas em 2010. Os e-mails foram encontrados pela Polícia Federal nos arquivos apreendidos na sede da instituição, que pertencia ao empresário e apresentador Silvio Santos e foi vendida ao BTG Pactual após a descoberta de um rombo de R$ 4,3 bilhões no patrimônio do banco.

Neles, diretores do PanAmericano avaliam uma suposta proposta feita pelo governo de Alagoas para negociar uma dívida do Estado com o banco em troca de uma "taxa de intermediação" de 25% sobre o valor devido - retorno que poderia ser pago por meio de doação para a campanha do partido (veja reprodução abaixo).
A dívida de Alagoas com o PanAmericano data de 2006. Entre os meses de fevereiro e dezembro daquele ano, o Estado recolheu, via folha de pagamento, parcelas de empréstimos consignados feitos por servidores, mas não repassou os valores aos bancos. Naquela época, Alagoas era governada por Luís Abílio de Sousa Neto (PDT), que assumiu em março de 2006, quando o então governador Ronaldo Lessa (PDT) licenciou-se para concorrer ao Senado. Em valores históricos, a dívida de Alagoas com a instituição era de R$ 2,7 milhões. Com a correção monetária, somava R$ 3,3 milhões em agosto de 2010.
Até meados daquele ano, com as finanças de Alagoas em crise, nenhuma negociação estava em curso. Mas e-mails trocados entre o então presidente do PanAmericano, Rafael Palladino, seu diretor financeiro, Wilson Roberto de Aro, e o gerente de consignado, Luiz Carlos Perandin, sugerem que havia uma proposta em avaliação.
Em um desses e-mails, Aro questiona Palladino se pode "tocar o acordo abaixo". O acordo a que ele se refere é esmiuçado em um e-mail de Perandin encaminhado a Aro, no qual ele detalha uma suposta proposta para a liquidação da dívida apresentada pelo secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico de Alagoas, Luiz Otávio Gomes.
No e-mail, Perandin afirma que "na reunião realizada ontem (16 de agosto de 2010) a pedido do governo de Alagoas, o Dr. Luiz Otávio Gomes, secretário de Estado, ratificou que a única forma de liquidarem o débito é efetuar o pagamento na forma abaixo, ou seja, retorno de 25% sobre o principal e devolução integral da correção monetária".
Conforme o relato de Perandin, o pagamento seria feito em quatro parcelas de R$ 827,1 mil e o retorno pela intermediação custaria ao banco 25% do total da dívida - ou seja, R$ 678,5 mil -, além da devolução da correção monetária, o que totalizaria R$ 1,27 milhão, também dividido em quatro parcelas. Perandin ainda afirma, no e-mail, que "em resumo, de um crédito de R$ 2,7 milhões (valor histórico) vamos receber R$ 2,03 milhões" e que "o pagamento do retorno poderá ser a título de doação para campanha do PSDB mediante recibo ou emissão de nota fiscal por empresa que será indicada pelo secretário". Ao fim do e-mail, o gerente de consignado afirma que, para não expor a empresa na operação, uma alternativa seria efetuar o pagamento "através de notas fiscais emitidas por terceiros sem vínculos de negócios com as empresas do grupo".
As trocas de e-mails sobre a possibilidade de o PanAmericano receber os valores devidos por Alagoas começaram em 10 de agosto de 2010 e se estenderam até o dia 23 do mesmo mês. Nos arquivos encontrados pela PF não há e-mails que comprovem que o acordo entre o banco e o governo do Estado foi fechado e nem e-mails enviados por Luiz Otávio Gomes.
Procurado pelo Valor, o governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "tem total confiança no secretário e que todas as contas do governo estão abertas". A assessoria afirmou ainda que não há nenhum e-mail do secretário enviado a nenhum dos diretores do PanAmericano e que grande parte do problema dos empréstimos consignados está resolvido.
Além disso, informou que os servidores já não têm seus nomes negativados nos serviços de proteção ao crédito e mais de 60% da dívida do Estado com os bancos foi paga até o fim de 2010. A assessoria não soube informar, no entanto, se o restante da dívida foi pago durante o ano passado.
A Polícia Federal em São Paulo, que deve concluir em breve o inquérito que apura fraudes contábeis e crimes contra o sistema financeiro nacional no PanAmericano, encaminhou os arquivos contendo as trocas de e-mails à superintendência de Alagoas. A PF alagoana abriu um inquérito policial específico para apurar indícios de doações irregulares para campanha eleitoral. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da PF no Estado informou que não comentaria sobre o inquérito.
Fonte: Valor Econômico
Extraído do Vermelho
*OCarcará
Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.
Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,
que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,
que suporte qualquer tipo de labores,
desconheça a ira, nada cobice e creia mais
nos labores selvagens de Hércules do que
nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.
Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;
Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.
Juvenal (poeta e retórico romano)
*Aartedoslivrespensadores

Vada a bordo, Serra Schettino!

Deu no Estadão:
Serra comunica ao PSDB que está fora da disputa à Prefeitura de São Paulo
Depois de meses de pressão para que entrasse na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o ex-governador José Serra (PSDB) reuniu o seu grupo de aliados mais próximos e informou em tom solene que não será candidato na eleição municipal deste ano.
Embora, em se tratando do que Serra diz, a única verdade que se pode afirmar conter no que fala é a de que é falsa cada palavra, talvez se possa comparar sua atitude com a do capitão italiano do Costa Concórdia, o transatlântico naufragado nas costas da Itália.
Não importa que Alckmin e Aécio esfreguem as mãos diante da possibilidade de que ele, candidato, perca e afunde. A nau tucana aderna em São Paulo, seu porto seguro, Kassab procura desesperadamente um colete salva-vidas petista, reina a confusão a bordo do Tucanic.
E o capitão do Tucanic, embora estropiado depois de ter apanhado de um “poste” – não é, Montenegro? – diz que vai descer à terra para apreciar o naufrágio sem molhar os pés. Entrega a Alckmin o supremo comando e diz: “carregue seu candidato”.
Infelizmente, Fernando Henrique Cardoso não tem a estatura moral daquele capitão da guarda costeira italiana e não pode dar um grito: Vadda a bordo, catzo!
Alckmin, reinando sobre os destroços, dirá que que os salvados do naufrágio são só seus.
E a elite paulista, tão orgulhosa e soberba com os pobres, irá negociar os despojos com Minas, numa antítese de Borba Gato e Raposo Tavares.
Parte dela, é claro, porque a São Paulo que sabe ler no seu brasão o latim “non ducor, duco”, o “não sou conduzido,conduzo”, não se afogará como o tucanato. Mesmo que seja num cruzeiro de luxo.
*Tijolaço

Deleite Ellis



30 anos sem Ellis
*VivaBabel

Deleite Parto Natural

*rodrigo

FOME É UM PROBLEMA POLÍTICO

Porquê a fome?

Via Diario Liberdade
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António Barata
Silenciosa, mais uma tragédia humanitária está em curso no chamado Corno de África (principalmente no Sul da Somália e no Quénia, podendo vir a alastrar à Etiópia, Sudão e Eritreia).
São 12,4 milhões as pessoas ameaçadas de morte por nada terem para comer senão aquilo que chega a conta-gotas via ONU e que, passadas as primeiras notas de inquietação, foram remetidas para o esquecimento pela comunicação social e a chamada "comunidade internacional", ocupadas com o "combate ao terrorismo" e a "democratização" do Iraque, Afeganistão, Líbia, Irão, Síria, etc. Se é endémica a fome em muitas regiões do Terceiro Mundo, e em particular no Corno de África, a verdade é que, ao contrário do que durante as últimas décadas acontecia, outro tipo de fome tem vindo a alastrar na Europa, Estados Unidos e Japão, o que pode ser atestado pelo aumento em flecha do número de famílias que dependem da ajuda pública de emergência nos países desenvolvidos. Dados deste ano dizem que 15% dos norte-americanos – 46 milhões de pessoas – dependem do apoio alimentar do governo para sobreviver, não sendo a situação nos países da OCDE muito diferente.
Encarada como uma fatalidade, tornou-se hábito atribuir a fome aos caprichos da natureza, à melhoria das condições de vida na China, na Índia e noutros países do Sul – que consomem mais produtos alimentares do que antes ­­– e, onde os há, aos conflitos "regionais e étnicos". É como se as causas da fome fossem conjunturais e não estruturais, consequência da nova divisão do trabalho provocada pela globalização, com a produção da mais-valia situada cada vez mais nos países do Terceiro Mundo e a sua apropriação nos países ricos do Norte; como se ela fosse um problema agrícola e houvesse escassez de alimentos; como se essa suposta escassez estivesse a ser agravada pelo crescimento populacional e de consumo de países como a China e a Índia, as guerras, os maus governos e a corrupção; como se a desertificação e o abandono da agricultura resultassem das alterações climáticas e houvesse uma relação directa entre a perda de colheitas e de gado e a fome.
A ser assim, como explicar que países como os EUA e a Austrália, que ciclicamente sofrem períodos de seca severos, não sofram nessas alturas fomes extremas? As guerras e as calamidades naturais podem certamente agravar os problemas. Mas não passa de uma fraude quererem-nos fazer crer que a fome, a corrupção, o nepotismo, a degradação crescente das condições de vida da maioria da humanidade são uma fatalidade somada à "má governação".
A fome é antes de mais um problema político, uma consequência da concentração de capitais, da apropriação da riqueza a uma escala nunca vista por um punhado cada vez mais reduzido de capitalistas e multinacionais, do excesso de produção e somas enormes de capitais que não encontram colocação na produção de mercadorias e que por isso se deslocam para a especulação e outras áreas financeiras.
A FOME É UM PROBLEMA POLÍTICO
Segundo os dados disponíveis, a produção de alimentos triplicou em relação à dos anos 60; entre 2007 e 2008 o número de pessoas cronicamente subalimentadas ultrapassou os mil milhões, enquanto a produção alimentar mundial cresceu 5%. Como entender este fenómeno curioso de ao aumento da oferta de bens alimentares não ter correspondido um embaratecimento dos bens alimentares nem a redução da fome? E que, pelo contrário, os alimentos se tenham tornado mais caros nos países do Sul e tenha aí surgido a crise alimentar que dura desde há anos em países até há pouco tempo auto-suficientes?
Tudo isto começou com as políticas que os países do Terceiro Mundo foram obrigados a aplicar nos últimos 20 anos a mando do FMI, Banco Mundial e OMC – medidas de "ajustamento estrutural" e dos chamados "incentivos à agricultura" impostas por estas organismos aos países da africanos, asiáticos e sul-americanos, quando da negociação das suas dívidas externas. Daí resultaram a destruição das suas agriculturas, a dependência alimentar e a depreciação das matérias-primas – combinadas com a especulação bolsista em torno dos cereais e outras matérias-primas agrícolas mais a manipulação dos seus preços.
Que as causas da fome são políticas e não outras atestam-no há décadas diversos organismos internacionais. Segundo a FAO, a produção mundial actual de alimentos é bastante para 12 biliões de pessoas. Como o planeta é habitado por 7 biliões, isso significa que não falta comida, pelo que não há nenhuma razão para que uma em cada sete pessoas passe fome. Logo, o problema não é agrícola, de esgotamento de recursos, ecológico ou de população a mais. O problema está na apropriação e na distribuição da riqueza e dos recursos, no facto de os bens alimentares serem apropriados como uma mercadoria cuja função principal não é a satisfação das necessidades humanas, mas as do capital financeiro e da especulação bolsista.
Mesmo na Somália, onde as secas são constantes, não podemos responsabilizar a natureza pela fome. A região foi auto-suficiente até ao final dos anos 60. O que mudou desde então não foi só o meio ambiente, mas o controlo dos recursos naturais, que passou para as mãos das multinacionais e do grande capital. Estes têm vindo a comprar massivamente os terrenos férteis para aí instalar agro-indústrias e especular na área fundiária e nas bolsas. Tem sido isto, e não os desastres naturais, o que por todo o mundo está a expulsar milhares de camponeses das suas terras, reduzindo-se assim a capacidade destes países e regiões para se auto-alimentarem. Por exemplo, enquanto o PAM – Programa Mundial de Alimentos – procura dar de comer às cerca de 12 milhões de pessoas acantonadas nos acampamentos do Sudão, nas terras ao lado (possivelmente muitas delas compradas aos refugiados) os governos do Kuwait, Emiratos e Coreia do Sul produzem alimentos para exportação; ou, como constatava o New York Times em 2002, "na Índia os pobres morrem de fome enquanto apodrecem os excedentes de trigo".
A MALDIÇÃO DO MERCADO LIVRE
Nos anos 80 o FMI e o Banco Mundial impuseram aos países da África, Ásia e América Latina as medidas de ajustamento acima referidas (obrigada a pagar aos seus credores do Clube de Paris, a Somália foi um deles: teve de liberalizar a sua economia e abrir o comércio aos produtos dos países ricos). Em resultado, estes países foram inundados de arroz, trigo, sorgo e milho produzidos pelas multinacionais agro-industriais dos EUA e Europa. Esses cereais, subvencionados por vezes em mais de 50% pelos respectivos governos e, por norma, vendidos abaixo do preço de custo, arruinaram as agriculturas e os comércios locais. Isto conduziu a desvalorizações sucessivas da moeda, à inflação, à monocultura e, por fim, ao abandono dos campos, à migração das populações aos milhares para as cidades e, em consequência, a uma florescente especulação mobiliária.
O actual surto de fome, que é um novo pico na grave crise alimentar iniciada em 2008, tem como causa imediata e visível a contínua subida dos preços dos cereais básicos, particularmente violento no último ano. Na Somália, o preço do milho aumentou 106% e o sorgo 180%. Na Etiópia, o trigo subiu 85%. No Quénia, o milho aumentou 55%.
Mas são a especulação financeira e o grande capital os principais responsáveis pela situação. Os preços dos alimentos são estabelecidos a milhares de quilómetros dos mercados dos países do Sul, nas bolsas norte-americanas e europeias, principalmente as de Chicago, Londres, Paris, Amesterdão e Frankfurt, e não as economias locais. Num processo decalcado do da especulação imobiliária que levou à actual crise económica, os stocks de cereais e outras matérias-primas estão a ser continuamente vendidos e comprados por bancos, fundos de investimento, capitais de riscos e seguradoras, alimentando a espiral especulativa que provoca a subida dos preços dos alimentos.
Vivemos num mundo de abundância, o que faz com que a produção e o comércio agrícola estejam mais que nunca sujeitos a interesses que nada têm a ver com a alimentação humana. Devido a esta abundância cada vez maior, as grandes multinacionais agro-alimentares estão (muitas vezes a coberto de hipócritas proclamações ecológicas e de defesa da natureza) orientadas para a especulação financeira e a distribuição de dividendos aos seus accionistas, desviando a produção de cereais e de óleos alimentares da alimentação humana para a produção de biocombustíveis, negócio altamente lucrativo devido à procura crescente de petróleo e ao esgotamento das reservas de combustível fóssil. Actualmente, mais de um quarto da produção de milho nos EUA destina-se ao fabrico de etanol. Ou seja, cerca de 150 milhões de toneladas de milho estão a ser desviadas anualmente da alimentação humana para a produção de biocombustíveis. O mesmo se passa no Brasil e um pouco por todo o Terceiro Mundo, fazendo com que o preço dos cereais atinja valões especulativos, o que tem levado alguns estudiosos a dizer que se estão lançadas "as bases de um crime contra a humanidade".
*GilsonSampaio