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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
terça-feira, fevereiro 28, 2012

“Perdendo o mundo”: o declínio dos EUA em perspectiva
Noam Chomsky*
O
declínio dos Estados Unidos entrou há algum tempo numa nova fase: a do
declínio autoinfligido. Desde os anos 70 tem havido mudanças
significativas na economia dos EUA, à medida que estrategas, estatais e
do sector privado, passaram a conduzi-la para a financeirização e para a
exportação de unidades industriais. Essas decisões deram início ao
círculo vicioso no qual a riqueza e o poder político se tornaram
altamente concentrados, os salários dos trabalhadores ficaram
estagnados, a carga de trabalho aumentou e o endividamento das famílias
também.
Há
aniversários significativos que são comemorados solenemente – o do
ataque japonês à base da Marinha norte americana de Pearl Harbor, por
exemplo. E há outros que são ignorados, e no entanto poderiam sempre
aprender-se importantes lições acerca do seu significado nos tempos que
se seguiram. Na verdade, no tempo de agora.
Neste
momento, erramos ao não comemorar o 50° aniversário da decisão do
presidente John F Kennedy de promover a mais assassina e destrutiva
agressão do período pós-Segunda Guerra: a invasão do Vietname do Sul e
depois de toda a Indochina, deixando milhões de mortos e quatro países
devastados com perdas que ainda neste momento estão a crescer, causadas
pela exposição do país aos agentes cancerígenos mais letais de que se
tem conhecimento, que comprometeram a cobertura vegetal e a produção de
alimentos.
O primeiro alvo foi o
Vietname do Sul. A agressão expandiu-se depois para o Norte, e para a
sociedade remota do nordeste do Laos, até finalmente chegar ao rural
Camboja, cujo bombardeamento atingiu o impressionante nível de ser
equivalente ao de todas as operações aéreas aliadas da região do
Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo as duas bombas
lançadas em Hiroshima e Nagasaki. Aí, as ordens de Henri Kissinger
estavam a ser obedecidas – “bombardear qualquer coisa que voe ou se
mova”; uma convocatória para o genocídio rara na história.
Pouco de tudo isto é lembrado. A maior parte desses massacres é escassamente conhecida para além do estreito círculo dos activistas.
Quando a invasão teve início, há cinquenta anos, a preocupação era tão reduzida que havia poucas tentativas de justificação; dificilmente iam além da indiferente afirmação do presidente de que “nos estamos a opor, em toda a parte do mundo, a uma conspiração monolítica e brutal que trata, principalmente sob meios ocultos, de expandir a sua esfera de influência” e, se a “conspiração” conseguir concretizar os seus objectivos no Laos e no Vietname, “os portões ficarão amplamente franqueados”.
Pouco de tudo isto é lembrado. A maior parte desses massacres é escassamente conhecida para além do estreito círculo dos activistas.
Quando a invasão teve início, há cinquenta anos, a preocupação era tão reduzida que havia poucas tentativas de justificação; dificilmente iam além da indiferente afirmação do presidente de que “nos estamos a opor, em toda a parte do mundo, a uma conspiração monolítica e brutal que trata, principalmente sob meios ocultos, de expandir a sua esfera de influência” e, se a “conspiração” conseguir concretizar os seus objectivos no Laos e no Vietname, “os portões ficarão amplamente franqueados”.
Numa outra ocasião,
acrescentou também que “as sociedades liberais, tolerantes e
autoindulgentes estavam para ser varridas para os escombros da história
[e] só a força… pode sobreviver”, reflectindo neste caso a propósito
do fracasso da agressão e do terror estadunidenses na tentativa de
esmagar a independência cubana.
Quando
os protestos começaram a crescer meia dúzia de anos depois, o
respeitado historiador militar e especialista em Vietname Bernard Fall -
de modo nenhum um pacifista - previu que “o Vietname como entidade
histórica e cultural…está ameaçado de extinção…[enquanto]…a sua área
rural morre literalmente sob os bombardeamentos da maior máquina militar
jamais concentrada numa área desta dimensão”. Estava, uma vez mais, a
referir-se ao Vietname do Sul.
Quando a guerra acabou, oito horrendos anos depois, a opinião dominante estava dividida entre aqueles que a descreviam como uma “causa nobre” que poderia ter sido vencida se tivesse havido maior empenho, e o extremo oposto, os críticos, para quem se tratou de “um erro” que se provou ser altamente dispendioso. Por volta de 1977 pouca atenção foi dada ao Presidente Carter quando explicou que “não havia dívida” nossa para com o Vietname porque “a destruição fora mútua”.
Quando a guerra acabou, oito horrendos anos depois, a opinião dominante estava dividida entre aqueles que a descreviam como uma “causa nobre” que poderia ter sido vencida se tivesse havido maior empenho, e o extremo oposto, os críticos, para quem se tratou de “um erro” que se provou ser altamente dispendioso. Por volta de 1977 pouca atenção foi dada ao Presidente Carter quando explicou que “não havia dívida” nossa para com o Vietname porque “a destruição fora mútua”.
Há
lições importantes para hoje em tudo isto, para além dos fracos e
derrotados que são chamados a responder pelos seus crimes. Uma lição é
que para entender o que está a acontecer devemos procurar não apenas
criticar os acontecimentos no mundo real, frequentemente ignorados pela
história, mas também aquilo em que os líderes e a opinião da elite
acreditam, mesmo que pintado com as tintas da fantasia. Uma outra lição é
que, ao lado dos produtos da imaginação fabricados para aterrorizar e
mobilizar o público (e em que talvez acreditem aqueles que são
enganados pela sua própria retórica), há também planeamento
geoestratégico baseado em princípios que se mantém racionais e estáveis
durante longos períodos, porque estão implantados em instituições
estáveis e na agenda destas. Isso também é verdade no caso do Vietname.
Voltarei ao tema, destacando aqui apenas que os elementos que
persistem na acção estatal são geralmente bastante opacos.
A
guerra do Iraque é um caso instrutivo. Foi vendida a um público
aterrorizado através da ameaça usual da autodefesa face um formidável
perigo para a sobrevivência: a “única questão” que George W. Bush e Tony
Blair colocaram foi se Saddam Hussein iria encerrar o seu programa de
desenvolvimento de armas de destruição em massa. Quando a “única
questão” recebeu a resposta errada, a retórica do governo mudou
rapidamente para o nosso “anseio por democracia”, e a opinião pública
condicionada seguiu devidamente o curso; o de sempre.
Mais tarde, à medida que a escalada da derrota no Iraque se tornou difícil de esconder, o governo admitiu tranquilamente o que já era claro para todo mundo. Em 2007-2008, a administração anunciou oficialmente que um acordo final deve assegurar a permanência de bases militares dos EUA e o direito destes a operar militarmente no país, e deve privilegiar os investidores estadunidenses na exploração de seu rico sistema energético – reivindicações que passaram depois para segundo plano face à relutância iraquiana. E tudo ficou bastante opaco para a maioria das pessoas.
Mais tarde, à medida que a escalada da derrota no Iraque se tornou difícil de esconder, o governo admitiu tranquilamente o que já era claro para todo mundo. Em 2007-2008, a administração anunciou oficialmente que um acordo final deve assegurar a permanência de bases militares dos EUA e o direito destes a operar militarmente no país, e deve privilegiar os investidores estadunidenses na exploração de seu rico sistema energético – reivindicações que passaram depois para segundo plano face à relutância iraquiana. E tudo ficou bastante opaco para a maioria das pessoas.
Padronizando o declínio americano
Com
essas lições em mente é útil dar uma vista de olhos sobre o que é
destacado na manchete dos maiores jornais de política e de opinião, nos
dias de hoje. Peguemos na mais prestigiada das publicações do
establishment, Foreign Affairs. A estrondosa manchete da capa de
Dezembro de 2011 estampava em negrito: “A América acabou?”.
O
artigo da capa pedia “corte de gastos” nas “missões humanitárias” no
exterior, que estavam a consumir a riqueza do país, para impedir o
declínio americano, que é o maior tema nos discursos do ambiente de
negócios, e que frequentemente vem acompanhado do corolário de que o
poder está a mudar para o Leste, para a China e (talvez) a Índia.
Depois os principais artigos são a respeito de Israel e da Palestina. O
primeiro, da autoria de dois altos oficiais israelenses, é intitulado
“O Problema é a Rejeição Palestina”: o conflito não pode ser resolvido
porque os palestinos se recusam a reconhecer Israel como Estado Judeu –
o que está em conformidade com a prática diplomática normal: os
estados são reconhecidos, não os seus sectores privilegiados. Esta
reclamação dificilmente será outra coisa senão um novo estratagema para
conter o risco de uma solução política para os assentamentos ilegais,
que minaria os objectivos expansionistas de Israel.
A
posição oposta é defendida por um professor estado-unidense e tem o
título “O Problema é a Ocupação”. No subtítulo lê-se: “Como a Ocupação
está Destruindo a Nação”. Qual nação? A de Israel, é claro. Ambos os
artigos aparecem com o título em destaque: “Israel sitiado”.
A edição de Janeiro de 2012 lança ainda um outro apelo ao bombardeamento do Irão, já, antes que seja tarde demais. Alertando contra “os perigos da dissuasão”, o autor sugere que “os cépticos em relação à acção militar falham na avaliação do perigo real que um Irão com armas nucleares significaria para os interesses dos EUA no Oriente Médio e mais longe ainda. E nas suas sombrias previsões imaginam que a cura pode ser pior do que a doença – quer dizer, que as consequências de um ataque estadunidense ao Irã seriam tão más ou piores do que se o país conseguisse levar a cabo as suas ambições nucleares. Mas essa é uma suposição falsa. A verdade é que um ataque militar visando destruir o programa nuclear iraniano, se for feito com cuidado, poderá significar a eliminação para a região e para o mundo de uma ameaça muito real e melhorar dramaticamente a segurança nacional dos Estados Unidos a longo prazo”.
Outros argumentam que os custos seriam altos demais e, no limite, alguns chegam a dizer que um ataque [ao Irão] violaria o direito internacional – como o fazem os moderados, que lançam regularmente ameaças de violência, em violação à Carta das Nações Unidas.
A edição de Janeiro de 2012 lança ainda um outro apelo ao bombardeamento do Irão, já, antes que seja tarde demais. Alertando contra “os perigos da dissuasão”, o autor sugere que “os cépticos em relação à acção militar falham na avaliação do perigo real que um Irão com armas nucleares significaria para os interesses dos EUA no Oriente Médio e mais longe ainda. E nas suas sombrias previsões imaginam que a cura pode ser pior do que a doença – quer dizer, que as consequências de um ataque estadunidense ao Irã seriam tão más ou piores do que se o país conseguisse levar a cabo as suas ambições nucleares. Mas essa é uma suposição falsa. A verdade é que um ataque militar visando destruir o programa nuclear iraniano, se for feito com cuidado, poderá significar a eliminação para a região e para o mundo de uma ameaça muito real e melhorar dramaticamente a segurança nacional dos Estados Unidos a longo prazo”.
Outros argumentam que os custos seriam altos demais e, no limite, alguns chegam a dizer que um ataque [ao Irão] violaria o direito internacional – como o fazem os moderados, que lançam regularmente ameaças de violência, em violação à Carta das Nações Unidas.
Vamos rever cada uma dessas preocupações dominantes
O
declínio americano é real, embora esta visão apocalíptica reflicta a
percepção bastante habitual da classe dominante de que alguma limitação
parcial ou geral implica o desastre total. A despeito desses pios
lamentos, os EUA persistem como poder dominante mundial por larga
margem e não há competidores à vista, não apenas em dimensão do poder
militar, a respeito do qual os EUA dominam em absoluto.
A
China e a Índia registaram um crescimento rápido (embora altamente
desigual), mas permanecem países muito pobres, com problemas internos
enormes que o Ocidente não enfrenta. A China é o maior centro industrial
do mundo, mas maioritariamente como linha de montagem para as
potências industriais avançadas, na sua periferia, e para as
multinacionais ocidentais. É provável que isso mude com o tempo. A
indústria em regra provê as bases para a inovação e a invenção, e na
China isso vem ocorrendo. Um exemplo que impressionou os especialistas
ocidentais foi a tomada chinesa da liderança no crescente mercado de
painéis solares, não apenas com base na mão-de-obra barata, mas no
planeamento coordenado e, crescentemente, na inovação.
Mas
os problemas que a China enfrenta são sérios. Alguns são demográficos,
relatados na Science, o líder dos semanários estadunidenses de
divulgação científica. O estudo mostra que a mortalidade caiu
bruscamente na China durante os anos maoístas, “principalmente em
resultado do desenvolvimento económico e das melhorias nos serviços
educacionais e de saúde, especialmente no movimento de higiene pública
que resultou num golpe drástico à mortalidade por doenças infecciosas”.
Esse progresso acabou com o início das reformas capitalistas no país,
há 30 anos, e a taxa de mortalidade desde então tem aumentado.
Além
disso, o crescimento económico chinês recente contou substancialmente
com um “bónus demográfico”, uma grande população em idade
economicamente ativa. “Mas a janela para o uso desse bónus pode fechar
em breve”, com um “impacto profundo no desenvolvimento”: “o excesso de
mão-de-obra barata, que é um dos maiores factores de dinamização do
milagre económico chinês deixará de estar disponível”. A demografia é
apenas um dos muitos problemas sérios para diante. No que concerne a
Índia, os problemas são ainda mais graves.
Nem
todas as vozes proeminentes anteveem o declínio americano. Nos media
internacionais não há nada mais sério e respeitável do que o Financial
Times. O jornal dedicou recentemente uma página inteira à expectativa
optimista em que a nova tecnologia para extrair combustível fóssil
norte-americano pode fazer com que os EUA se tornem energeticamente
independentes, mantendo portanto a sua hegemonia por mais um século.
Não há menção ao tipo de mundo que os EUA comandarão nesse cenário
feliz, mas não por falta de dados.
Quase
ao mesmo tempo a Agência Internacional de Energia reportou que com o
aumento rápido das emissões de carbono dos combustíveis fósseis o
limite de uso seguro será atingido por volta de 2017, se o mundo
continuar no actual curso. “A porta está a fechar”, disse o
economista-chefe da AIE, e muito em breve “fechará de vez”.
Pouco
antes, o Departamento de Energia dos EUA informou que as imagens mais
recentes das emissões de dióxido de carbono, com “a subida para o maior
índice já registado”, atingiram um nível mais elevado do que os piores
cenários previstos pelo Painel Internacional de Mudanças Climáticas
(IPCC). Isso não constitui surpresa para muitos cientistas, inclusive
os do programa do MIT para as mudanças climáticas, que alertou durante
anos que os prognósticos do IPCC eram demasiado conservadores.
Esses críticos das previsões do IPCC não receberam qualquer atenção pública, ao contrário dos grupos negacionistas do aquecimento global, que são apoiados pelo sector corporativo, juntamente com imensas campanhas de propaganda que têm colocado os americanos de fora do espectro internacional dessas ameaças. O apoio das corporações também se reflecte directamente no poder político. O negacionismo é parte do catecismo que deve ser entoado pelos candidatos republicanos na ridícula campanha eleitoral em curso, e no Congresso eles são suficientemente poderosos até para abortar investigações sobre o efeito do aquecimento global, deixando de lado qualquer acção séria a respeito. Numa palavra, o declínio americano pode talvez ser interrompido se abandonarmos a esperança numa sobrevivência decente, prognóstico também bastante real dado o equilíbrio de forças no mundo.
Esses críticos das previsões do IPCC não receberam qualquer atenção pública, ao contrário dos grupos negacionistas do aquecimento global, que são apoiados pelo sector corporativo, juntamente com imensas campanhas de propaganda que têm colocado os americanos de fora do espectro internacional dessas ameaças. O apoio das corporações também se reflecte directamente no poder político. O negacionismo é parte do catecismo que deve ser entoado pelos candidatos republicanos na ridícula campanha eleitoral em curso, e no Congresso eles são suficientemente poderosos até para abortar investigações sobre o efeito do aquecimento global, deixando de lado qualquer acção séria a respeito. Numa palavra, o declínio americano pode talvez ser interrompido se abandonarmos a esperança numa sobrevivência decente, prognóstico também bastante real dado o equilíbrio de forças no mundo.
“Perdendo” a China e o Vietname
Deixando
de lado estas coisas desagradáveis, um olhar de perto sobre o declínio
americano mostra que a China joga na verdade um grande papel nele,
tanto como o que jogava há 60 anos. O declínio que agora gera tanta
preocupação não é um fenómeno recente. Ele remonta ao fim da Segunda
Guerra Mundial, quando os EUA tinham metade da riqueza do mundo e
dispunham de níveis globais de segurança incomparáveis. Os estrategas
políticos estavam naturalmente bastante conscientes dessa enorme
disparidade de poder e pretendiam mantê-la assim.
O ponto de vista básico foi apresentado com admirável franqueza num grande documento de 1948. O autor era um dos arquitectos da Nova Ordem Mundial da época, o representante da equipa de Planeamento Político do Departamento de Estado dos EUA, o respeitado estadista e académico George Kennan, um pacifista moderado entre os estrategas. Ele observou que o objectivo político central era manter a “posição de disparidade” que separava a nossa enorme riqueza da pobreza dos outros. Para alcançar esse objectivo, advertiu, “nós deveríamos parar de falar em objectivos vagos e… irreais, como os direitos humanos, a elevação do padrão de vida e a democratização”, e devemos “lidar com conceitos estritos de poder”, não “limitados por slogans idealistas” a respeito de “altruísmo e do benefício do mundo”.
O ponto de vista básico foi apresentado com admirável franqueza num grande documento de 1948. O autor era um dos arquitectos da Nova Ordem Mundial da época, o representante da equipa de Planeamento Político do Departamento de Estado dos EUA, o respeitado estadista e académico George Kennan, um pacifista moderado entre os estrategas. Ele observou que o objectivo político central era manter a “posição de disparidade” que separava a nossa enorme riqueza da pobreza dos outros. Para alcançar esse objectivo, advertiu, “nós deveríamos parar de falar em objectivos vagos e… irreais, como os direitos humanos, a elevação do padrão de vida e a democratização”, e devemos “lidar com conceitos estritos de poder”, não “limitados por slogans idealistas” a respeito de “altruísmo e do benefício do mundo”.
Kennan
estava a referir-se especificamente à Ásia, mas as suas observações
generalizam-se, com excepções, aos participantes no actual sistema de
dominação global dos EUA. Ficou bastante claro que os “slogans
idealistas” deveriam ser apresentados sobretudo quando dirigidos aos
outros, inclusive às classes intelectualizadas, das quais era esperada a
sua disseminação.
O plano de Kennan ajudou a formular e a implementar a tomada de controlo pelos EUA do Hemisfério Oeste, do Extremo Leste e das regiões do ex-império britânico (incluindo os incomparáveis recursos energéticos do Médio Oriente), e aquilo que foi possível da Eurásia, sobretudo os seus centros comerciais e industriais. Esses não eram objetivos irreais, dada a distribuição do poder. Mas o declínio foi então determinado de vez.
O plano de Kennan ajudou a formular e a implementar a tomada de controlo pelos EUA do Hemisfério Oeste, do Extremo Leste e das regiões do ex-império britânico (incluindo os incomparáveis recursos energéticos do Médio Oriente), e aquilo que foi possível da Eurásia, sobretudo os seus centros comerciais e industriais. Esses não eram objetivos irreais, dada a distribuição do poder. Mas o declínio foi então determinado de vez.
Em 1949, a
China declarou a independência, um acontecimento conhecido no discurso
do Ocidente como “a perda da China” – nos EUA, com algumas
recriminações amarguradas e o conflito interpretativo a respeito de
quem tinha sido o responsável por essa perda. A terminologia é
reveladora. Só é possível perder o que em algum momento se teve. A
assunção tácita era que os EUA tinham a China, por direito, juntamente
com a maior parte do resto do mundo, tal como os estrategas do
pós-guerra pensavam.
A “perda da
China” foi o primeiro grande passo do “declínio americano”. Foi o que
teve maiores consequências políticas. Uma delas foi a decisão imediata
de apoiar o esforço francês de reconquista da sua ex-colónia da
Indochina, para que esta também não fosse “perdida”.
A Indochina em si não era motivo de preocupação maior, a despeito das afirmações acerca das suas riquezas naturais por parte do presidente Eisenhower e outros. A preocupação maior era antes com a “teoria do efeito dominó”, a qual é frequentemente ridicularizada quando os dominós não caem, mas permanece um princípio regulador da política, porque é bastante racional. Para adoptar a versão que Henri Kissinger dele faz, uma localidade que cai fora do controle pode tornar-se um “vírus” que irá “contagiar”, induzindo outros a seguirem o mesmo caminho.
No caso do Vietname, a preocupação era que esse vírus do desenvolvimento independente pudesse infectar a Indonésia, que de facto é rica em recursos. E isso poderia levar o Japão – o “superdominó”, como o proeminente historiador da Ásia John Dower chamava – a “acomodar” uma Ásia independente como seu centro tecnológico e industrial num sistema que escaparia do alcance do poder dos EUA. Isso significaria, com efeito, que os EUA tinham perdido a fase Pacífico da Segunda Guerra, na qual lutaram para tentar impedir que o Japão estabelecesse uma Nova Ordem na Ásia.
A Indochina em si não era motivo de preocupação maior, a despeito das afirmações acerca das suas riquezas naturais por parte do presidente Eisenhower e outros. A preocupação maior era antes com a “teoria do efeito dominó”, a qual é frequentemente ridicularizada quando os dominós não caem, mas permanece um princípio regulador da política, porque é bastante racional. Para adoptar a versão que Henri Kissinger dele faz, uma localidade que cai fora do controle pode tornar-se um “vírus” que irá “contagiar”, induzindo outros a seguirem o mesmo caminho.
No caso do Vietname, a preocupação era que esse vírus do desenvolvimento independente pudesse infectar a Indonésia, que de facto é rica em recursos. E isso poderia levar o Japão – o “superdominó”, como o proeminente historiador da Ásia John Dower chamava – a “acomodar” uma Ásia independente como seu centro tecnológico e industrial num sistema que escaparia do alcance do poder dos EUA. Isso significaria, com efeito, que os EUA tinham perdido a fase Pacífico da Segunda Guerra, na qual lutaram para tentar impedir que o Japão estabelecesse uma Nova Ordem na Ásia.
O modo de lidar
com um problema desses é claro: destruir o vírus e “inocular” aqueles
que podem ser infectados. No caso do Vietname, a escolha racional era
destruir qualquer esperança de desenvolvimento independente
bem-sucedido e impor ditaduras brutais nos arredores. Essas tarefas
foram levadas a cabo com sucesso – embora a história tenha a sua
própria astúcia, e algo similar ao que foi temido desde então se tenha
desenvolvido no Leste da Ásia, na maior parte dos casos para
consternação de Washington.
A
vitória mais importante das guerras da Indochina deu-se em 1965, quando
um golpe de estado militar com o apoio dos EUA, liderado pelo general
Suharto, significou crimes massivos comparados pela CIA aos de Hitler,
Stalin e Mao. A “assombrosa matança massiva”, como a descreveu o New
York Times, foi cuidadosamente reportada nos meios dominantes, e com
desenfreada euforia.
*Turquinho
Dilma aos generais da reserva: a comandante sou eu!
O
artigo 84 da Constituição Federal é claro. Ele arrolada entre os
atributos que competem privativamente ao chefe da Nação a função de
“exercer o comando supremo das Forças Armadas”.
Não há dúvidas a respeito. Nem pode haver. E foi o que a presidente Dilma Rousseff deixou claro, novamente, ao enquadrar oficiais generais da reserva, presidentes dos clubes Naval, da Aeronáutica e Militar, que quebraram a disciplina regimental ao criticar, em nota conjunta, a presidente Dilma Rousseff, duas ministras do governo e o Partido dos Trabalhadores que, na comemoração dos 32 anos de sua fundação, voltou à carga contra o regime dos generais.
O motivo é o de sempre; o apego dogmático à lei de Anistia de 1979, adotada pela própria ditadura de 1964 e que protege agentes da repressão que cometeram perseguição, sequestro, tortura e assassinato políticos durante aquele regime discricionário.
O pretexto, desta vez, foram declarações da ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, apoiando processos judiciais contra agentes da repressão da ditadura. E da nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, que, em seu discurso de posse, fez críticas veementes contra a ditadura e foi aplaudida pela presidente Dilma Rousseff.
São duas mulheres que têm a autoridade de quem sofreu na pele os abusos da repressão da ditatura. Não tem sentido, para os chefes militares da reserva saudosos da ditadura, argumentar perante elas para atenuar aquelas violências – estavam em lados opostos; elas – como os milhares de perseguidos políticos – na situação de vítimas; eles, ao lado dos algozes.
Soou mal quando, na nota conjunta que divulgaram em 16 de fevereiro, aqueles chefes militares manifestaram a pretensão de neutralidade da presidente Dilma Rousseff, ou de ministros de seu governo, contra aqueles crimes. É inadmissível a crítica que fizeram à presidente da República por ter aplaudido as manifestações da ministra Menicucci, e a cobrança clara, feita por eles, de que Dilma a condenasse ou desautorizasse.
A questão de fundo é a proximidade da entrada em funcionamento da Comissão da Verdade, cujos membros serão nomeados até março para examinar aquele passado tenebroso com olhar crítico. Aqueles chefes militares reivindicam o direito de ter presença e voz nessa Comissão e temem o que entendem como uma “unilateralidade” das apurações.
Dilma manifestou sua contrariedade com a atitude dos generais da reserva. E, de novo, fez valer sua voz de comandante em chefe das Forças Armadas, como já havia feito em agosto do ano passado, quando sua autoridade de comandante em chefe das Forças Armadas foi desafiada pelo então ministro da Defesa, Nelson Jobim, que acabou demitido.
O caminho seguido pela resposta da presidente foi o da hierarquia, cujo topo é ocupado por ela. Dilma convocou o ministro da Defesa, Celso Amorim, que chamou os comandantes de cada uma das Forças, cabendo a eles executarem o enquadramento dos generais indisciplinados, que foram constrangidos a divulgar outra nota, no dia 23, desautorizando a anterior. O comportamento da presidente não podia ser outro, até porque ela deve cumprir a Constituição em todos os seus quesitos.
O almirante Veiga Cabral, presidente do Clube Naval, ainda esperneou, dizendo que os militares não podem ficar calados ao serem “desafiados de um lado e engolirmos sapo de outro”.
Ele está errado. As críticas à ditadura militar e a exigência pública de esclarecimento dos crimes cometidos pela repressão não são desafios às Forças Armadas, mas expressam o clamor pela apuração da ação de agentes do Estado que cometeram aqueles crimes hediondos e imprescritíveis. Que precisam ser apurados e punidos, em nome da democracia e da civilização. Eles sim são “sapos” enfiados goela abaixo da Nação e que não podem ser aceitos e nem se pode calar sobre eles.
A comandante em chefe sou eu: este foi o recado de Dilma para as viúvas da ditadura. A “neutralidade” reivindicada por eles é uma prerrogativa de casta inaceitável na democracia, regime no qual todos (chefes militares ou não) devem estar subordinados à Constituição. A apuração dos crimes cometidos durante a ditadura militar tem este sentido: o do respeito à Constituição. Respeito que não foi partilhado pelos golpistas de 1964, pelos generais e seus paus mandados que exerceram o poder e cometeram barbaridades condenadas, e que deixam saudades em setores conservadores cuja visão hierárquica da sociedade fundamenta a pretensão de terem direitos especiais e estarem a salvo da lei. Não estão.
Não há dúvidas a respeito. Nem pode haver. E foi o que a presidente Dilma Rousseff deixou claro, novamente, ao enquadrar oficiais generais da reserva, presidentes dos clubes Naval, da Aeronáutica e Militar, que quebraram a disciplina regimental ao criticar, em nota conjunta, a presidente Dilma Rousseff, duas ministras do governo e o Partido dos Trabalhadores que, na comemoração dos 32 anos de sua fundação, voltou à carga contra o regime dos generais.
O motivo é o de sempre; o apego dogmático à lei de Anistia de 1979, adotada pela própria ditadura de 1964 e que protege agentes da repressão que cometeram perseguição, sequestro, tortura e assassinato políticos durante aquele regime discricionário.
O pretexto, desta vez, foram declarações da ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, apoiando processos judiciais contra agentes da repressão da ditadura. E da nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, que, em seu discurso de posse, fez críticas veementes contra a ditadura e foi aplaudida pela presidente Dilma Rousseff.
São duas mulheres que têm a autoridade de quem sofreu na pele os abusos da repressão da ditatura. Não tem sentido, para os chefes militares da reserva saudosos da ditadura, argumentar perante elas para atenuar aquelas violências – estavam em lados opostos; elas – como os milhares de perseguidos políticos – na situação de vítimas; eles, ao lado dos algozes.
Soou mal quando, na nota conjunta que divulgaram em 16 de fevereiro, aqueles chefes militares manifestaram a pretensão de neutralidade da presidente Dilma Rousseff, ou de ministros de seu governo, contra aqueles crimes. É inadmissível a crítica que fizeram à presidente da República por ter aplaudido as manifestações da ministra Menicucci, e a cobrança clara, feita por eles, de que Dilma a condenasse ou desautorizasse.
A questão de fundo é a proximidade da entrada em funcionamento da Comissão da Verdade, cujos membros serão nomeados até março para examinar aquele passado tenebroso com olhar crítico. Aqueles chefes militares reivindicam o direito de ter presença e voz nessa Comissão e temem o que entendem como uma “unilateralidade” das apurações.
Dilma manifestou sua contrariedade com a atitude dos generais da reserva. E, de novo, fez valer sua voz de comandante em chefe das Forças Armadas, como já havia feito em agosto do ano passado, quando sua autoridade de comandante em chefe das Forças Armadas foi desafiada pelo então ministro da Defesa, Nelson Jobim, que acabou demitido.
O caminho seguido pela resposta da presidente foi o da hierarquia, cujo topo é ocupado por ela. Dilma convocou o ministro da Defesa, Celso Amorim, que chamou os comandantes de cada uma das Forças, cabendo a eles executarem o enquadramento dos generais indisciplinados, que foram constrangidos a divulgar outra nota, no dia 23, desautorizando a anterior. O comportamento da presidente não podia ser outro, até porque ela deve cumprir a Constituição em todos os seus quesitos.
O almirante Veiga Cabral, presidente do Clube Naval, ainda esperneou, dizendo que os militares não podem ficar calados ao serem “desafiados de um lado e engolirmos sapo de outro”.
Ele está errado. As críticas à ditadura militar e a exigência pública de esclarecimento dos crimes cometidos pela repressão não são desafios às Forças Armadas, mas expressam o clamor pela apuração da ação de agentes do Estado que cometeram aqueles crimes hediondos e imprescritíveis. Que precisam ser apurados e punidos, em nome da democracia e da civilização. Eles sim são “sapos” enfiados goela abaixo da Nação e que não podem ser aceitos e nem se pode calar sobre eles.
A comandante em chefe sou eu: este foi o recado de Dilma para as viúvas da ditadura. A “neutralidade” reivindicada por eles é uma prerrogativa de casta inaceitável na democracia, regime no qual todos (chefes militares ou não) devem estar subordinados à Constituição. A apuração dos crimes cometidos durante a ditadura militar tem este sentido: o do respeito à Constituição. Respeito que não foi partilhado pelos golpistas de 1964, pelos generais e seus paus mandados que exerceram o poder e cometeram barbaridades condenadas, e que deixam saudades em setores conservadores cuja visão hierárquica da sociedade fundamenta a pretensão de terem direitos especiais e estarem a salvo da lei. Não estão.
Editorial do VERMELHO
São Paulo para todos
(texto publicado na Carta Maior
O significado da eleição em São Paulo
O campo político brasileiro está constituído e polarizado entre o PT e o PSDB, desde o governo FHC, como pólos que agrupam a esquerda e a direita realmente existentes. Essa configuração foi a segunda, desde o fim da ditadura, quando havia um mapa mais difuso, com o PMDB ocupando o centro do campo político, com sua aliança com o PFL, que havia comandado a transição conservadora que tivemos, tendo o PDS mais à direita e o PT, o PDT, o PC do B, mais à esquerda.
Essa configuração foi sobre determinada pelo governo Sarney, surgido da aliança PMDB-PFL, passando pelo Colégio Eleitoral – que trocou Ulysses Guimarães por Tancredo Neves – e pela contingência da morte deste. Esse campo político foi sendo esvaziado pela impotência do PMDB e seu desgaste por pagar o preço de um governo em que não era hegemônico.
O novo campo político passou por uma transição, marcada pela chegada da
onda neoliberal através da candidatura e do governo Collor. Ao final
desse projeto, prematuramente cortado pelo impeachment, se desenhou a
configuração atual do campo político, com o deslocamento do PMDB e a
assunção da aliança PSDB-PFL como novo eixo da direita, assumindo a
continuidade reformulada do projeto neoliberal. Desde a passagem ao
segundo turno do Lula e a disputa acirrada com o Collor em 1989, o PT
passou a polarizar pela esquerda o campo político.
Neoliberalismo e resistência ao neoliberalismo marcaram ideologicamente o novo campo político – e o definem até hoje. Ao encarnar o neoliberalismo aqui – depois que estava prestes a embarcar no governo Collor, quando do seu impeachment -, o PSDB assumiu o lugar de eixo político da direita brasileira, renovada, com o governo FHC e sua aliança com o então PFL. Como se viu pelas campanhas eleitorais posteriores, essa pecha nunca mais saiu dele – com as privatizações como sua marca essencial, mas acompanhada do Estado mínimo, da abertura acelerada do mercado interno, da precarização das relações de trabalho.
O PT, aliado à CUT, ao MST e ao conjunto dos partidos do campo da esquerda e aos movimentos sociais, esteve na resistência ao neoliberalismo, conseguindo frear a privatização já programada pelos tucanos da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica.
O triunfo do Lula fez com que seu governo aparecesse como o contraponto do modelo neoliberal encarnado pelos tucanos: prioridade das políticas sociais, fim da ALCA e prioridade da integração regional e dos intercâmbios Sul-Sul, Estado indutor do crescimento econômico e garantia das políticas sociais e não Estado mínimo que entregava a centralidade ao mercado.
Os PSDB se refugiou em São Paulo onde conseguiu manter sua hegemonia, controlando o governo do Estado e da cidade de São Paulo, por um conjunto de fatores, entre os quais não estão isentos erros do PT e da esquerda. O Estado foi guindado à posição de bastião da direita e do conservadorismo em escala nacional, pela associação com órgãos de imprensa – FSP, Estado, Editora Abril, Radio Jovem Pan, entre outros. Em mais de duas décadas, as únicas exceções foram os governos de Luiza Erundina e de Marta Suplicy, que não conseguiram reeleger-se.
A nova derrota tucana para a presidência da República não impediu que Alckmin se elegesse no primeiro turno para o governo do Estado. Porém a manobra serrista da aliança do Kassab contra Alckmin nas eleições anteriores para a prefeitura, terminaram trazendo problemas para as hostes tucanas, pelo mau governo do Kassab e pela ausência de nomes para disputar sua sucessão.
Depois da farsa da consulta interna – em um universo de filiados que foi se revelando totalmente fictício, até chegar ao numero irrisório de 8 mil, sem a certeza de quantos votariam –, os tucanos apelaram para o Serra como candidato (não importando como vão resolver a farsa da consulta interna). O que recoloca fortemente a polarização nacional no coração do núcleo de resistência tucana, agora com Lula diretamente envolvido – pelo candidato escolhido por ele e pela sua participação sem os limites da presidência da República.
O significado desse embate eleitoral é o de trazer para a cidade os grandes debates nacionais. A cidade e o Estado foram transformados profundamente conforme os critérios mercantis do neoliberalismo pelos governos tucanos. A esfera pública e, com ela, os direitos sociais, foram enfraquecida, em favor da esfera mercantil. O Estado e a cidade mais ricos do país – o segundo e o terceiro orçamentos do Brasil – não são, nem de longe, referência para o país em nenhum dos quesitos essenciais – condições de trabalho, educação, saúde, transporte, segurança, políticas culturais, habitação, políticas para a juventude, pra as mulheres, para as diversidades étnica, sexuais e culturais, para a democratização dos meios de comunicação.
Ao contrário, a cidade de São Paulo, com toda a riqueza não apenas
econômica, mas social, cultural, tornou-se uma cidade cruel, pelas
condições péssimas em que vive a maioria da população. As elites
paulistanas, que lograram impor seus interesses através dos tucanos e da
mídia, oprimem, exploram e discriminam a grande maioria da população,
que não encontrou até aqui formas eficientes no plano político para
reverter essa situação.
A cidade de São Paulo tornou-se o epicentro do racismo e da discriminação no país, contra os pobres, contra os nordestinos, contra os homosexuais, contra os jovens pobres, contra todos os oprimidos, os humilhados, os marginalizados. Mais do que qualquer cidade do país São Paulo precisa de um governo que priorize as políticas sociais e culturais, que a humanize, que difunda os sentimentos e as políticas de solidariedade. Que troque o atual sentimento de exclusão que prioriza as políticas tucanas pela ideia de que precisamos de uma SÃO PAULO PARA TODOS.Emir Sader.
*Oterrordonordeste
França em transe
O retorno da política
Em abril, a Europa será palco de duas importantes eleições: o primeiro
turno da eleição presidencial francesa e a eleição legislativa na
Grécia. Ambas ocorrerão sob o signo do agravamento da crise
socioeconômica na zona do euro e do esgotamento de modelos liberais de
governo.
A França, sob Nicolas Sarkozy, iniciou um dos mais impressionantes
processos, na sua história recente, de desmonte do serviço público, de
restrição orçamentária e de redução de impostos para ricos.
Sarkozy havia prometido "aumentar o poder de compra das famílias",
diminuir o desemprego por meio da flexibilização do trabalho e colocar a
economia francesa em rota de crescimento. Nada disso foi feito. Em seu
lugar, o governo francês divertia-se em expulsar ciganos e criar o
Ministério da Imigração e Identidade Nacional, enquanto inúmeros estudos
da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
demonstravam a importância da imigração como motor de sustentação da
economia europeia.
A situação política francesa parecia o pior dos mundos. Enquanto Sarkozy
e François Hollande, candidato do PS (Partido Socialista), digladiam-se
na conquista do primeiro lugar, cresce o inacreditável. O FN (Front
National), um partido xenófobo, racista, representante da pior tradição
da extrema-direita europeia, chegou à casa dos 20%. Não é difícil
compreender que, quando o medo torna-se o afeto político central, a
extrema-direita sempre capitaliza.
Mas não deixa de ser interessante um movimento político que muitos
julgavam impossível. Uma coalizão de agrupamentos de esquerda conseguiu
lançar um candidato com densidade eleitoral,
Jean-Luc Mélénchon, que chega a 10% das intenções de voto. Um partido à
esquerda do PS com dois dígitos de intenção de voto é algo que não
ocorre na França desde 1981.
Sem medo de chamar de gato a um gato e de estigmatizar as derivas
racistas e isolacionistas da extrema-direita, Mélénchon conseguiu
empurrar para a defensiva um partido que cresceu moldando impunemente a
pauta do debate político e se colocando como defensor das classes baixas
contra o "cosmopolitismo" dos burocratas de Bruxelas.
Em um impressionante debate na TV entre os dois representantes do
extremo político, a candidata do FN, Marine Le Pen, preferiu ler
ostensivamente jornais diante das câmeras a responder às acusações do
candidato da esquerda.
Isso demonstra como vale a pena relembrar uma frase visionária de Jean
Baudrillard: "Melhor morrer pelos extremos do que pelas extremidades".
Em momentos de grave crise, deixar que o discurso da ruptura seja
monopolizado pela extrema-direita é fazer prova de suicídio político.
*esquerdopata
O retorno da múmia em São Paulo
Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:
Em se tratando de processos eleitorais internos de seu partido, Serra tem uma preferência algo bizarra por só entrar na luta após humilhar seus correligionários e incendiar suas bases. Foi assim em 2010, é assim agora. Confesso que desta vez cometi um erro crasso como analista político: acreditei em Serra. Depois de ouvir inúmeras declarações peremptórias, até mesmo raivosas, de que não entraria na campanha, que era a sua palavra final, blá blá, eu acreditei que o ex-governador desta vez estava falando sério. Vivendo e aprendendo.
Em se tratando de processos eleitorais internos de seu partido, Serra tem uma preferência algo bizarra por só entrar na luta após humilhar seus correligionários e incendiar suas bases. Foi assim em 2010, é assim agora. Confesso que desta vez cometi um erro crasso como analista político: acreditei em Serra. Depois de ouvir inúmeras declarações peremptórias, até mesmo raivosas, de que não entraria na campanha, que era a sua palavra final, blá blá, eu acreditei que o ex-governador desta vez estava falando sério. Vivendo e aprendendo.
O Oscar e a infantilização do cinema
Por Andre Barcinski, no sítio da Fundação Maurício Grabois:
Nenhuma grande surpresa no Oscar. Eu apostava numa divisão dos principais prêmios da noite, mas as vitórias de “o Artista” nas categorias filme, diretor e ator não podem ser consideradas zebras.
Se 2011 não ficará marcado como uma grande safra de filmes, pelo menos será lembrado como o ano em que o abismo entre o Oscar e o público americano tornou-se intransponível. Nunca houve um descompasso tão grande entre o gosto da Academia e o gosto do público.
Nenhuma grande surpresa no Oscar. Eu apostava numa divisão dos principais prêmios da noite, mas as vitórias de “o Artista” nas categorias filme, diretor e ator não podem ser consideradas zebras.
Se 2011 não ficará marcado como uma grande safra de filmes, pelo menos será lembrado como o ano em que o abismo entre o Oscar e o público americano tornou-se intransponível. Nunca houve um descompasso tão grande entre o gosto da Academia e o gosto do público.
*Miro
Beijo gay entre soldado do exército dos EUA e namorado causa frenesi no Facebook
O beijo foi do sargento do Exército dos EUA Brandon Morgan e seu namorado Dalan Wells.Una fotografía de dos soldados del Ejército de EE.UU. dándose un beso de bienvenida a su llegada a Hawaii está causando revuelo en internet y levantado el apoyo de los simpatizantes de la neuva ley que permite el servicio a militares abiertamente homosexuales.
El sargento Brandon Morgan y su pareja Dalan Wells compartieron la fotografía de su abrazo el domingo en su clic perfil de Facebook y en la página clic Gay Marines de esa red social.
De inmediato, otros usuarios hicieron miles de comentarios, la calificaron con el botón "me gusta" y la compartieron, convirtiéndola en un fenómeno viral.
"Como un veterano gay, esa imágen me llenó los ojos de lágrimas", escribió un usuario de Facebook. "Nunca ni en mis sueños más salvajes pensé que lo vería en esta vida" [leia reportagem completa na BBC]
Enquanto isso, no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul, um soldado foi estuprado por outros quatro num quartel do Exército e ainda está sob ameaça de expulsão:
Ele era um pracinha que amava a banda Restart e usava calças coloridas como as dos ídolos, mas pro pelotão dele seu gosto é coisa gay. Durou três meses no quartel, até o estupro na frente de 14 colegas – nenhum o ajudou. IPM sob medida recomenda expulsá-lo do Exército.
Mas, para o o general Sérgio Etchegoyen, comandante da 3ª Divisão do Exército, em Santa Maria, “Houve crime, mas não foi estupro".
“O IPM foi conduzido de forma isenta pelo oficial encarregado”.*Blog do Mello
Uma versão completa do incidente já tinha sido dada pelo general em sigilo aos deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha, em sete de julho. Lá, ele disse que tudo fora “uma espécie de luta corporal de brincadeira entre os rapazes”. Etchegoyen disse ainda que apenas “constatou-se lesão leve no ânus do soldado DPK, o que por si só não comprova o alegado estupro” – falava 50 dias depois do ocorrido, antecipando em 70 o resultado do IPM.[leia reportagem completa aqui]
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*esquerdopata


