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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

segunda-feira, junho 25, 2012

Harris defende a substituição das religiões pelo autoconhecimento

Sam Harris é o ateu mais temido por religiosos dos EUA, diz revista


Sam Harris, neurocientista
Harris defende a substituição das
religiões pelo autoconhecimento
O neurocientista e filósofo Sam Harris (foto), 45, é o ateu mais temido pelos líderes religiosos dos Estados Unidos por sua habilidade na contestação das  crenças com o uso de argumentos extraídos da ciência. É o que diz o site judeu Tablet como introito de uma longa entrevista com Harris.

Filho de mãe judia e de pai Quaker, Harris é, na atualidade, um dos Cavaleiros do Ateísmo, ao lado do britânico Richard Dawkins e do americano Daniel Dennet.

Nos Estados Unidos, o mais temido ateu era o afiado Christopher Hitchens, jornalista e escritor que morreu aos 62 anos em dezembro de 2011 vítima de um câncer. Pelo que Tablet diz, o título de enfant terrible dos ateísmo nos EUA é agora de Harris.

De acordo com o site, Harris tem pouca paciência com líderes religiosos cristãos, como Rick Warren (tido como o pastor de maior prestígio nos Estados Unidos), e com fundamentalistas islâmicos, além dos esquerdistas seculares que têm simpatia pelo Hamas e seus congêneres.

Tablet destacou que os questionamentos de Harris aos religiosos em debates públicos são tão enfáticos, que ele tem sido com frequência alvo de ameaças de morte por parte de fiéis.

O neurocientista se especializou em polêmica, disse o site. “Ele é engraçado, lógico, destemido e às vezes impulsivo”, afirmou, acrescentando que também possui a “qualidade rara” de admitir estar errado, se alguém demonstrar haver falha no seu argumento.

Harris é o autor, entre outros, do livro “A morte da Fé” (R$ 55, Companhia das Letras), onde defende a substituição das religiões organizadas pelo autoconhecimento. Para ele, essa é a única saída que se vislumbra nesse início do milênio para a humanidade, é a único caminho possível para a felicidade.

Ele é defensor da polêmica ideia de que a ciência pode deixar de ser neutra e se tornar fonte de padrões de moralidade, substituindo a religião na função de estabelecer o que é bom ou mau. A vantagem da “ciência da moralidade”, segundo ele, é que ela não ignora os sofrimentos humanos, diferentemente do que ocorre com as religiões, que chegam inclusive a incentivá-los.

Tablet lembrou que Harris começou a estudar as religiões aos 13 anos de idade, quando o seu melhor amigo morreu em um acidente de bicicleta, e ele se perguntou o que vem após a morte. Leu sobre as crenças religiosas, inclusive as orientais — viajou para Índia e Nepal, onde estudou meditação com mestres budistas. A conclusão de Harris é que não existe absolutamente nada após a morte.

Para ele, a ideia da existência de um ser onisciente que exige obediência de seus seguidores em troca de promessa de vida após a morte é uma grande besteira com consequências danosas, porque tem patrocinado guerras e ignorância, entre outros males.

David Samuels, colaborador de Tablet, perguntou a Harris por que ele, como neurocientista e ateu, ocupa tanto o seu tempo com as religiões.

Harris citou um exemplo para responder que hoje em dia essa é uma questão que interessa a todos. “Se você tiver um motorista que acredita no poder da oração, a ponto disso afetá-lo em suas decisões, ele poderá de vez em quando tirar as mãos do volante por acreditar que Jesus está no controle de tudo", disse. "Essa pessoa é perigosa, [...] e nós precisamos falar sobre isso.”

Leia mais em http://www.paulopes.com.br/#ixzz1ypZwjQc5
Paulopes

JUSTIÇA ACABA COM O AUXÍLIO-PALETÓ DOS DEPUTADOS EM SÃO PAULO


DO BLOG DE JAMILDO

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(Foto ilustrativa)

A Justiça de São Paulo acabou com o pagamento do auxílio-paletó, nome dado ao benefício pago anualmente aos deputados da Assembleia Legislativa do Estado. A decisão foi tomada na quinta-feira pelo juiz Luis Fernando Camargo de Barros Vidal, da 3ª Vara de Fazenda Pública, após ação do Ministério Público Estadual.

A ajuda de custo, como é chamada oficialmente, já estava suspensa desde novembro do ano passado por liminar do mesmo juiz. Além do salário de R$ 20 mil mensais, os deputados recebiam o equivalente ao 14º e ao 15º salários.

O benefício surgiu com o argumento de que os deputados precisavam de dinheiro extra para renovar o guarda-roupa. Mas eles não precisavam prestar contas de como o dinheiro era gasto.

A Assembleia pode recorrer da decisão, que é de primeira instância, mas ainda não decidiu se vai fazê-lo.

As "democraduras" do Egito e Paraguai

Por Emir Sader, no sítio Carta Maior:

Países com longas ditaduras não passam simplesmente da ditadura à democracia, apagando seu passado e escrevendo a nova página da sua história como se fosse uma página em branco. Até mesmo porque costumam ser transições institucionais, pacíficas, não rupturas radicais. O passado pesa fortemente sobre as novas democracias, condicionando seu futuro fortemente.

Fernando Lugo tenta articular retorno ao poder

 

paraguaiO ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo transformou sua casa em Lambaré, nos arredores de Assunção, capital paraguaia, em uma espécie de quartel-general de um governo paralelo ao oficial. Lugo marcou para hoje (25) cedo uma reunião denominada Gabinete da Restauração da Democracia. A ideia é manter a rotina de governo, mesmo depois da sua destituição há três dias.
Lugo convocou todos os ex-ministros e ex-assessores para a reunião nesta manhã. O principal assunto é a articulação para o que o chamou de restauração da democracia. Na prática, a ideia é alinhavar de maneira objetiva seu retorno ao poder. Deputados e senadores aliados de Lugo tentam buscar maneiras de reverter o quadro político atual.
Analistas consideram, porém, a hipótese pouco provável. Lugo não dispõe de apoio político no Congresso. A prova das suas dificuldades foi a votação, no último dia 22, do processo que levou ao seu impeachment, com um placar de 39 votos a favor, 4 contra e 2 abstenções.
Em uma rua com casas de classe média alta, a residência de Lugo é a única que tem muros altos e seguranças armados do lado de fora. Há ainda militares fardados e com armas que guardam a entrada principal da casa. Ontem (24), correligionários entravam e saíam a toda hora. Vez por outra, simpatizantes passavam em frente à casa e gritavam palavras de ordem.
As principais ruas de Assunção voltaram à normalidade, com exceção da área em frente à TV Pública, local escolhido pelos simpatizantes de Lugo para as manifestações. Um protesto pacífico, que começou ontem de manhã, estendeu-se pela madrugada de hoje. Com palavras de ordem, canções e representações teatrais, os manifestantes protestaram contra o governo de Franco. A polícia acompanhou tudo a distância, sem embates.
*OCarcará

Charge do Dia

Irmandade Muçulmana elege presidente do Egito, a contragosto dos EUA e Israel

 

vi no osamigosdopresidentelula

O candidato da Irmandade Muçulmana, Mohammed Mursi, venceu a eleição presidencial no Egito.

Ele conquistou 51,7% dos votos na disputa contra o ex-premiê do antigo presidente Mubarak (o preferido dos EUA e Israel).

A Irmandade Muçulmana opõe-se às tendências seculares de algumas nações islâmicas e rejeita influências ocidentais. Defende a jihad (guerra santa), que inspirou desde grupos insurgentes islâmicos, até os mais radicais classificados pelos EUA como terroristas.

Há décadas, a Irmandade Muçulmana está muito envolvida na política, mas também atua fortemente no campo social, da caridade e nos sindicatos profissionais.

Mohamed Mursi fez campanha se apresentando como o "único candidato com um programa islamita" e partidário de um "projeto de renascimento" baseado nos princípios do islã. Mas prometeu garantias de governar respeitando a todos, para conquistar o voto das minorias cristãs e de jovens seculares.

Prometeu:
- preservar as conquistas da primavera árabe;
- trabalhar pela liberdade, pela democracia e pela paz;
- garantir os direitos da minoria cristã;
- servir a todos os egípcios, seja qual for sua opção política ou religiosa.
- não obrigar as mulheres a utilizar o véu;
- relações "mais equilibradas" com Washington;
- revisar o tratado de paz com Israel se os Estados Unidos bloquearem sua ajuda ao Egito;

Venceu o "PIG" egípicio

"Resistimos (à campanha negativa) dos meios de comunicação", explica à AFP Essam al-Eriane, vice-presidente da estrutura política da Irmandade, o Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ).

Mursi dirige o PLJ, de longe o principal partido do país, e que obteve quase a metade dos assentos do parlamento após as recentes eleições legislativas.
A eleição foi invalidada em meados de junho pelo Tribunal Constitucional devido a irregularidades na lei eleitoral.

Perfil:

Mursi tem 60 anos, engenheiro graduado em 1975 na Universidade do Cairo. Em 1982 completou um doutorado na Universidade da Carolina do Sul (Estados Unidos).

CPI obtém todas as
gravações. Civita, tremei !


 

Quem sabe não há outras conversas do Demóstenes com o Carlinhos, como aquela “o Gilmar mandou subir”?

Íntegra de gravações da PF está liberada à CPMI de Cachoeira


A partir desta sexta-feira, a íntegra das gravações das operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, estará à disposição de integrantes da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga a ligação do contraventor Carlinhos Cachoeira com agentes públicos e privados. O material estava com a Justiça Federal em Goiânia e foi trazido até a secretaria da comissão na noite de quinta-feira pelo próprio relator da CPMI, deputado Odair Cunha (PT-MG).


Como se trata de documentação protegida por regras de preservação de sigilo, o material lacrado foi depositado no cofre da secretaria da CPMI. As mídias serão abertas ainda nesta sexta e inseridas no banco de dados referente às operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal. A partir daí, poderão ser consultadas por deputados e senadores que integram a comissão e seus assessores credenciados.


Segundo informações do presidente da CPMI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), procedimentos adotados por ele e por Odair Cunha possibilitaram a liberação do material em 48 horas. O senador explicou que, até então, a CPMI só tinha acesso a gravações editadas, contendo as partes de interesse da operação policial. Com o recebimento do novo material, os parlamentares poderão consultar outros trechos que podem ser úteis ao trabalho da comissão.

Navalha
Como se sabe, a PF do Zé Cardozo dificultou (propositadamente ?) o acesso às informações obtidas na Operação Monte Carlo.
Agora, a CPI e todos os seus membros obtém as informações originais.
Mete a mão naquele precioso material que estava na casa do Carlinhos Cachoeira (do Carlinhos ou do Perillo ?).
Vamos ver os detalhes de como o Demóstenes e o Carlinhos montaram a operação que deu origem ao mensalão (petista, porque o mensalão tucano se segue com a mesma rapidez).
E que permitiu à TV Record “melar o mensalão”.
Vamos ver se dessa vez, com a íntegra das gravações, a “bancada da Globo” consegue impedir o depoimento do Robert(o) Civita e seu diretor em Brasília.
O Requião vai pode repetir da tribuna do Senado: a Veja é agente do Diabo.
Quem sabe não há outras conversas do Demóstenes com o Carlinhos, como aquela “o Gilmar mandou subir”?
O logging dos vôos – será que o Carlinhos “importava” jatinhos daquele jeito que o Zé Cardozo demorou a descobrir ?
E as pegadas da Globo, que o Leandro achou na Carta Capital: haverá outras no crime organizado ?
Teremos o Cerra e o Paulo Preto com o Cavendish na marginal (sic) de São Paulo ?
E o Gurgel, os procuradores, a mulher do Juiz ?
Tem mais prevaricação acoitada, como disse o Collor ?
Como se vê, a CPI já foi longe.
Agora, vai mais ainda.
Ela dura até novembro.
E pode explodir em cima da eleição, não é isso, Paulo Preto ?




Paulo Henrique Amorim

“Não podemos viver numa tragédia e achar normal”

Lenha na fogueira

No Brasil, apenas 8% dos homicídios são solucionados e 63% da população não confia na polícia. A Pública foi ouvir quem convive no dia-a-dia e quem estuda o fracasso das nossas forças policiais 
Aos 30 anos, Humberto Ramos é o que chamam de linha de frente da polícia civil paulista. Escrivão, trabalha no plantão policial com a arma na cintura no 49º Distrito, em São Mateus, o mais movimentado de São Paulo, e quiçá do Brasil. Desde janeiro até maio foram registradas nove mil ocorrências. Ali Humberto passa até mesmo as suas férias.
“Vim para ajudar, tem muito serviço”, explicou. Naquele dia também estava ali para dar uma entrevista sobre o livro que está lançando, “Dê um novo poder ao policial”, o primeiro escrito por um policial brasileiro sobre neurolinguística, neurociências e as técnicas de Reid, processo desenvolvido pelo policial de Nova York, John Reid, que integra entrevista e interrogatório. É aí que o escrivão quer colocar o dedo. “A polícia não precisa usar a força desnecessária, basta usar o poder de persuasão. O verdadeiro poder policial está na habilidade de conquistar e influenciar pessoas”, diz ele, que garante querer ser escritor e palestrante “para melhorar a polícia brasileira”.
Não é uma tarefa fácil. Segundo diagnóstico da Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (Enasp), traçada pelo Ministério Público, Conselho Nacional de Justiça e Ministério da Justiça com o objetivo de reduzir a impunidade dos crimes de homicídio no país, o treinamento técnico da polícia deve ser prioridade para melhorar a segurança pública. A Enasp realizou um mutirão nacional com as policiais estaduais para levantar os inqúeritos de homicídios não solucionados até 2007 – 135 mil – e conseguiu denunciar suspeitos em 19% dos casos. A porcentagem parece pequena, mas é grande quando comparada à média nacional de elucidação de homicídios: de 5 a 8%. Os mais de 90% restantes ficam sem solução.
São 50 mil homicídios por ano no país, o maior do mundo em termos absolutos, segundo relatório da ONU de 2011, que colocou o Brasil no 3º lugar em violência na América Latina, e 26o do mundo. Desses, apenas 4 mil por ano têm seus autores presos, segundo estimativa de Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da pesquisa Mapas da Violência.

CSI brasileiro

A fragilidade das investigações policiais é regra do norte ao sul do país. Em Alagoas, o grupo de trabalho do Enasp descobriu o sumiço de mil dos 4.180 inquéritos instaurados entre 1990 e 2007 para apurar homicídios dolosos. No Rio Grande do Sul, o Relatório de Controle Externo da Atividade Policial, encaminhado à cúpula da Secretaria de Segurança Pública, constatou que delitos com “repercussão na imprensa” têm preferência nas delegacias da grande Porto Alegre, enquanto os demais permanecem parados. Em 2008, apenas 16% dos inquéritos tornavam-se processos judiciais em Porto Alegre. O restante era devolvido ou arquivado pelo Ministério Público por insuficiência de provas técnicas para denunciar os réus.
E por que o Ministério Público devolve e arquiva tantos inquéritos? Porque em muitos casos as investigações são insuficientes ou incompletas, diz a promotora de Justiça da área criminal e professora doutora em Ciências Penais, Ana Luiza Almeida Ferro. Ela explica que o Ministério Público só pode apresentar denúncia para o juiz – abrindo assim um processo judicial – se houver suporte “testemunhal, pericial ou documental” que mostre que houve um crime e indícios que apontam para o suspeito. Senão, o processo será rejeitado pelo juiz.
Em sua rotina de promotora, Ana Luiza raramente encontra inquéritos consistentes: “Enfrento esta realidade cotidianamente. Em expressiva parte dos casos, o inquérito chega incompleto, deficiente, sem provas suficientes para a formulação da denúncia e a fundamentação de uma futura condenação. Então o Ministério Público não tem outra escolha que não se manifestar pela devolução do inquérito à polícia para o cumprimento dessas necessárias diligências complementares. O Judiciário, de sua parte, nada pode fazer sem a denúncia. Se os inquéritos fossem mais fundamentados, menos incompletos, haveria maior rapidez”, diz.
O vai-e-vem de inquéritos entre Ministério Público e polícia acaba facilitando a vida dos autores dos assassinatos. “A prescrição lhes favorece. Fica mais difícil localizar testemunhas. Vestígios se apagam. Provas esmaecem. Por outro lado, denunciar sem dispor de provas suficientes para tal e, sobretudo, para alicerçar uma futura condenação também interessa aos criminosos e àqueles que torcem pela impunidade”, reconhece Ana Luiza, para quem “a Justiça tardia e, pior, a impunidade são negações da democracia.”
O sociólogo Michel Misse, coordenador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que a divisão de funções entre Ministério Público e polícia civil entre investigação (feita pela polícia civil), e a denúncia (a cargo do MP, que é o titular da ação penal) é o principal problema: “É o chamado pingue-pongue, o vai e vem entre o delegado e o MP, um modo de o inquérito não ficar em lugar nenhum até que, passados meses e, em vários casos anos, ele venha a ser arquivado”.
Segundo a Constituição, a investigação também é atribuição do MP. “Apenas no Brasil encontramos uma solução ambivalente na persecução criminal”, diz Misse. Em qualquer outro país, diz, a fase destinada a apurar se houve crime e a identificar o autor pode ser exclusiva da polícia ou do Ministério Público. Ou seja, o Ministério Público pode investigar e apresentar a denúncia e não apenas encampar o inquérito policial ou devolver ao delegado.
A promotora Ana Luiza acredita que reforçar a capacidade de investigação da polícia também ajudaria a reduzir o “pingue-pongue” que favorece a impunidade: “Uma deficiência crônica, por exemplo, está na parte pericial, nos casos em que tal prova é exigida. E há casos complexos, particularmente aqueles que envolvem crimes do colarinho branco e de lavagem de dinheiro, além de atividades do crime organizado”, pondera.

“Não podemos viver numa tragédia e achar normal”

Apesar da ineficiência do sistema, os gastos do país em segurança atingem R$ 60 bilhões por ano. “Em relação ao PIB gastamos mais que a França e estamos no mesmo patamar da Alemanha”, compara Renato Sérgio de Lima, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.“Só que o serviço é muito pior”, constata.
Renato, como a maioria dos especialistas ouvidos pela Pública, acredita que é preciso pensar em um novo modelo de segurança pública no Brasil. Porque este que está aí “é caro e ineficiente, com altas taxas de violência”, diz. O maior problema, diz, é que “a polícia que temos não está voltada para o cidadão, está preparada para defender os interesses do Estado”.
“Precisamos saber o que a gente quer”, afirma o secretário do Fórum. “O governo, o Estado tem que ter responsabilidade, não é só punir quem está na ponta. Tem que punir quem autoriza, quem delega poderes. Não podemos viver numa tragédia e achar normal, precisamos de política pública”.
O relatório da Enasp enfatiza a necessidade de contratar mais peritos e obter mais equipamentos para os órgãos periciais de algumas regiões do país – a distribuição de recursos e expertising é bastante desigual, já que os Estados têm capacidade financeira e prioridades políticas diferentes. Mas dá maior ênfase à necessidade de treinamento dos que participam da elucidação dos crimes, de estimular a meritocracia na carreira policial e estabelecer o controle externo das investigações nos crimes de homicídio.
Uma conclusão parecida à que chegou em seu dia-a-dia na polícia o escrivão Humberto, que investiu as economias dos nove anos de carreira em cursos de treinamento. Nos últimos dez anos, ele diz, os investimentos que viu na polícia civil paulista ficaram concentrados em armamentos e tecnologias digitais. “Nesse mesmo tempo quase nada foi aplicado em desenvolvimento humano”, lamenta.

63% da população não confia na polícia

A curva ascendente da violência acompanha a da impunidade. Entre 1992 e 2009, a taxa de homicídios cresceu 41% de acordo com pesquisa divulgada pelo IBGE em junho. Os números de 2009, os mais recentes, mostram uma média de 27,1 mortes para cada 100 mil habitantes. De acordo com parâmetros internacionais, a violência em um país pode ser considerada endêmica a partir de 10 mortes para cada 100 mil.
Números que contribuem para a má imagem da polícia junto à população. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas realizada no primeiro trimestre de 2012 apontou que 63% da população de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Distrito Federal não confia na polícia. Conforme o levantamento, coordenado pela professora Luciana Gross Cunha, a população com renda inferior a dois salários mínimos (R$ 1.244) é a que mais desconfia dos policiais: 77% disseram-se “muito insatisfeitos” ou “um pouco insatisfeitos” com os policiais. “São as pessoas que sofrem mais discriminação e preconceito da polícia”, diz ela.
São as mais frequentes vítimas da violência policial que fez o Conselho de Direitos Humanos da ONU pedir a extinção da PM e a Anistia Internacional denunciar a tortura como “método” de interrogatório nas delegacias paulistas e as execuções extrajudiciais praticadas por forças policiais.
“Precisamos urgentemente discutir que tipo de polícia a gente tem”, diz a professora.
As conclusões do relatório mais recente da Anistia Internacional convergem para a percepção da violência policial entre os mais pobres. A prática da tortura, afirma a entidade só joga mais lenha na fogueira; é usada nas ruas, em delegacias, presídios, centros de recolhimento de adolescentes “como meio de obter confissões, subjugar, humilhar e controlar pessoas sob detenção, ou com frequência cada vez maior, extorquir dinheiro ou servir aos interesses criminosos de policiais”.
Como agravante, relata a Anistia, “a grande maioria das vítimas é composta de suspeitos criminais de baixa renda, com grau de instrução insuficiente, frequentemente de origem afro-brasileira ou indígena, setores da sociedade cujos direitos sempre foram ignorados no Brasil”.
Já o Conselho de Direitos Humanos da ONU pediu ao Brasil maiores esforços para “combater a atividade dos esquadrões da morte” (compostos por policiais civis e militares) e que trabalhe para “suprimir a Polícia Militar, acusada de numerosas execuções extrajudiciais”.
O relatório também pediu que o Brasil garanta que “todos os crimes cometidos por agentes da ordem sejam investigados de maneira independente”.
Seguir essa recomendação significa mexer em outro ponto crítico do sistema de segurança pública: o corporativismo que substitui a rivalidade entre as polícias e departamentos policiais quando o réu é agente do sistema de segurança. No estado de São Paulo, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública determinou em abril de 2011 que mortes em confrontos com PMs fossem investigadas pelo departamento de homicídios da Polícia Civil. De lá para cá, nenhum policial foi punido. Dos 500 casos analisados, todos na região metropolitana, 40% foram esclarecidos e em nenhum deles constatou-se desvio de conduta, ou seja, em todos os casos os PMs teriam tido motivo para atirar.
O que fez o relatório da Enasp incluir como medida a ser adotada imediatamente a “definição de parâmetros específicos para o controle externo nas investigações dos crimes de homicídio”.

Armas que vão e voltam

A corrupção também está entre os ingredientes que enfraquecem a segurança pública e multiplicam os homicídios. Armas de criminosos recolhidas pela polícia voltam a circular e o comércio ilegal de armas raramente é investigado, menos ainda punido. Policiais fazem bicos, aceitam propinas e vendem proteção para comerciantes, o que dá origem à formação de esquadrões da morte e à circulação ilegal de armas, como aponta o relatório da Anistia. Mais de 80% das armas apreendidas em situação ilegal é de fabricação brasileira, ou seja, foram comercializadas aqui.
“O debate da segurança pública é frequentemente contaminado por considerações de ordem ideológica, impedindo a implementação de medidas importantes nessa seara. Falta a sensibilidade de entender que deve haver um equilíbrio entre o interesse da garantia dos direitos dos cidadãos (e dos investigados) e o interesse da segurança pública”, defende a promotora Ana Luiza.
Junte-se a isso o apelo à força policial, a ideia de que “bandido não tem direitos humanos”, rotineiramente defendidos por uma parte da sociedade, também são vistos como fatores que enfraquecem a segurança pública de acordo com especialistas e estudiosos do tema.
Em março de 2012, confrontado com os indíces de homícidio haviam aumentado 50% em comparação com o mês anterior, o coronel Josiel Freire, subsecretário de operações da secretaria de segurança de Brasília – cuja polícia é a mais bem paga do país –declarou à imprensa: “Quase 70% das vítimas de homicídios estão envolvidas com crime e tráfico. O transeunte mesmo não está sendo vítima”. É digno de nota que a declaração não tenha causado escândalo – e nem mesmo muitas críticas.
Para o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, que há mais de uma década vem fazendo mapas de violência no Brasil, a situação da violência chegou a um ponto do que ele chama de pandemia. “É um problema estrutural, mais difícil de cuidar. A violência está incorporada”.
“A identificação do brasileiro como ‘homem cordial’ não se sustenta mais”, lamenta ele.
Décio Viotto
No Pública
*comtextolivre

AQUÍFERO GUARANI - Invasão gota a gota

do Burgos
Os EUA cada vez mais tem cercado a América do Sul com suas bases militares. indica um perigo futuro aos habitantes desse continente. Principalmente aos modadores da região do Aquífero Guarani, o maior reservatório de água doce do Mundo, localizado numa região que engloba imenso território no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.
O governo dos EUA sempre bate na tecla que na tríplice fronteira há "terrorismo internacional".
Se lembrarmos que, historicamente, para quase todos os conflitos que entraram os norte-americanos, foi usado um motivo inventado, isso no mínimo deveria nos deixar de orelhas em pé.


*GilsonSampaio