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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
sexta-feira, março 30, 2012
Desarquivando o Brasil: O luto numa terra de cadáveres insepultos
do Idelber Avelar
Idelber Avelar
Convocada pela jornalista Niara de Oliveira,
reúne-se a partir de ontem até o dia 02 de abril, em vários blogs, a 5ª
Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, um esforço de cobrança, reflexão e
ativismo sobre os rumos da nossa memória como país. Nos termos da convocação: O
objetivo dessa blogagem continua sendo a abertura dos arquivos secretos
da ditadura militar, a investigação dos crimes e violações de direitos
humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra cidadãos, a localização
dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos, e a revisão da
Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente os
torturadores, além de responsabilizar o próprio Estado pelos crimes de
tortura, assassinato e desaparecimento forçado no período entre 1964 e
1979. Chamo a atenção especialmente para as vinte e seis impressionantes postagens de Pádua Fernandes, que vão desde a crítica literária até o trabalho de arquivo, passando pela teoria do Direito.
Contribuirei escrevendo um pouco sobre um tema relacionado, e ao qual eu dediquei um livro: o luto pelos mortos.
Em
marcado contraste com outros países, no Brasil ainda não nos foi
possível fazer o luto pelos nossos mortos. O luto, esse processo de
reconciliação e aceitação do caráter irreversível da perda, depende,
acima de tudo, da existência do cadáver. A morte sem cadáver, sem
atestado de óbito, sem o registro de seu acontecer, sem
responsabilização, invariavelmente lança o sobrevivente àquele processo
que poderíamos chamar de luto suspenso – em que o sujeito, mesmo
convicto da perda, não pode processá-la, pois falta-lhe o rastro
material que fundamenta o luto. Esse rastro, essa marca, é fundamental,
pois ela é tanto a garantia de que poderá ser realizado o sepultamento
simbólico como a garantia de que o sujeito poderá processar sua perda
sem ser acossado pelos fantasmas de que está abandonando e traindo o
objeto amado que se foi.
Muito mais que qualquer
outro país que eu conheça, o Brasil é uma terra de cadáveres
insepultos. Trinta e dois anos se passaram desde a volta dos exilados e a
promulgação da Lei da Anistia. Desde então, os governos militar,
peemedebista, collorido, tucano e petistas se sucederam sem que se
realizasse um única ação estatal de julgamento e punição dos
responsáveis pelas torturas, execuções, violações acontecidas durante a
ditadura militar. O nosso trabalho de luto é incompleto e precário, pois
falta-lhe o essencial: o reconhecimento institucional, na pólis, do
evento acontecido, e a responsabilização de seus agentes.
Freud
acreditava que o trabalho do luto tinha um prazo definido para se
cumprir e, na ausência de uma resolução, o sujeito estaria condenado à
melancolia – aquele estado em que, incapaz de superar a perda, o sujeito
se confunde com o objeto perdido. A melancolia não é necessariamente a
tristeza. Na realidade, ela pode, inclusive, mascarar-se num estado
eufórico, que tenta encontrar conquistas compensatórias, que vão, aqui
no caso, do crescimento do PIB aos números da produção de soja. O
passado, no entanto, não cessa de inscrever-se. E quanto mais o
passado se inscreve sem sem resolvido, mais energia libidinal o sujeito
terá que dispender no sufocamento da demanda de resolução. É o que
Freud chamou de luto triunfante, que descreve exatamente, ao
modo de ver, o processo vivido pelo Brasil. Nessa forma de luto
incompleto, pendente e negacionista, o sujeito triunfa – imaginariamente
– sobre um objeto perdido que lhe permanece oculto.
Esta
tem sido uma modalidade de luto brasileira por excelência. Nossa morada
é a desmemória. Jamais reparamos as vítimas da escravidão,
contentando-nos com a construção de mitologias da mestiçagem e da
cordialidade racial, enquanto os negros continuavam sofrendo na pele a
realidade da discriminação e da violência. Jamais nos encarregamos do
legado de memória deixado pelo genocídio das populações ameríndias,
convenientemente esquecidas para que se impusesse o programa da ordem e
do progresso. Nunca fizemos luto genuíno pelas cadáveres e corpos
mutilados do Estado Novo, soterrados sob o mito do varguismo nacional e
popular que foi propagado até mesmo pelos comunistas que haviam sido
suas vítimas preferenciais. Hoje, curiosamente, muitos dos que
concordariam com as três frases anteriores repetem o mesmo paradigma com
relação aos crimes da ditadura militar. O importante é “olhar pra
frente”, nos dizem, ignorando ou escondendo o fato de que quem carrega
cadáveres insepultos nas costas jamais poderá olhar pra frente, só pra
baixo.
Pouquíssimo trabalho de memória e de
reparação foi feito no Brasil ante as vítimas do genocídio ameríndio, da
escravidão, da ditadura do Estado Novo. Que não contentemos, mais uma
vez, em varrer a sujeira do passado para debaixo do tapete.
*GilsonSampaio
No dia 1º de abril, Cordão da Mentira desfila pelas ruas de São Paulo
do SPressoSP
Concentração será às 11h30 em frente ao cemitério da Consolação, no Dia da Mentira e do Golpe Militar de 1964
Da Redação
Composto
por coletivos políticos, grupos de teatro e sambistas de diversos
grupos e escolas de São Paulo, o Cordão da Mentira discutirá, de modo
bem humorado e radical, de quem são os interesses que bloqueiam uma real
transformação da sociedade brasileira. No dia 1º de abril, data que
marca o dia da mentira e o golpe militar de 1964, o cordão da mentira
desfilará pelas ruas da cidade cantando e questionando quando de fato
acabará a ditadura civil-militar.
- Estandarte do Cordão da Mentira (Divulgação)
Em
seu manifesto, o movimento explica suas intenções. “No dia da mentira
de 1964, ocorreu o golpe que instituiu a ditadura civil-militar. Dizem
que ela acabou. Porém, a maior ilusão da história brasileira repete-se. A
ditadura civil-militar se fortalece no golpe de 1964 e, até hoje,
ninguém sabe quando vai acabar! Nós vamos celebrar[..]”.
Para
os manifestantes, casos como o do Pinheirinho, Eldorado dos Carajás e o
constante massacre de pobres nas periferias são símbolos da
continuidade da ditadura “que privilegia os ricos em detrimento dos mais
pobres”.
“[...]Quando admitimos que os crimes
do passado permaneçam impunes, abrimos precedentes para que eles sejam
repetidos no presente. Com a roupagem indefectível da democracia, da
constituição, do direito à livre manifestação, o Estado continua
executando os seus inimigos e calando de uma forma ou de outra aqueles
que pensam e atuam em favor da tolerância, em favor da utilização dos
espaços públicos de maneira respeitosa e saudável. Em nome da manutenção
da produção e do consumo ostensivo vivemos o estado de exceção como
regra e o direito conquistado de ir às urnas acaba apenas legitimando o
que é uma verdadeira licença para calar, reprimir, matar[...]”, continua
o manifesto.
A concentração do Cordão da
Mentira será às 11h30 em frente ao cemitério da Consolação. Às 13h30 o
desfile será iniciado passando pela Avenida Higienópolis, Largo de Santa
Cecília, Avenida Duque de Caxias, entre outros locais até terminar no
cruzamento das ruas Mauá e General Osório.
*GilsonSampaio
Era assim e ainda é...
*Gilson Sampaio
Cerco a Clube Militar causa tumulto no centro do Rio
Foto: Fernando Rabelo/Folhapress
Manifestação na Cinelândia contra oficiais da reserva que não aceitam a Comissão da Verdade é dispersada pela polícia com bombas de gás lacrimogênio e prisões; vice-presidente do Clube Militar classificou apuração dos crimes da ditadura como posição 'revanchista'
"Do jeito que está sendo conduzida, ela [a Comissão da Verdade] é simplesmente revanchista", disse Bandeira, que defende a apuração, na comissão, dos crimes cometidos pela guerrilha de esquerda contra militares.
À saída do encontro, os ex-militares foram hostilizados pelos manifestantes, chamados de torturadores e assassinos. A PM utilizou bombas de efeito moral e jatos de gás de pimenta para dispersar a multidão.
Militares da reserva, por meio do Clube Militar do Rio, enviaram convites para o ato, organizado para acontecer na sede do Clube - denominado “1964 – A Verdade”. O evento acontece um mês após o lançamento de manifesto em que cobram da presidente do país postura contrária à Comissão da Verdade e à revogação da Lei da Anistia. Entre seus painelistas, o general Luiz Eduardo Rocha Paiva, principal crítico das duas leis federais.
Em declaração à jornalista Miriam Leitão, durante entrevista, Paiva fez várias declarações que questionam a morte de Wladimir Herzog pelos militares; fala até mesmo que a presidente Dilma Rousseff não sofreu tortura pelos aparelhos do governo da repressão. Também no início do mês fez outras declarações que, certamente, seriam impedidas de circular se fossem dadas durante o regime ditatorial do qual ele participou.
*Amoralnato
quinta-feira, março 29, 2012
Roger Waters: É preciso lutar pela liberdade da Palestina
Via Vermelho
“O
objetivo é criar um encontro que irá incentivar homens e mulheres de
boa-fé a se unir em apoio da justiça e da liberdade para as pessoas da
Palestina”. Foi o que declarou em coletiva à imprensa, nesta
quarta-feira (28), no hotel Fasano, em Ipanema, no Rio de Janeiro, o
baixista e compositor inglês Roger Waters, ex-Pink Floyd, defendeu a
causa palestina.

"Quando
você observa os dois lados, fica claro que há apenas um a apoiar",
disse o músico, ao divulgar o Fórum Social Mundial Palestina Livre, que
irá ocorrer em novembro em Porto Alegre.
Segundo
ele, o caminho mais correto para Israel é voltar às fronteiras de 1967.
"Acho a paz possível, talvez não agora, mas nos próximos anos."
Durante
a coletiva ele desabafou "há certas culturas que querem nos vender uma
noção de vida que não corresponde ao que a vida é de verdade. O muro da
desinformação é provavelmente a força mais potente e negativa que
existe".
O músico, que fez críticas ao
presidente do Chile, Sebastian Piñera, quando tocou no país no começo de
março, elogiou o atual momento do Brasil. E citou o papel do presidente
Lula para as mudanças observadas no país.
Waters
ressaltou que o crescimento brasileiro e da América Latina como um todo
nos últimos anos demonstra uma reconfiguração nesta região. "Apesar de
não morar aqui, sinto que as pessoas estão se organizando melhor, a
distribuição está sendo feita de uma forma mais justa do que no passado.
O país está se tornado um exemplo de potência mundial."
Organizações humanitárias e mídia a soldo do petróleo saudita ou Lembram-se da iraniana condenada à morte por apedrejamento?
Nem todas são Sakineh
A execução de Amina
Lembram-se de Sakineh?
A jovem iraniana condenada a morte por ter cometido adultério?
Uma história triste, que chegava do Irão e que ocupou as páginas dos diários de todo o mundo.
Sakineh
teve a apoio das organizações humanitária do planeta, tal como Avaaz,
Human Rights Watch ou Amensty International. Até surgiram blog para
salvar a vida dela, por exemplo Liberdade para Sakineh.
A
história da rapariga era mais uma demonstração da crueldade do regime
dos ayatollah: um País sem coração, governado por monstros, atrasado e
inimigo da Humanidade. Um País que deve ser combatido e democratizado.
Afinal
Sakineh não foi lapidada. Apesar de ter assassinado o marido com a
ajuda dos dois amantes (o que não é coisa tão simpática, mas este é um
pormenor que as associações humanitárias esquecem frequentemente),
Sakineh não foi justiçada e continua nas prisões do Irão. Mas o País
continua a ser um regime de monstros.
Lembram-se de Amina bint Abdul Hamis bin Salem Nasser?
Acho
que não. Esquisito, pois com um nome assim não deveria ser difícil
lembrar dela. Mas ninguém conhece a mulher. Aliás: conhecia. Pois Amina
foi justiçada em Dezembro com a acusação de bruxaria na província
setentrional de al-Jawf, na Arábia Saudita.
Amina foi a decapitada.
Agora
tenho um vazio na memória. É que não consigo lembrar dum blog tipo
Liberdade para Amina, nem de campanhas de Avaaz, Human Rights Watch ou
Amnesty International.
Estranho, não é? Onde estão as mulheres que choravam cada vez que aparecia o rosto de Sakineh?
Mais: na Arábia o caso de Amina nem é uma excepção, é a regra.
Pouco
antes da decapitação de Amina, na cidade de Medina tinha sido
decapitado um sudanês, "culpado" de bruxaria também. Neste caso o homem
foi forçado a confessar sob tortura e nem um advogado foi-lhe concedido.
'Abd Allāh bin ʿAbd al-ʿAzīz Al Saʿūd
Um
País demasiado rígido? Nem por isso, pois não há só decapitação: há o
enforcamento e o apedrejamento também. Neste aspecto a Arábia oferece
várias soluções.
E para poder experimenta-las
(não todas, só uma delas...): assassinato, estupro, assalto à mão
armada, tráfico de drogas, homossexualidade, bruxaria, adultério,
apostasia e sabotagem.
Funciona? Sim, funciona
bem: em 2011 foram realizadas 79 execuções, em 2010 tinham sido 27 e em
2009 67. O topo foi alcançado em 1995, quando 191 pessoas foram mortas
pelo Estado, mais da metade de nacionalidade estrangeira; isso para que
ninguém pense na Arábia como um País de racistas.
É
normal, portanto, que um homem ou uma mulher condenados sejam arrastado
até a morte logo fora da mesquita, onde são amarrado, ajoelhados aos
pés do carrasco e da espada dele, diante de uma multidão que grita "Alá
Akbar" ("Deus é grande").
Assim morreu Amina. E
as organizações que ficaram sem voz para salvar Sakineh? Nem um pio. E
porquê? Porque a Arábia Saudita é boa. Vejam o simpático rosto do rei
'Abd Allāh bin ʿAbd al-ʿAzīz Al Saʿūd: é um rosto que sugere bondade,
confiança. Um homem assim não pode ser mau e nem o petróleo dele.
O Irão? O Irão é mau, vê-se logo.
Demonstração: queria matar Sakineh.
Ipse dixit.
Nota: acerca do mesmo assunto podem ler este artigo do blog O Tempo Chegou, escrito na altura dos acontecimentos.
Fontes: NewNotizie
*GilsonSampaio
A manifestação dos caras-pintadas diante do Clube Militar
Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro,
quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida.
Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens
estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde
acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o "31
de Março" e contra a Comissão da Verdade.
Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco,
alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao
motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de
Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me,
coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da
estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista
social.
A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem
e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases
como "Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar". Faces
jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em
alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num
sentimento. Como aquilo me tocou! Manifestantes mais velhos com eles,
eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns
senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada
maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!
Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos
militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem
punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às
famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como,
de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus
entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?
Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais
são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que
esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos
que elas jamais serão encontrada, pois nunca serão procuradas. Pois o
jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde
1964 - e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade,
do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.
E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do
Clube Militar. "Assassino!", "assassino!", "torturador!", gritava o
garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a
quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e
diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo
de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno
ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele
corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma
recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no
ombro de um terno príncipe de Gales.
Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço
daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes
cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles
conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube
Militar: carregados no colo dos PMs.
Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de
desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: "Presente!". Havia
tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da
portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam
bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não
me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão.
Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio.
A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo
mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do
"corredor", manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E
ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente
sozinha, testemunhando tudo aquilo, bem uns 20 minutos, com eles
passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a
aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.
Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou
um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi
que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo
reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os
PMs me viram. Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um
me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti
em ficar l mesmo, com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não
conseguiria me demover: "A senhora quer um copo d'água?". Na mesma hora o
copo d'água veio. O segurança do Clube ofereceu: "A senhora não prefere
ficar na portaria, lá dentro? ". "Ah, não, meu senhor. Lá dentro não.
Prefiro a calçada mesmo". E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora
assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de
testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos
empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos
moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de
idealistas.
A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um
feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes
daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos
ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e
congressos e redações? Será esta a lição que nos impõe a História:
delegar sempre a realização dos "sonhos impossíveis" ao destemor
idealista dos mais jovens?
*comtextlivre
Comissão da OEA investiga Brasil por caso Herzog
País foi notificado oficialmente e terá cerca de dois meses para explicar por que não puniu o assassinato do jornalista, morto no DOI-Codi de São Paulo, em 1975
Wilson Tosta, de O Estado de S.Paulo
Ampliado às 13h15
Reprodução/Arquivo AE
Foto feita na cela do DOI-Codi, em outubro de 1975
*Nassif
Rio: jovens melam ato
em defesa de 64
Comemoração de militares termina em pancadaria no Centro do Rio
RIO – O que era para ser uma simples comemoração pela passagem dos 48 anos do golpe que culminou em 21 anos de ditadura no Brasil, organizada por militares da reserva, nesta quinta-feira, no Centro do Rio, foi marcada por uma grande confusão. Cerca de 350 pessoas, entre eles representantes do PT, PCB, PCdoB, Psol, PDT e outros movimentos sociais de esquerda, bloquearam a entrada principal do Clube Militar, na esquina das avenidas Rio Branco e Almirante Barroso, e tumulturam a chegada dos convidados para o evento. O tempo todo gritavam palavras de ordem, chamando os militares de torturadores, assassinos e covardes. Cada militar que chegava ao local era cercado, xingado e só conseguia entrar no prédio sob escolta da PM.
Um dos militares revidou ao xingamento, pegou o celular de um manifestante, que reagiu. Houve empurra-empurra e o estudante de Ciências Sociais Antônio Canha, de 20 anos, acabou sendo atingido por um tiro de descarga elétrica de uma pistola Taser. Os manifestantes também derramaram um balde de tinta vermelha nas escadarias do Clube Militar, representando o sangue derramado durante a ditadura, e atingiram um segurança do local com ovos.
Nas ruas próximas, vários cartazes com frases como “Ditadura não é revolução”, “Onde estão nossos mortos e desaparecidos do Araguaia?”, além de fotografias de desaparecidos durante os anos de chumbo. Parentes de desaparecidos compareceram ao protesto, como Maria Cristina Capistrano, filha do David Capistrano, jornalista e ex-ativista do PCB.
- Em 1974, ele foi levado para o DOPS no Rio de Janeiro e depois para a casa da morte, em Petrópolis. Desde então nunca mais tivemos notícias dele. Devidoa a casos como este do meu pai, acho importante este tipo de mobilização.
O polciamento do local foi feito pela tropa de choque da PM, que cercou a entrada do Clube. Uma pessoa foi presa após se desentender com um militar. A confusão começou com xingamentos e acabou em socos e pontapés e com o manifestante sendo levado pela PM num camburão, o que provocou mais revolta dos manifestantes. No momento em que o jovem foi colocado no camburão, várias pessoas tentaram impedir que ele fosse levado, cercando o veículo. A PM, então, usou de spray de pimenta para dispersar a aglomeração. Os manifestantes fecharam a Avenida Rio Branco por dez minutos e só liberaram o trânsito após os policiais usarem bombas de efeito moral, cujos estilhaços feriram na barriga a manifestante Miriam Caetano, de 33 anos.
Os militares, que ficaram o tempo todo acuados dentro do prédio, foram saindo aos poucos pela porta dos fundos do local.
Clique aqui e leia: “Vergonha: OEA denuncia o Brasil por Herzog”*PHA
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