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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
domingo, julho 15, 2012
MPE-SP é alvo de zombaria - Serra contesta impugnação e diz que sua candidatura está regular
| Serra é mais um mal político que caiu na malha fina da justiça e arde inconformado no inferno astral dos fichas sujas |
Candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra afirmou neste
sábado não estar preocupado com a impugnação de sua candidatura pelo
Ministério Público Eleitoral. O tucano negou irregularidades no seu
registro.
O promotor Roberto Senise, integrante do grupo que analisou os pedidos de candidatura, informou ontem que Serra não havia apresentado certidões com a situação atual dos processos a que responde.
'O Ministério Público não sabe o que faz', diz Russomanno
Ministério Público contesta na Justiça candidaturas de Serra e Russomanno
O promotor Roberto Senise, integrante do grupo que analisou os pedidos de candidatura, informou ontem que Serra não havia apresentado certidões com a situação atual dos processos a que responde.
'O Ministério Público não sabe o que faz', diz Russomanno
Ministério Público contesta na Justiça candidaturas de Serra e Russomanno
| Reinaldo Canato/Folhapress | ||
Segundo Serra, a certidão que a Promotoria diz faltar está entre os
documentos entregues. "Está entre a papelada. É só examinar que não tem
problema nenhum", disse. "É só checar os documentos."
Ele afirmou que a certidão completa é do STJ (Superior Tribunal de Justiça), não do TJ.
Além da de Serra, ontem, a Promotoria também impugnou a candidatura de Celso Russomanno (PRB).
As contestações serão analisadas pela Justiça Eleitoral, após os esclarecimentos dos candidatos. A decisão tem de sair até 5 de agosto.
DE BICICLETA
Tanto Serra como Gabriel Chalita (candidato do PMDB à prefeitura)
marcaram agendas de campanha ontem para andar de bicicleta acenando
para cicloativistas que pedem melhorias para esses veículos.
Chalita circulou pela região central. Já Serra percorreu de bicicleta um trecho entre as estações de metrô Corinthians-Itaquera e Artur Alvim.
Ele afirmou que a certidão completa é do STJ (Superior Tribunal de Justiça), não do TJ.
Além da de Serra, ontem, a Promotoria também impugnou a candidatura de Celso Russomanno (PRB).
As contestações serão analisadas pela Justiça Eleitoral, após os esclarecimentos dos candidatos. A decisão tem de sair até 5 de agosto.
DE BICICLETA
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| Segundo os promotores, o candidato Serra por estar com a ficha pra lá de suja, não pode concorrer. |
Chalita circulou pela região central. Já Serra percorreu de bicicleta um trecho entre as estações de metrô Corinthians-Itaquera e Artur Alvim.
*MiliotânciaViva
Criada à direita, Aliança do Pacífico rivaliza com o ‘esquerdista’ Mercosul
Via Carta Capital
Gabriel Bonis
Novo bloco quer integrar a América Latina com bases liberais e sem burocracias do Mercosul. Foto: Hamner_Fotos/Flickr
Há
cerca de um mês, a criação de um bloco de integração na América Latina
passou quase despercebida no Brasil, mas aparentemente não entre os
líderes do Mercosul. A entrada da Venezuela no mercado sul-americano é
apontada como uma reação à Aliança do Pacífico. Formado por Chile, Peru,
Colômbia e México, o acordo prevê a integração das economias dos países
do oceano Pacífico para que seus integrantes enfrentem a concorrência
asiática e se transformem no motor do crescimento latinoamericano. Uma
proposta que imporá desafios ao projeto de expansão do Mercosul, como a
solução de problemas internos de seus membros, mas sem inicialmente
ameaça-lo.
A Aliança do Pacífico aposta na
diversificação de suas relações comerciais para conter o avanço chinês
na região, ao mesmo tempo que aproveita os benefícios da demanda
asiática por commodities. Todo esse fluxo de comércio comporia
uma área de livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas, em
um projeto semelhante ao Mercosul. A principal diferença apontada pelos
líderes dos países do novo bloco, no entanto, seria a busca por uma
integração rápida. Algo que tornaria o mecanismo mais atraente, embora
ele já seja visto como a iniciativa “mais importante” e ambiciosa da
região pelo economista Roberto Teixeira da Costa, presidente da Câmara
de Arbitragem da Bolsa de Valores de São Paulo. Para ele, o plano acerta
ao explorar a ligação com Pacífico, que coloca o bloco na rota
preferida das Américas com a Ásia, logo, em vantagem ao Mercosul na
concorrência pelo mercado asiático.
O novo
bloco, que reúne 40% do PIB da América Latina, 55% de todas suas
exportações e um mercado de 206 milhões de consumidores, possui planos
ambiciosos na relação entre seus membros. O projeto foca na consolidação
de novos investimentos, principalmente em uma maior integração
energética e de infraestrutura, e mais comércio intrarregional (com
colaboração alfandegária). A Colômbia seria o referencial para as
exportações da produção geral, por possuir tratados de livre comércio
com EUA, Canadá e China, por exemplo. Um fator que pode levar esses
itens aos mercados citados em melhores condições de preço que os do
Mercosul.
A Aliança também ataca à burocracia,
apresentando o Mercado Comum Sul-americano como um exemplo a ser
ignorado. O grupo pretende avançar de forma mais rápida sem impedimentos
ideológicos em temas comerciais e de integração, abominando itens como
barreiras protecionistas. O discurso é totalmente liberalizante, seja
nas tarifas, comércio eletrônico, cooperação aduaneira ou investimentos.
E mostra também uma divisão ideológica entre os governos dos países da
América do Sul. Enquanto o Mercosul vive um momento de líderes de
esquerda – com a exceção do Paraguai após a deposição de Fernando Lugo
-, a Aliança do Pacífico reúne os países mais neoliberais da América
Latina. A exceção fica com o presidente do Peru, Ollanta Humala, da
esquerda. Mas o mandatário está preso ao bloco, proposto pelo
ex-presidente Alan García, que conduziu reformas liberais no país
andino.
O projeto pretende ter grande
envergadura regional e abocanhar novos membros. Um discurso que começa a
rivalizar com os planos de integração do Mercosul. O novo ministro da
Fazenda do Paraguai declarou na última semana que a suspensão do país do
mercado comum sul-americano empurra o governo paraguaio a buscar
alianças com outros países e blocos, que incluem os EUA e países da
Aliança do Pacífico. Mas para Giorgio Romano Schutte, coordenador do
curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC),
essa ameaça poderia ser contornada com os países de ambos os blocos
realizando acordos econômicos mais flexíveis por meio da Unasul (União
de Nações Sul-Americanas), embora sempre em alerta ao eventual avanço da
Aliança. “Se a AP entrar na América do Sul, seria um cenário que a
diplomacia brasileira deve atuar.”
Apesar dessa
pressão, o Mercosul não deve sentir-se ameaçado. Alguns elementos da
formação da Aliança indicam possíveis dificuldades de integração dos
países do novo bloco. Entre eles, a heterogeneidade dos interesses
comerciais de seus integrantes. Tullo Vigevani, professor da
Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em Mercosul,
destaca que o fato de México, Colômbia, Chile e Peru estarem ligados por
tratados de área de livre comércio com os EUA coloca a possibilidade de
uma integração regional e produtiva, como se pretende no Mercosul,
difícil de se deslumbrar. Até porque os países da aliança também possuem
acordos com o Mercosul.
Para o analista, o
Mercosul tem mais chances de seguir consolidar uma integração regional.
Isso dependeria, no entanto, de uma solução por parte dos governos dos
países do bloco para suas dificuldades regionais e de desenvolvimento
interno, que tendem a sinalizar com medidas protecionistas. “Isso não é
bom para uma integração, a não ser que se pensasse em um regional
desenvolvimentismo.”
*GilsonSampaio
Máfia midiática retalia Collor por acusações na CPMI Veja-Cachoeira
Gilson Sampaio
Pra
quem não se lembra a Globo ‘elegeu’ Collor em 1989. A edição manipulada
do último debate entre Lula e Collor teve peso decisivo no resultado a
favor do seu ‘escollhido’ e esse é um fato verídico incorporado
naturalmente à nossa história sem a devida criminalização.
A
mim não restam dúvidas de que a matéria a ser exibida com estardalhaço
no Fantástico sobre Collor não passa de retaliação da máfia midiática às
acusações que o senador fez na CPMI-Veja-Cachoeira.
Antes
que em acusem de defender o corrupto Collor essa postagem denuncia o
poder sem limites da mídia corrupta à falta de um instituto de
regulação dos meios de comunicação.
Noam Chomsky: Plutonomía e precários: O declive da economia estadunidense
Via O Diário.info
Noam Chomsky*

Estamos a viver uma autêntica regressão para tempos muito negros. Se se pensa que isto está a passar-se no país mais poderoso e rico da história, a catástrofe parece inevitável. Há que fazer alguma coisa, e fazê-lo rapidamente, com dedicação e de forma sustentável. Não será simples. Haverá, seguramente, obstáculos, dificuldades e fracassos. Mais: se o espírito surgido o ano passado, aqui e noutros rincões do mundo, não cresce e não consegue converter-se numa força de peso no mundo social e político, as possibilidades de um futuro digno não serão muito grandes.
O
movimento «Ocupemos» teve um desenvolvimento estimulante. Até onde a
minha memória alcança, não houve nunca nada parecido. Consegue reforçar
as suas ligações e as associações que se criaram nestes meses poderão
protagonizar, ao longo do obscuro período que se avizinha – não haverá
uma vitória rápida –, um momento decisivo na história dos Estados
Unidos.
A singularidade deste movimento não
deveria surpreender. Ao cabo e ao resto, vivemos uma época inédita, que
arranca em 1970 e que marcou um autêntico ponto de inflexão na história
dos Estados Unidos. Durante séculos, desde o seu começo como país, os
EUA foram sempre uma sociedade em desenvolvimento. Se o foram sempre na
direcção certa é outra história. Mas em termos gerais, o progresso
pressupôs riqueza, industrialização, desenvolvimento e esperança.
Existia uma expectativa mais ou menos larga de que continuaria sempre
assim. E continuou, inclusive nos tempos mais negros.
Tenho
idade suficiente para recordar a Grande Depressão. Em meados dos anos
30 a situação era objectivamente mais dura que a actual. O ânimo, no
entanto, era outro. Havia a sensação generalizada de que sairíamos em
frente. Mesmo as pessoas sem emprego, entre os quais se contavam alguns
parentes meus, pensavam que as coisas melhorariam. Existia um movimento
sindical militante, especialmente no âmbito do Congresso de Organizações
Industriais. E começaram a acontecer greves com ocupação de fábricas
que aterrorizavam o mundo empresarial – basta consultar a imprensa da
época. Uma ocupação, de facto, é o passo prévio à autogestão das
empresas. Um tema, diga-se de passagem, que está bastante presente na
agenda actual. Apesar dos tempos serem duros havia uma sensação, como
dizia acima, de que se acabaria por «sair da crise». Hoje as coisas são
diferentes. Entre boa parte da população dos Estados Unidos reina uma
forte falta de esperança que por vezes se converte em desespero. Esta
realidade é muito nova na história norte-americana. E tem, desde logo,
uma base objectiva.
A classe trabalhadora
Nos
anos 30 do século passado os trabalhadores desempregados podiam pensar
em recuperar os seus postos de trabalho. Actualmente, com um nível de
desemprego semelhante ao existente durante a Grande Depressão, é
improvável, se a tendência persistir, que um trabalhador manufactureiro
recupere o seu posto de trabalho. A mudança teve lugar por volta de 1970
e obedece a muitas razões. Um factor chave, bem analisado pelo
historiador económico Robert Brenner, foi a queda da taxa de lucro no
sector manucfatureiro. Mas houve outros. Por exemplo a reversão de
vários séculos de industrialização e desenvolvimento. Naturalmente, a
produção de manufacturas continuou do outro lado do oceano, mas em
prejuízo, e não em benefício, dos trabalhadores. Juntamente com estas
mudanças deu-se uma significativa deslocação da economia de produção –
de coisas que as pessoas necessitavam ou podiam usar – para a
manipulação financeira. Foi pois, na verdade, quando a financeirização
da economia se começou a estender.
Os bancos
Antes
de 1970 os bancos eram bancos. Faziam o que se espera que um banco faça
numa economia capitalista: pegar em fundos de uma conta bancária, por
exemplo, e dar-lhes uma finalidade potencialmente útil como ajudar uma
família a comprar a sua casa ou a mandar um filho à escola. Isto mudou
de forma dramática nos anos setenta. Até então, e desde a Grande
Depressão, não tinha havido crises financeiras. Os anos cinquenta e
sessenta foram um período de grande crescimento, o mais alto da história
dos Estados Unidos e possivelmente da história económica. E foi
igualitário. À parte mais baixa da sociedade também a coisa lhe correu
bem. Muitas pessoas tiveram acesso a formas de vida mais razoáveis – de
«classe média», como se dizia aqui, de «classe trabalhadora», noutros
países. Os anos sessenta aceleraram o processo. Depois de uma década um
pouco sombria, o activismo daqueles anos civilizou o país, muitas vezes
de forma duradoura. Com a chegada dos anos setenta deram-se uma série de
mudanças abruptas e profundas: a desindustrialização, a deslocalização
da produção e um maior protagonismo das instituições financeiras, que
cresceram enormemente. Entre os anos cinquenta e sessenta verificou-se
um forte desenvolvimento do que décadas depois se conheceria como a
economia de alta tecnologia: computadores, internet e revolução das
tecnologias da informação, que se desenvolveram substancialmente no
sector estatal. Estas mudanças geraram um círculo vicioso. Conduziram a
uma crescente concentração da riqueza nas mãos do sector financeiro, mas
não beneficiaram a economia (antes a prejudicaram, tal como à
sociedade).
Política e dinheiro
A
concentração da riqueza trouxe consigo uma maior concentração do poder
político. E a concentração do poder político deu lugar a uma legislação
que intensificaria e aceleraria o ciclo. Esta legislação, no essencial
da responsabilidade dos dois partidos, comportou a introdução de novas
políticas fiscais, e medidas desreguladoras do governo das empresas.
Juntamente com este processo, deu-se um importante aumento do custo das
eleições, o que ainda tornou os partidos políticos mais dependentes dos
bolsos do sector empresarial.
Na realidade, os
partidos começaram a degradar-se por diferentes vias. Se uma pessoa
aspirava a um lugar no Congresso, como a presidência de uma comissão,
por exemplo, o normal era que o obtivesse a partir da sua experiência e
capacidade pessoal. Apenas num par de anos depois, tiveram que começar a
contribuir para os fundos do partido para o conseguir, um tema que foi
bem estudado por várias pessoas, entre as quais Tom Ferguson. Como dizia
acima, isto aumentou a dependência dos partidos do sector empresarial,
sobretudo do sector financeiro.
Este ciclo
acabou com uma imensa concentração da riqueza, basicamente nas mãos do
1% mais rico da população. Entretanto, abriu-se um período de estagnação
e inclusive de decadência da maioria das pessoas. Alguns continuaram a
subir, mas através de meios artificiais como o alargamento da jornada de
trabalho, o recurso ao crédito e ao sobre-endividamento ou a aposta em
investimentos especulativos como as que levaram à recente bolha
imobiliária. Rapidamente, a jornada de trabalho acabou por ser mais
longa nos Estados Unidos que em países industrializados como o Japão e
outros na Europa. O que se verificou, definitivamente, foi um período de
estagnação e uma queda para a maioria, simultaneamente com uma forte
concentração da riqueza. O sistema político começou assim a
dissolver-se.
Sempre existiu uma brecha a
separar a política institucional da vontade popular. Agora, no entanto,
ela cresceu de forma astronómica. Não é difícil verificá-lo. Basta ver o
que está a acontecer com o grande tema que preocupa Washington: o deficit. O grande público pensa, e com razão, que o deficit
não é o problema principal. E na verdade não é. A questão importante é a
falta de emprego. No entanto há uma comissão para o deficit mas não há
para a falta de emprego. No que respeita ao deficit o grande
público tem a sua posição. As sondagens testemunham-no. De forma clara,
as pessoas apoiam uma maior pressão fiscal sobre os ricos, a reversão da
tendência regressiva destes anos e a preservação de certas prestações
sociais. As conclusões da comissão sobre o deficit seguramente
dirão o contrário. O movimento de ocupação poderá proporcionar uma base
material para neutralizar este punhal apontado ao coração do país.
Plutonomia e precários
Para
o grosso da população – 99% segundo o movimento Ocupemos – estes tempos
tem sido particularmente duros, e a situação poderá ainda piorar. De
facto, poderemos assistir a um declive irreversível. Para 1% - e
inclusive menos, 0,1% - tudo vai bem. Estão mais ricos que nunca, mais
poderosos que nunca e controlam o sistema político, de costas voltadas
para a maioria. Se ninguém o impede por que não continuar assim?
Peguemos
no caso do Citigroup. Durante décadas foi um dos bancos de investimento
mais corruptos. Apesar disso foi resgatado, uma e outra vez, com o
dinheiro dos contribuintes. Primeiro Reagan e agora uma vez mais. Não
insistirei no tema da corrupção, mas ele é bastante alucinante. Em 2005 o
Citigroup imprimiu uns folhetos com o título: «Plutonomia: comprar
luxo, explicar os desequilíbrios globais». Os folhetos incitavam os
investidores a colocar o dinheiro num «índice de plutonomia». «O mundo –
anunciavam – está a dividir-se em dois blocos: a plutonomia e o resto».
A
noção de plutonomia apela aos ricos, aos que compram bens de luxo e
tudo o que isto implica. Os folhetos sugeriam que a inclusão no «índice
de plutonomia» contribuiria para melhorar os rendimentos dos mercados
financeiros. O resto podia ser inoportuno. Não importava. Na realidade,
não eram necessários. Estavam ali para sustentar um Estado poderoso, que
resgataria os ricos no caso de se meterem em problemas. Agora, estes
sectores costumam chamar-se «precários» - pessoas que vivem uma
existência precária na periferia da sociedade. Só que cada vez é menos
periférica. Está a tornar-se uma parte substancial da sociedade
norte-americana e do mundo. E os ricos não vêem mal nisso.
Por
exemplo, o ex-presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, chegou a
ir ao Congresso durante um mandato de Clinton explicar as maravilhas do
modelo económico que tinha a honra de supervisionar. Foi pouco antes de
rebentar o crack em que ele teve claríssima responsabilidade. E
ainda lhe chamavam São Alan e os economistas profissionais não
duvidaram em descrevê-lo como um dos maiores. Para mim, grande parte do
êxito económico tinha que ver com a «crescente insegurança laboral». Se
os trabalhadores necessitam de segurança, se fazem parte dos precários,
se vivem vidas precárias, renunciarão as suas necessidades. Não tentarão
conseguir melhores salários ou melhores prestações sociais.
Tornar-se-ão supérfluos e será fácil livrarem-se deles. Isto é,
tecnicamente falando, o que Greenspan chamava uma economia «saudável». E
era elogiado e muito admirado por isso.
A
situação está assim: o mundo está-se a dividir em plutonomia e precários
o 1 e os 99 por cento, na imagem propagada pelo movimento Ocupemos. Não
se trata de números exactos, mas a imagem é correcta. Agora é a
plutonomia que tem a iniciativa e poderá continuar assim. Se ocorrer a
regressão histórica que teve início nos anos setenta do século passado
poderá tornar-se irreversível. Tudo indica que vamos nessa direcção. O
movimento Ocupemos é a primeira e a maior reacção popular a esta
ofensiva. Poderá neutralizá-la. Mas para isso é mester assumir que a
luta será longa e difícil. Não se obterão vitórias da noite para o dia. É
preciso criar estruturas novas, sustentáveis, que ajudem a atravessar
estes tempos difíceis e a obter triunfos maiores. Há um sem número de
coisas que, de facto poderão fazer-se.
Por um movimento de ocupação dos trabalhadores
Já
o mencionei antes. Nos anos trinta do século passado as greves com
ocupação dos locais de trabalho eram uma das acções mais efectivas do
movimento operário. A razão era simples: tratava-se do passo prévio à
tomada das fábricas. Nos anos setenta, quando o novo clima de
contra-reforma começava a instalar-se, ainda se passavam coisas
importantes. Em 1977, por exemplo, a empresa US Steel decidiu
fechar uma das suas sucursais em Youngstown, Ohio. Em vez de
simplesmente se irem embora, os trabalhadores e a comunidade propuseram
unir-se e comprar a empresa aos proprietários para depois a converter
numa empresa autogerida. Não ganharam. Mas a terem conseguido o apoio
popular suficiente, provavelmente tê-lo-iam conseguido. Gar Alperovitz e
Staufhton Lynd, os advogados dos trabalhadores, analisaram
detalhadamente esta questão. Tratou-se, em suma, de uma vitória parcial.
Perderam mas geraram outras iniciativas. Isto explica que hoje, ao
longo de Ohio e de muitos outros locais, tenham surgido centenas, talvez
milhares de empresas de propriedade comunitária, nem sempre pequenas,
que poderão converter-se em empresas autogeridas. E esta sim é uma boa
base para uma revolução real.
Uma coisa
semelhante se passou na periferia de Boston há aproximadamente um ano.
Uma multinacional decidiu encerrar uma instalação rentável que produzia
mercadorias de alta tecnologia. Evidentemente, para eles não era
suficientemente rentável. Os trabalhadores e os sindicatos propuseram-se
comprá-la e geri-la eles próprios. A multinacional recusou,
provavelmente por consciência de classe. Creio que não acham graça
nenhuma a que estas coisas aconteçam. Se tivesse havido apoio popular
suficiente, semelhante ao actual movimento de ocupação das ruas,
possivelmente teriam tido êxito.
E não é o único
processo deste tipo que está a acontecer. De facto, deram-se alguns com
uma entidade maior. Não há muito tempo, o presidente Barack Obama tomou
o controlo estatal da indústria automóvel, propriedade que basicamente
estava nas mãos de uma miríade de accionistas. Tinha várias
possibilidades. Mas escolheu esta: recuperá-la com o objectivo de a
devolver aos seus donos, ou a um tipo de propriedade idêntico que
mantivesse o seu status tradicional. Outra possibilidade era entregá-la
aos trabalhadores, estabelecendo as bases de um sistema industrial
autogerido que produzisse bens necessários para as pessoas. São muitas,
de facto, os bens que precisamos. Todos sabem ou deveriam saber que os
Estados Unidos têm um enorme atraso em matéria de transportes de alta
velocidade. É uma questão séria, que não só afecta a maneira como nós
vivemos, mas também a economia. Tenho uma estória pessoal a propósito
disso. Há uns meses, tive que proferir uma série de palestras em França.
Tinha de tomar um comboio de Avignon, no sul, até ao aeroporto Charles
de Gaulle, em Paris. A distância é a mesma entre Washington DC e Boston.
Demorei duas horas. Não sei se já tomaram o comboio que liga Washington
a Boston. Anda à mesma velocidade de há sessenta anos, quando a minha
mulher e eu o tomámos pela primeira vez. É um escândalo.
Não
há nada que impeça de se fazer nos Estados Unidos o que se faz na
Europa. Existe capacidade e força de trabalho qualificada. Faria falta
um pouco mais de apoio popular, mas o impacte na economia seria notável.
O assunto, no entanto, é ainda mais surrealista. Na altura em que se
descartou esta opção, a administração Obama enviou o seu secretário dos
transportes a Espanha para conseguir ver a possibilidade de comprar
comboios de alta velocidade. Isto poderia ter-se feito na cintura
industrial do norte dos Estados Unidos, mas a empresa foi desmantelada.
Não são pois razões económicas as que impedem o desenvolvimento de um
sistema ferroviário robusto. São razões de classe que reflectem a
debilidade da mobilização popular.
Alteração climática e armas nucleares
Até
aqui limitei-me a questões domésticas, mas há dois desenvolvimentos
perigosos de âmbito internacional, uma espécie de sombra negra que paira
sobre toda a análise. Pela primeira vez na história da humanidade há
ameaças reais à sobrevivência das espécies.
Uma
delas anda à nossa volta desde 1945. É uma espécie de milagre têrmo-la
fintado. É a ameaça da guerra nuclear, das armas nucleares. Ainda que
não se fale muito disso, esta ameaça não deixou de crescer com o actual
governo e os seus aliados. E há que fazer alguma coisa antes que
tenhamos problemas sérios.
A outra ameaça,
naturalmente, é a catástrofe ambiental. Praticamente todos os países do
mundo estão a tentar fazer alguma coisa sobre isto, ainda que de forma
muito vacilante. Os Estados Unidos também estão a fazer, mas para
acelerar a ameaça. São o único dos grandes que não fez nada de
constructivo para proteger o meio ambiente, nem sequer deram ainda o
primeiro passo. Mais, de alguma forma estão a fazer força ao contrário.
Tudo isto está ligado à existência de um gigantesco sistema de
propaganda, que o mundo dos negócios desenvolve com orgulho e
desfaçatez, com o objectivo de convencer as pessoas que a mudança
climática é uma patranha dos progressistas. «Por que razão fazer caso
destes cientistas?»
Estamos a viver uma
autêntica regressão para tempos muito negros. E não o digo por graça. De
facto, se se pensa que isto está a passar-se no país mais poderoso e
rico da história, a catástrofe parece inevitável. Numa geração ou duas,
qualquer outra coisa de que falemos não terá importância. Há que fazer
alguma coisa, e fazê-lo rapidamente, com dedicação e de forma
sustentável. Não será simples. Haverá, seguramente, obstáculos,
dificuldades e fracassos. Mais: se o espírito surgido o ano passado,
aqui e noutros rincões do mundo, não cresce e não consegue converter-se
numa força de peso no mundo social e político, as possibilidades de um
futuro digno não serão muito grandes.
* Noam Chomsky é professor de linguística do MIT (Massachusetts Institute of Technology).
Este texto foi publicado em www.sinpermiso.info/
Tradução de José Paulo Gascão
*GilsonSampaio
Dia do Homem
O fotógrafo Herb Ritts, morto em 2002, foi considerado um dos
fotógrafos mais importantes a surgir na década de 1980. Revolucionou a
fotografia de moda, modernizou o nu, e transformou celebridades em
ícones. Atualmente há uma exposição em curso no Getty Center e outras já
agendadas.

Man with Chain, Los Angeles, 1985, Herb Ritts, gelatin silver print. © Herb Ritts
*nassif

Man with Chain, Los Angeles, 1985, Herb Ritts, gelatin silver print. © Herb Ritts
*nassif
Classe Média precisa se politizar
Por Marco Antonio L.
Classe média, que significa?
Claudio Bernabucci, Na Carta Capital
O compromisso silencioso entre o operário eleito presidente da República e a chamada elite brasileira – criar um mercado interno significativo e promover o crescimento de uma nova classe média – representa a autêntica obra-prima deste líder político indiscutível. Há quem diga que tal compromisso tenha premiado mais os ricos do que os pobres. Fato é que o processo desencadeado por Lula abriu uma dinâmica socioeconômica de baixo para cima que parece irresistível e, talvez, irreversível.
Desde então, fala-se e escreve-se muito no Brasil sobre classe média. A meu ver – salvo raras exceções – em termos ainda inadequados ou instrumentais.
Não importa aqui analisar a questão de um ponto de vista sociológico ou estatístico, nem rodar a faca da polêmica em torno da medida governamental que estabelece ex-púlpito – a partir de maio 2012 – que a classe média no Brasil é formada por pessoas com renda per capita entre 291 reais e 1.019 reais. O que nos interessa é focalizar a urgência de um debate amplo e de maior conteúdo. Para esse fim, o método comparativo poderia ser útil. Não para copiar modelos alheios, mas para, eventualmente, identificar um modelo original de classe média à brasileira, que faça tesouro das experiências já realizadas em outros países. Infelizmente, não observo nada disso. Ao contrário, me parece que se fala desta nova realidade de maneira distorcida: para exaltá-la em tom de propaganda ou para atraí-la em perspectiva eleitoral.
Aprofundar hoje no Brasil um debate sobre classe média equivale a abrir uma reflexão sobre o País que queremos. Na atual fase de decadência mundial da democracia, quando a política vai atrás da realidade para depois definir as próprias escolhas, o Brasil poderia ter a ambição de inverter o rumo: identificar o caminho a ser percorrido para depois aplicar políticas consequentes, evitando assim submeter-se às dinâmicas ditadas pelos “mercados”.
É verdade que no Brasil também a economia e a finança detêm a hegemonia sobre a política, mas – diferentemente do resto dos países democráticos – as escolhas iluminadas dos últimos tempos construíram uma solidez financeira pública que permitiria à política espaço de manobra mais amplo do que em outras latitudes.
Navegador seguro é o que conhece os mapas e depois decide a rota. No início da longa tempestade econômica que se vislumbra no horizonte, seria sábio estabelecer tal rota com a participação da tripulação, para poder chamá-la a dar o melhor de si nos momentos difíceis que inevitavelmente virão. Mas essa classe trabalhadora ampliada, agora chamada de classe média, não conhece suficientemente a arte de navegar: sua despolitização é patente. Além disso, ela não tem sido adequadamente informada pelo comandante do navio sobre os mares a serem navegados: o Estado não vem oferecendo a necessária educação.
Abre-se então a discussão sobre os (diferentes) papéis da política e do Estado na construção do Brasil futuro. Resulta evidente como a responsabilidade de governo tenha inibido a plena mobilização do PT, do sindicato e das associações aliadas. O que é mais grave, há sintomas de que esta renúncia pode ter-se transformado em perda de efetiva participação social, fundamental alimento de sustentação das organizações progressistas. Os adeptos do neoliberalismo podem facilmente abrir mão desses fatores; as forças de esquerda não, pena a perda de identidade (e segura derrota eleitoral).
Na Europa do pensamento único das décadas passadas, caracterizado pelo consenso neoliberal, os partidos progressistas perderam o senso da própria missão, e suas diferenças em relação aos adversários pareceram ser quase inexistentes. No cidadão fixou-se a convicção de que “são todos iguais”. Resultado: a classe média e os setores populares deram-lhes as costas e preferiram os originais às cópias.
Na dificuldade dessa conjuntura, seria a hora de redescobrir o partido – qualquer partido – como aquela livre associação que não somente organiza, mas elabora e transmite cultura, forja a prática da cidadania, trabalha na sociedade. Esse seria o momento de voar alto novamente e valorizar o papel irrenunciável dos sindicatos independentes e das organizações da sociedade civil. Quanto ao Estado, seria decisivo considerar que o investimento em educação é o que faz a diferença entre cidadão e consumidor.
Não pode ser esquecido que o Brasil se esforça para superar imensos atrasos herdados do passado, mas seria pecar de grave omissão deixar de lembrar que a política atrelada à contingência, não consegue criar uma nova proposta de Estado e um novo projeto-país. Permanecerá, inevitavelmente, portanto, e subalterna às tradicionais classes dominantes.
*Nassif
sábado, julho 14, 2012
José Mujica: golpistas paraguaios têm ligações com narcotráfico
Via Prensa Latina
Denúncia do presidente Mujica desata crise em partido paraguaio
Assunção, 13 jul (Prensa Latina)
A
denúncia do presidente uruguaio, José Mujica, sobre vínculos de setores
do Partido Colorado do Paraguai com o narcotráfico, desatou uma
profunda crise nessa organização, principal protagonista na destituição
do presidente Fernando Lugo.
Isso
se converteu no sinal para que, em meio a violenta disputa pela
candidatura presidencial para as eleições de 2013, na qual o partido
está envolvido, todas os olhares se dirigissem para um dos candidatos
presidenciais, o opulento empresário Horacio Cartes.
Já
o presidente Lugo havia assinalado que Cartes foi o principal
organizador do golpe ao realizar um pacto com o então vice-presidente da
República, Federico Franco, dirigente do Partido Liberal, que ocuparia a
presidência da República até as próximas eleições em troca de apoiar
seu plano.
A direção dos colorados, da qual
fazem parte outros dois candidatos, Lilian Samaniego e Ivier Zacarías,
exigiu publicamente de Cartes uma declaração na qual esclareça
publicamente suas relações com o narcotráfico e com a lavagem de
dinheiro.
O pedido de Samaniego e Zacarías, além
de fazer parte da luta interna na entidade pela candidatura
presidencial, baseou-se em elementos públicos sobre a conduta de Cartes
que, imediatamente, voltaram a sair à luz nos debates realizados pelos
representantes das duas partes nos meios de comunicação.
Segundo
esses dados apresentados pelos adversários de Cartes, este esteve
foragido da justiça durante quatro anos acusado de lavagem de dinheiro e
evasão de divisas, até que se entregou na década dos 90, foi condenado
em várias instâncias, mas surpreendentemente seu caso foi depois
arquivado.
Foi acusado também, disseram seus
colegas de partido, de tráfico de cigarros e drogas, enquanto um
telegrama difundido pelo Wikileaks o situou sob a mira de agências
antidrogas pelo mesmo delito de facilitar através de seu banco Amambay a
lavagem de dinheiro.
A polêmica no interior do
Partido Colorado subiu de tom nos últimos dias enquanto acerca-se a data
estabelecida pelo Tribunal de Justiça Eleitoral para a apresentação
oficial da lista de candidatos para as próximas eleições.
O
tom das acusações e os elementos apresentados, dos quais Cartes se
defende atacando contra seus oponentes, dão cada vez mais valor à
denúncia do presidente Mujica sobre a vinculação do famoso
narcocoloradismo com o golpe contra Lugo que, concretamente, não é
condenado pelos Estados Unidos.
*GilsonSampaio
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