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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sábado, abril 07, 2012

Protesto expõe legista acusado de encobrir tortura durante a ditadura militar





Postes, muros e pontos de ônibus dos bairros da Vila Madalena e Pinheiros amanheceram com centenas de cartazes de protesto contra Harry Shibata, médico legista e ex-diretor do Instituto Médico Legal de São Paulo. Acusado de ser responsável por falsos atestados de óbito usados para acobertar assassinatos de opositores pela ditadura militar, ele teria ignorado marcas deixadas por sessões de tortura produzindo laudos de acordo com as necessidades dos militares. Os cartazes foram colados por um grupo de manifestantes na madrugada deste sábado (7).
Shibata é acusado de, sem ter visto o corpo, atestar como suicídio a morte de Vladimir Herzog, então diretor da TV Cultura, que fora convocado para “prestar esclarecimentos” no DOI-Codi, em em outubro de 1975. O orgão, ligado ao regime, tinha o objetivo de reprimir opositores e se transformou em um dos principais centros de tortura do país.
A morte do jornalista após sessão de tortura tornou-se um símbolo na luta contra a ditadura. E o culto ecumênico realizado em sua homenagem, em dezembro daquele ano, na Catedral da Sé, foi o primeiro grande ato da sociedade civil contra as atrocidades cometidas pelos militares.
Nos dias 31 de março e 1o de abril, manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo reuniram centenas de pessoas para lembrar o aniversário do golpe de 1964. Elas exigiram que os crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar sejam esclarecidos e os envolvidos em casos de tortura punidos por crime contra a humanidade. 
Como parte dos protestos, residências de militares acusados de envolvimento em tortura foram marcadas. Da mesma forma, parte dos cartazes fornece o endereço do médico legista, em uma rua de classe média alta.
Neste sábado, comemora-se o Dia do Médico Legista. E o Dia do Jornalista.
Fotos Leonardo Sakamoto





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  • *Nina

Mídia transformou office-boy de bicheiro em mosqueteiro da ética

 

 

Demóstenes
Paulo Nogueira
Diário do Centro do Mundo

A imprensa operou uma mágica em Demóstenes Torres: transformou rapidamente um político paroquial e inexpressivo numa personalidade nacional.
Demóstenes, para ganhar uma cobertura extraordinária de jornais e revistas, seguiu a receita clássica: falou o que os outros queriam ouvir. Basicamente, um discurso arquiconservador enfeitado por uma pregação moralista em que o governo era combatido pela ótica da corrupção.
Com isso, Demóstenes se tornou uma presença ubíqua, previsível e maçante na mídia. Ele se juntaria a um coral conservador do qual fazem parte articulistas como Merval Pereira, Ali Kamel, Marco Antonio Villa, Luiz Felipe Condé e Arnaldo Jabor. Todos eles falam, essencialmente, a mesma coisa, frases como que extraídas dos discursos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 1980. (Curioso que a nenhum deles ocorra fazer, já com a distância que vinte anos permitem, o balanço da obra que Reagan e Thatcher legaram aos Estados Unidos, ele, e ao Reino Unido, ela: declínio econômico acrescentado de uma elevação notável da desigualdade social. Cada um de seu lado do Atlântico, os dois criaram o que um economista americano chamou, num livro recente, de Nanny State ao contrário – Estados-Babás para os ricos.)
É vital que haja microfones para o pensamento conservador. Mas onde o contraponto para ajudar o leitor a formar opinião? Hoje, esse contraponto está praticamente confinado à internet no Brasil. Até por razões econômicas – o consumidor de notícias que não se sente representado é sinônimo de perda de circulação e de audiência – é imperioso para a indústria da mídia brasileira a retomada do equilíbrio perdido. O Deus Mercado, para usar uma expressão cara ao conservadorismo, demanda isso. Os leitores — eu incluído — ficarão felizes.
Demóstenes floresceu exatamente num ambiente de perda de pluralidade de idéias na mídia brasileira. Picaretas aparecem assim, porque a filtragem fica rala. Basta dizer coisas como as que Demóstenes dizia, e seu celular vai tocar, chamado por jornalistas que precisam de frases para preencher textos com idéias preestabelecidas. Das entrevistas telefônicas a convites para participar de programas na Globonews ou escrever colunas é um passo. (Numa rápida pesquisa que fiz, vi que Demóstenes tinha até uma coluna no blog de Ricardo Noblat, das Organizações Globo.)
Demóstenes pertencia claramente à categoria dos conservadores de conveniência. Espertalhões como ele sabem como atrair os holofotes, e se adaptam às circunstâncias. Se para conseguir espaço ele tivesse que adotar uma retórica de esquerda, com certeza Demóstenes andaria com um chaveiro de Marx no bolso e repetiria frases de Lenine. Homens como ele têm uma única ideologia: a do dinheiro.
Demóstenes usou a imprensa, com motivos pecuniários, para se promover. Foi usado por ela, por motivos ideológicos. E quem perdeu nisso foi o Brasil: é nociva para a democracia a crença de que todo político é corrupto. E é difícil fugir dessa conclusão ao ler a história de Demóstenes.
Há uma espécie de justiça poética no fato de que a notícia mais importante da política brasileira em muitos anos tenha nascido não da mídia — mas da Polícia Federal. Para a qual seguem aplausos de pé.
Clap, clap, clap.

*esquerdopata

Charge do Dia




Wi-fi grátis e ilimitado começa em Cumbica e outros oito aeroportos


RICARDO GALLO
DE SÃO PAULO
Desde a tarde de ontem (4), passageiros podem acessar a internet de modo gratuito e ilimitado em sete dos maiores aeroportos brasileiros.
O acesso, sem fio, foi liberado nas áreas de embarque dos aeroportos de Cumbica (Guarulhos), Congonhas, Galeão, Santos Dumont, Recife, Fortaleza e Pampulha (MG).
E a partir de hoje, deve começar também nos aeroportos de Brasília e Porto Alegre.
O serviço é oferecido pela Infraero (estatal responsável pelos aeroportos), que fez um acordo com três operadoras: em troca de publicidade, elas não cobram pela internet.
*aposentadoinvocado

convite

40 anos da Guerrilha do Araguaia

Galeano: O melhor da vida é a curiosidade, e a curiosidade nasce da ignorância do destino

No Terra Brasilis

La Ventana
“Cada vez que uma cigana se aproxima de mim para ler as mãos, peço-lhe por favor, que lhe pago para que não a leia. Não quero que me digam o que vai acontecer, o melhor que a vida tem é a curiosidade, e a curiosidade nasce da ignorância sobre nosso destino. A explosão dos indignados começou na Espanha e logo estendeu-se para outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro (intelectual brasileiro já falecido) que o mundo se divide entre os indignos e os indignados, e é preciso tomar partido, é preciso escolher”.
Por que esse título, “Los Hijos de los Dias”(1)?
Segundo os maias, nós somos filhos dos dias, o seja, o tempo é que funda o espaço. O tempo é nosso pai e nossa mãe, e sendo filhos dos dias, o mais natural é que de cada dia nasça uma história. Estamos cheios de átomos, mas também de histórias.
Dentro dessas histórias, há muitas vinculadas à nossa vida cotidiana. Você assinala: “vivemos em um mundo inseguro”. A particularidade é que sugere que existem diferentes concepções sobre a insegurança. A que você se refere?
Muitos políticos no mundo inteiro – não é algo que acontece somente em nosso país – exploram uma espécie de histeria coletiva a respeito do tema da insegurança. Te ensinam a ver o próximo como uma ameaça e te proíbem vê-lo como uma promessa; ou seja, o próximo - esse senhor e essa senhora que andam por aí – podem te roubar, violar, seqüestrar, mentir, rara vez te oferecer algo que valha a pena receber. Creio que isso faz parte de uma ditadura universal do medo. Estamos treinados para ter medo de tudo e de todos, e essa é a justificativa necessária para a estrutura militar do mundo. Este é um mundo que destina metade de seus recursos para a arte de matar o próximo. Os gastos militares - que são o nome artístico dos gastos criminais – necessitam de uma justificativa. As armas necessitam de guerra, assim como os abrigos necessitam de inverno.
Quando fala dos medos, você joga com essa palavra para assim mencionar os meios e tem uma história que é “os medos de comunicação”. Que lugar você atribui aos meios para esses medos?
Às vezes os meios atuam como “medos” de comunicação, então se transformam em “medos de incomunicação”. Isso não é verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram essa espécie de histeria coletiva desatada pelo tema da insegurança. Mentem, por que a insegurança não se reduz à insegurança que pode se sentir nas ruas. Inseguro é este mundo, e em primeiro lugar está a insegurança no trabalho, que é a mais grave de todas, e da qual os políticos que exploram o problema da insegurança nunca falam. Não há nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: “Haverá amanhã quem me compre? Voltarei ao local de trabalho onde estive? Terá alguém ocupado meu lugar?
Esse medo real de perder o emprego ou de não encontrá-lo é a fonte de insegurança mais importante. Por sua vez, inseguro é o mundo, a quantidade pessoas que matam com os carros nisso que chamamos de acidentes de trânsito, que na realidade são atos criminais por conta de motoristas que, que tirando suas licenças para dirigir, tem licença para matar, ou a insegurança da maioria das crianças que nascem no mundo condenadas a morrer muito cedo de fome ou de doenças curáveis”
Aparecem as histórias dos desaparecidos, mas menciono-lhe uma em particular, chamada de “Plano Condor”, onde a história que é contada pertence a Macarena Gelman. Como foi para você conhecer Macarena Gelman?
Comecei por conhecer o pai de Macarena, Marcelo, e o avô, Juan Gelman, com quem trabalhei na Revista Crisis, em Buenos Aires, e que é meu amigo de toda a vida. São muitos anos de amizade, ou melhor, de irmandade. Juan teve que sair da Argentina para continuar vivo, naqueles dias vividos em Buenos Aires, onde era preciso ir embora ou esconder-se. Então, eu recebia com muita frequência seu filho Marcelo, fazendo o papel de seu pai por algum tempo; depois o mataram, e a outra história é bastante conhecida.
A mulher de Marcelo, Maria Cláudia, foi seqüestrada na Argentina. Eram acusados do delito de agitar, delitos de dignidade que tem a ver com o direito estudantil de protestar. Esses eram os crimes de jovens como eles, que foram assassinados muito cedo. Maria Cláudia foi assassinada no Uruguai, onde já funcionava o mercado comum da morte, que foi o que melhor funcionou até hoje, por que o Mercosur ainda tem graves dificuldades. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas de terror, onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram Maria Cláudia grávida para o Uruguai, e aqui os militares uruguaios assumiram a responsabilidade da tarefa. Esperaram que ela parisse, ela passou seus últimos dias ou talvez seus últimos meses na sede de Boulevard Artigas y Palmar do SID (2), onde foi inaugurada a placa em memória a Maria Claudia e a todos os que estiveram lá.
Impressionou-me o contraste entre a beleza exterior desse palácio e os horrores que ele escondia. Depois dela dar à luz a mataram, e entregaram seu filho a um policial: troca de favores. A partir de uma complicada busca de Juan e seus amigos, conseguiu-se encontrá-la, e agora ela se chama Macarena Gelman. Nos tornamos muito amigos, e certa vez almoçando em casa, contou-me esta história, que é parte da história dos filhos dos dias.
É uma história muito íntima, muito privada, e lhe pedi autorização para publicá-la. É uma história incomum, mas reveladora. Conta que, quando ainda não sabia quem era e vivia na outra casa, com outro nome, nesse período sofria contínuas insônias, que não a deixavam dormir à noite por que a perseguiam sempre os mesmos pesadelos. Via alguns senhores desconhecidos, muito armados, que a buscavam no quarto onde estava dormindo, em baixo da cama, no roupeiro, em todas as partes, e ela acordava gritando e angustiadíssima.
Durante muitíssimo tempo, por toda a sua infância, teve esses pesadelos que a perseguiam e ela não sabia por quê, de onde vinham. Até que conheceu sua verdadeira história, e soube que ela estava sonhando os pesadelos que sua mãe tinha vivido enquanto a modelava em seu ventre. A mãe, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados até os dentes, que a encontraram e a mandaram ao Uruguai para morrer. Macarena estava no ventre dessa mulher acuada e perseguida. Do ventre, ela padecia a perseguição que sua mãe sofria, e depois ela sonhou isso e o transformou em seus próprios pesadelos. Ela sonhou o que sua mãe tinha vivido. É uma história que parece uma metáfora da transmissão, dos sofrimentos, dos horrores, e também de outras continuidades que não são todas horríveis.
É um livro que contém muitas histórias de mulheres. Por quê?
Também há muitas histórias de mulheres em meus livros anteriores, como Espelhos e Bocas do Tempo. Há muitas histórias dos invisíveis, e as mulheres ainda são bastante invisíveis. Há histórias de negros, de índios, das culturas ignoradas, das pessoas ignoradas que merecem ser redescobertas, por que tem algo que dizer e que vale a pena ouvir.
Neste último livro, Os filhos dos dias, há uma história que me impressionou muito, que até agora não tinha escrito ainda, que é de Juana Azurduy. Juana foi uma heroína das guerras de independência. Encabeçou a tomada do Cerro de Potosi, que estava nas mãos dos espanhóis. Ela era a caudilha de um grupo guerrilheiro que recuperou Potosi das mãos dos espanhóis. Depois continuou lutando pela independência, e perdeu seus sete filhos e o marido nessa guerra. Finalmente, foi enterrada numa fossa comum, tendo morrido na pior pobreza que se possa imaginar. Antes, tinha recebido um título militar, e foram as forças independentistas que lhe deram esse título que dizia no mérito: “à sua viril coragem”. Necessitou-se de muito tempo para que uma presidente argentina, Cristina Fernandez, lhe outorgasse o título de General por sua “feminina valentia”.
Um integrante da Real Academia Espanhola assinalou como um erro utilizar expressões que sobrecarreguem a linguagem. Era uma crítica à feminilização, como, por exemplo, se utiliza todos e todas. O que você pensa a respeito?
O transcendente é o que há por trás, ainda que por vezes, os conteúdos se reflitam nas palavras que os expressam. Me parece muito ridículo quando uma mulher se apresenta a mim e me diz “sou médico”. “É médica”, respondo-lhe.
Há muitas histórias dos povos originários, da luta pelos recursos naturais, e o rol das multinacionais. Em particular, uma história dedicada à selva amazônica..
Essa história sobre a selva amazônica lembra que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, arruinou boa parte da selva equatoriana. Foi à julgamento, mas perdeu. As vítimas desse atentado à natureza e as pessoas desse local não tinham meios econômicos, enquanto que a Texaco contava com centenas de advogados. Contudo, depois de anos, a ação foi ganha, mas ainda não foi colocada em prática por que há muitas maneiras de apelar, de jogar a bola para fora, e para isso não faltam doutores.
No livro, há um olhar crítico sobre os governos progressistas que ainda não despenalizaram o aborto..
O livro toca todos os temas sempre a partir de histórias concretas. Não é um livro teórico.
As 366 histórias não são somente latino-americanas, você recorre o mundo.
Há muitas histórias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que assinou seus escritos em tabuletas de barros. Aconteceu há quatro mil anos, e dizia que escrever era uma festa. Essa mulher é desconhecida, e vale a pena contar que essa história existiu.
A respeito da crise internacional, você resgata o que ocorreu na Islândia e o movimento dos indignados na Espanha..
Essa crise provém de um círculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Ocorreu-me, para essa história, um título sinistro que foi ”Adote um banqueirinho”. Os responsáveis pela crise são os que mais tem se queixado e os que mais dinheiro receberam. Eles têm sido recompensados por afundar o planeta. Todo esse dinheiro destinado aos que causaram o pior desastre na história da humanidade teria sido suficiente para dar de comer aos famintos do mundo, com sobremesa incluída.
Não lhe parece uma contradição a existência do movimento dos indignados e que ao mesmo tempo o Partido Popular tenha ganho na Espanha?
A aparição dos indignados é das coisas mais belas que ocorreram no mundo nos últimos tempos. Creio que o melhor da vida é a sua capacidade de surpresa. O melhor dos meus dias é o que eu ainda não vivi. Cada vez que uma cigana se aproxima de mim para ler as mãos, peço-lhe que, por favor, lhe pago para que não a leia. Não quero que me digam o que vai me acontecer, o melhor que ávida tem é a curiosidade, e a curiosidade nasce da ignorância do nosso destino. A explosão dos indignados começou na Espanha, e logo se estendeu para outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro, que o mundo se divide entre os indignos e os indignados, e que é preciso tomar partido, é preciso escolher.
Lembrei-me muito dele quando surgiu esse movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que terminaram por despojar os inocentes de seus bens. Não foram eles que concederam empréstimos impossíveis, não foram eles os culpados da bolha financeira, e desse disparate que acontece na Espanha, de construir e construir, e agora o país está cheio de moradias desabitadas e gente sem casa.
O PP ganhou as eleições, é verdade. A direita ganhou as eleições, e é preciso lutar para que isso mude. Isso que aconteceu na Espanha também fala do desprestígio das forças de esquerda que nascem na vida política prometendo mudanças radicais e depois terminam repetindo a história, em vez de mudá-la. Muita gente, sobretudo os mais jovens, se sente enganada e abandonou a política.
(1) Os filhos dos dias (N.do T.)
(2) Uma das sedes do Serviço de Informação da Defesa (SID) do Uruguai. (N. do T.)
Via Aporrea  

Tradução: Renzo Bassanetti  

Ana Maria Mizrahi
*OCarcará

A GRANDE MENTIRA. ASSISTA VÍDEO-JORNAL NACIONAL- Parece novela... da Globo

Um vídeo datado de 2002 e que está circulando na web, desmonta o chamado processo do mensalão, já que nitidamente se deduz que tudo não passou de uma armadilha para derrubar o Governo Lula.
São várias fraudes reveladas, pasmem os senhores, pelo Jornal Nacional da Rede Globo.
No vídeo, o Sub-procurador Geral da República, José Roberto Santoro, é interceptado num telefonema com Carlos Cachoeira, tentando de toda forma “convencê-lo” a entregar uma fita onde o próprio Cachoeira aparece com Valdomiro Diniz, negociando propina via LOTERJ, isso em 2002, bem antes de Lula ser eleito Presidente.
Na gravação, Santoro diz que sua iniciativa não seria aceita pelo Procurador Geral, que não ia gostar de vê-lo tentando derrubar o Governo do PT, através do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
MENTIRAS E INVERDADES
Depois da Operação Monte Carlo da Polícia Federal que revelou as estreitas relações entre o Senador Demóstenes Torres e Carlos Cachoeira, começou a se desenhar com nitidez de traços os caminhos que levaram ao suposto esquema do Mensalão.
Fica clara a motivação: vingança. Na época o José Dirceu era uma pedra no caminho das ambições políticas no Executivo Federal da oposição e, portanto, deveria ser “derrubado” pela gang Cachoeira.
Todo um enredo criminoso foi montado para formar opinião geral de que o Zé Dirceu era o cabeça de um esquema de propina a Deputados Federais para aprovar matérias de interesse do Planalto, porém, além de depoimentos duvidosos, não foi produzida nenhuma prova contra o ex-ministro da Casa Civil, nenhuma interceptação telefônica (ainda que ilegal) em que Zé Dirceu aparecesse como um chefe de quadrilha. Não há nenhum bilhete, rabisco, papel amassado, gravação telefônica ou vídeo que flagrasse o ex-ministro entregando dinheiro a alguém ou negociando propina de qualquer natureza e ainda assim, ele foi acusado, denunciado, processado e cassado.
O julgamento do “mensalão” deve ocorrer nos próximos dias no Supremo e são várias as perguntas que não se pode calar:
1 – O que é mais forte? Um esquema criminoso que destrói vidas e carreiras públicas em nome do “negócio” ilícito, ou a soberania das instituições democráticas?
2 – Diante das últimas revelações, qual será a posição da Corte Suprema? Não há provas, apenas a palavra de Roberto Jefferson, justiça será feita?
3 – José Dirceu já sofreu um julgamento político e foi condenado à pena máxima, a cassação de seu mandato. Vamos assistir a outro julgamento político, ou o Supremo vestirá a toga da técnica jurídica para em definitivo fazer justiça?
Estas e outras perguntas em breve terão resposta. A sociedade brasileira espera que a verdade seja restabelecida. Estamos de olho.
 Lili Abreu
VÍDEO
PAINT -  RECORTES

Quem poderá defendê-los?

Estandarte da hipocrisia

udnO senador Demóstenes Torres é uma figura mais emblemática do que ele próprio imagina. Essa derrocada que sofreu, após assumir o papel de guardião da moral pública, tem sido típica da oposição conservadora há mais de meio século.
Caso houvesse um lema na bandeira desses oposicionistas – sem dúvida representada pelo lábaro udenista (foto) – ele seria composto de duas palavras: “Moralidade e Legalidade”, e poderia ser apelidado imediatamente de “Estandarte da Hipocrisia”.
Esse espírito da UDN, hipocritamente moralista e legalista, assombra a democracia brasileira desde a fundação, em abril de 1945. Na esteira da participação militar do País na Segunda Guerra Mundial, os udenistas encarnaram o papel de principal oposição ao Estado Novo. Muita gente, à esquerda e à direita, foi presa e sofreu no cárcere. Não se sabe, no entanto, de nenhum udenista preso ou torturado durante o regime varguista.
No DNA da UDN, além de uma ideologia que varia do conservadorismo ao reacionarismo golpista, consta também a célula de rejeição ao que de melhor fez o ex-presidente Getúlio Vargas. A construção das bases do moderno Estado Nacional e das regras de proteção aos trabalhadores.
Principalmente por essas decisões Vargas pagou com o suicídio, em 1954, quando o arauto da oposição era Carlos Lacerda. Ele segurou o estandarte da moralidade quando criou a expressão “Mar de Lama”, que supostamente corria sob o Palácio do Catete. Nada provado, mas perfeitamente executado e ampliado pelas trombetas da mídia.
Na eleição de 1950, Vargas deu uma surra eleitoral no udenista Eduardo Gomes, um brigadeiro identificado como reserva moral do País. Gomes já tinha perdido, em 1945, para o candidato Eurico Gaspar Dutra, apoiado por Getúlio. Em 1955, a UDN empurrou para o páreo o marechal Juarez Távora. Ele perdeu para Juscelino Kubitschek, que tinha como vice o getulista João Goulart.
A UDN tentou ganhar no tapetão. Renomadas figuras do partido, como Afonso Arinos, tentaram um golpe branco com o argumento, não previsto na legislação, de que JK não havia conquistado a maioria absoluta de votos. Não deu certo.
Em 1960, os udenistas ganharam a eleição presidencial na garupa da vassoura do tresloucado Jânio Quadros. Ele renunciou após sete meses, mas levou a faixa presidencial na esperança de voltar ao poder com o apoio dos militares. Prevaleceu, no entanto, a resistência democrática, comandada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul. A esquerda saiu fortalecida do episódio e com a bandeira da legalidade nas mãos.
O udenismo chegou ao poder em 1964. Dessa vez a reboque dos militares, com a deposição de João Goulart. Por uma sucessão de erros políticos do presidente, e com uma parte da esquerda alimentando-se de fantasias revolucionárias, entregou de mão beijada aos golpistas o discurso da legalidade. Era falsa. A legalidade udenista abriu caminho para uma ditadura que durou 21 anos.
O mote da ética levou o espírito udenista, encarnado pelo ex-presidente Fernando Henrique, a propor o impeachment inicialmente e, posteriormente, a renúncia à reeleição ao ex-presidente Lula. Não levaram.
Os conservadores de agora, com o processo democrático fortalecido, sem o discurso da legalidade, acabam de perder a bandeira da moralidade sustentada pela hipocrisia de Demóstenes Torres. Com que bandeira eles vão à luta eleitoral?
Por: Mauricio Dias, no CartaCapital
*Ocarcará 
 

Em 2009 Demóstenes foi celebrado em capa de revista

Por Adamastor
Re: Fora de Pauta
 

Protesto de Anita Leocádia Prestes ao Senador Inácio Arruda

Rio de Janeiro, 4 de abril de 2012
Exmo. Sr. Senador Inácio Arruda.
Senado Federal - Brasília
Na qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e de sua colaboradora política durante mais de trinta anos, devo declarar minha repulsa e indignação com a proposta de sua autoria de que seja declarada nula a decisão do Senado que cassou, em 1948, o mandato do senador Luiz Carlos Prestes. Meu pai jamais aceitaria semelhante medida individualmente, isolada, sem que as centenas de parlamentares comunistas cassados (deputados federais, deputados estaduais e vereadores) juntamente com ele tivessem também devolvidos seus legítimos direitos constitucionais. Todos que o conheceram sabem o quanto Prestes, nesse sentido, era intransigente.
Na realidade, a proposta encaminhada ao Senado Federal por um representante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) revela, mais uma vez, algo que Prestes denunciou incessantemente durante os seus últimos dez anos vida: o reformismo desse partido, sua adesão aos interesses das classes dominantes do País, seu compromisso espúrio com o Governo Sarney, nos anos 1980, compromisso confirmado no texto da mensagem ora encaminhada à apreciação do Senado. Luiz Carlos Prestes sempre deixou claro que a legalidade dos comunistas deveria ser conquistada nas ruas, pelo povo, e não através de conchavos de bastidores, como aconteceu, no caso do PCdoB, em 1985. Prestes também não aceitaria a anulação da cassação do seu mandato de senador através de manobra do PCdoB, cujo objetivo evidente é tirar proveito político do inegável prestígio do Cavaleiro da Esperança.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes
Com a presença de Antonio Carlos Mazzeo, Luís Bernardo Pericás, Lincoln Secco e Milton Pinheiro
No Diário do Cezar Miranda
*comtextolivre