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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
sábado, abril 27, 2013
sexta-feira, abril 26, 2013
Acervo digital disponibiliza
toda a obra de Paulo Freire. Estão disponíveis para download gratuito
vídeos de aulas, conferências, palestras, entrevistas, artigos e livros
do educador
O Centro de Referência Paulo Freire, dedicado a preservar e divulgar a memória e o legado do educador, disponibiliza vídeos das aulas,
conferências, palestras e entrevistas que ele deu em vida. A proposta
tem como objetivo aumentar o acesso de pessoas interessadas na vida,
obra e legado de Paulo Freire.
Para os interessados em aprofundar os ensinamentos freirianos, o Centro de Referência também disponibiliza artigos e livros que podem ser baixados gratuitamente.
Educação como liberdade
Internacionalmente respeitado, os livros
do educador foram traduzidos em mais de 20 línguas. No Brasil,
tornou-se um clássico, obrigatório para qualquer estudante de pedagogia
ou pesquisador em educação. Detentor de pelo menos 40 títulos honoris
causa (concedidos por universidades a pessoas consideradas notáveis),
Freire recebeu prêmios como Educação para a Paz (Nações Unidas, 1986) e
Educador dos Continentes (Organização dos Estados Americanos, 1992).
“Defendo a educação desocultadora de
verdades. Educando e educadores funcionando como sujeitos para desvendar
o mundo”, dizia Freire. A educação como prática da liberdade, defendida
por ele, enxerga o educando como sujeito da história, tendo o diálogo e
a troca como traço essencial no desenvolvimento da consciência crítica.
Clique aqui para acessar o acervo Paulo Freire
Leia matérias da edição especial sobre Paulo Freire na Fórum 50:
Paulo Freire: o andarilho da utopia
O pensador do século XXI
A prática da liberdade
*revistaforum
Cristina K enquadra Gilmar.
Ah, que inveja da Argentina !
Na Argentina, a Cristina desafiou a Globo ! Aqui, é o contrário !
Saiu na Folha (*), que financiou a tortura:
Câmara argentina aprova reforma do Poder Judiciário
Parte do texto ainda vai ao Senado; restrição de liminares é uma das mudanças. Eleição de membros de órgão que fiscaliza a magistratura é outra novidade.
Os oficialistas fizeram valer sua maioria na Casa para restringir liminares contra o Estado –sua vigência não poderá exceder seis meses, prorrogáveis por mais seis– e para criar três “câmaras de cassação” que visam, segundo o governo, diminuir o acúmulo de processos no Supremo.
Outro dos principais pontos controversos da reforma é a mudança no Conselho da Magistratura –órgão que, na Argentina, elabora listas de candidatos a juiz, supervisiona suas atividades e pode impor sanções a eles.
O projeto kirchnerista aumenta o número de membros do conselho (de 13 para 19) e principalmente determina, a partir de 2015, eleição direta para 12 das 19 vagas: três juízes, três advogados e seis acadêmicos, os quais terão de ser indicados pelos partidos.

Ao assumir, Néstor Kirchner substituiu os ministros do Supremo nomeados por Carlos Menem, neolibelês (**), como FHC.
Foi como se Lula destituísse, na origem, o Gilmar Dantas (***), a “herança maldita” do Farol de Alexandria.Tanto que, como diz aquele amigo navegante, se ele perder para o Amaury, a plataforma-36 da Academia das Letras, FHC entra com um HC Canguru para o Gilmar, nas férias do Judiciário.
A Argentina, como se sabe, humilha o Brasil em vários pontos.
Os Coronel Ustra estão na cadeia.
A Globo teve que engolir uma Ley de Medios.
E, agora, o CNJ será, em parte, escolhido pelo povo.
Ou a Democracia é um regime monárquico ?
Onde o Supremo se faz o Supremo Tapetão da minoria – clique aqui para ler a entrevista o ansioso blogueiro com o deputado Nazareno Fonteles ?
Clique aqui para ler sobre o Golpe da “mutação constitucional”, o “truque hermenêutico”, promovido por Gilmar Dantas (***).
Clique aqui para ler o Nassif: “Gilmar é um irresponsável !”.
(Nassif, como se sabe, é uma pessoa educada …)
Em tempo: o Bom (?) Dia Brasil desta sexta-feira dedicou 96′ à demolição do programa Minha Casa Minha Vida. Enquanto isso, a SECOM engorda a Globo e a Petrobras patrocina a F-1, em que atleta brasileiro não ganha (se compete …).
Em tempo2: quando é que a SECOM vai buscar o BV da Petrobrás na Globo ?
Paulo Henrique Amorim
Analfabeto é quem não tem o que dizer (Aprendi a admirar o maior vencedor do Brasil contemporâneo: Lula.)
No jornal Correio do Povo do dia 25 de abril, o jornalista e escritor
Juremir Machado da Silva, arrebenta com os preconceituosos que não
engoliram o fato de Lula ter se tornado colunista do jornal mais
influente do mundo, o The New Yor Times. Para Juremir "Saber escrever é
muito mais do que dominar regras gramaticais. Saber escrever é ter o que
dizer e ter um jeito próprio de fazer isso...”. Lula sabe. Leia,
abaixo, a íntegra do texto de Juremir:
O grande vencedor
Minha admiração por vencedores não tem tamanho. Em todas as áreas.
Admiro principalmente os que vencem pelas próprias forças contra tudo e
todos. Minha admiração por Dunga é incomensurável. Por Felipão também.
Já critiquei o atual treinador da Seleção, mas sem perder a admiração.
Dunga e Felipão parecem sempre mal-humorados. No caso deles, é
qualidade. Vem da sinceridade à flor da pele. Admirei um vencedor até as
últimas consequências: o escritor argentino Jorge Luís Borges, que
ficou cego. Admiro o mulato Machado de Assis, que se tornou nosso maior
escritor. Enfim, admiro os que arrombam a festa. Admiro Roberto Carlos,
Caetano Veloso e Chico Buarque.
Aprendi a admirar o maior vencedor do Brasil contemporâneo: Lula.
Que trajetória espantosa! O menino retirante de Pernambuco superou todas
as expectativas e continua a nos embasbacar. Lula é um gênio da
comunicação e da política. Um Pelé da esfera pública. A minha admiração
por Lula acaba de dar mais um salto. Ele será colunista do jornal mais
prestigioso do mundo: o americano The New York Times. Nem o sofisticado
doutor Fernando Henrique Cardoso, que eu saiba, conseguiu tal façanha.
Lula terá como colegas gente do quilate de Paul Krugman, prêmio Nobel da
economia. É conto de fadas dos bons. O menino pobre, não pela bola, mas
pela inteligência política, galga todos os degraus, torna-se presidente
do Brasil, fascina boa parte do mundo e torna-se colunista do jornal
mais influente da galáxia. Uau!
É para matar de raiva os preconceituosos que o chamam de analfabeto e
para fazer explodir de inveja os elitistas. Tenho minhas decepções com
Lula e com muitos daqueles que admiro, mas isso não anula o essencial:
as razões para continuar admirando. Jamais gostei das alianças de Lula e
acho que em alguns momentos ele foi Lulla. Mas que fera política, que
inteligência superior, capaz de, independentemente de educação formal,
colocá-lo acima dos seus concorrentes num “mercado” altamente
competitivo.
Saber escrever é muito mais do que dominar regras de gramática. Saber
escrever é ter o que dizer e ter um jeito próprio de fazer isso. Lula é
possivelmente o maior comunicador da história do Brasil. Um monstro.
Este Brasil teve na sua história três grandes políticos: Getúlio Vargas,
João Goulart e Lula. O primeiro, por mudar o Brasil, saiu morto do
palácio. O segundo, por colocar o país em risco de uma melhora
substancial, especialmente no campo, foi derrubado, enxovalhado e
transformado em homem fraco. O terceiro veio do nada e nada temeu:
impôs-se como um revolucionário reformista, aceitou jogar o jogo até
quando as cartas se embaralham, não morreu, não caiu, fez sua sucessora e
agora vai mostrar suas ideias ao mundo nas páginas do The New York
Times. É mole? É simulação? É coisa para quem tem bala na agulha,
farinha no saco e fala outra linguagem, não a dos bacharéis, mas a dos
transformadores do mundo.
Estou tendo um acesso de lulismo? É uma confissão de petismo? Nada
disso. Apenas uma maneira de mostrar o quanto admiro os que vencem pelo
talento. Poderia dizer o mesmo do conservador Charles de Gaulle. Ou até
da recém-falecida Margaret Thatcher. O talento de uns melhora o mundo, o
de outros piora.
*Ajusticeiradeesquerda
História do 1 de Maio
Um
dia de rebelião, não de descanso! Um dia não ordenado pelos indignos
porta-vozes das instituições, que trazem os trabalhadores encadeados! Um
dia no qual o trabalhador faça suas próprias leis e tenha o poder de
executá-las! Tudo sem o consentimento nem a aprovação dos que oprimem e
governam. Um dia no qual com tremenda força o exército unido dos
trabalhadores se mobilize contra os que hoje dominam o destino dos povos
de todas as nações.
Um
día de protesto contra a opressão e a tirania, contra a ignorância e as
guerras de todo tipo. Um día para começar a desfrutar de oito horas de
trabalho, oito horas de descanso e oito horas para o que nos der gana.
(Panfleto que circulava em Chicago em 1885)
A cada ano, o 1o de
Maio rememora o assassinato de cinco sindicalistas norte-americanos, em
1886, numa das maiores mobilizações operárias celebradas naquele país,
reivindicando a jornada laboral de oito horas.
Em julho de 1889, o I Congresso da II Internacional acordou celebrar o 1o de
Maio como jornada de luta do proletariado de todo o mundo e adotou a
seguinte resolução histórica: “Deve organizar-se uma grande manifestação
internacional numa mesma data de tal maneira que os trabalhadores de
cada um dos países e de cada uma das cidades exijam simultaneamente das
autoridades públicas limitar a jornada laboral a oito horas e cumprir as
demais resoluções deste Congresso Internacional de Paris”.
Como em
outras partes do mundo, a situação dos trabalhadores nos Estados Unidos
no final do século XIX era muito difícil. Sem embargo, emigrantes de
diversos países europeus iam para lá em busca de uma melhor situação
econômica. Em 1886, um escritor estrangeiro retratou Chicago assim: “Um
manto abrumador de fumo; ruas cheias de gente ocupada, em rápido
movimento; um grande conglomerado de vias ferroviárias, barcos e tráfico
de todo tipo; una dedicação primordial ao Dólar Todo-poderoso”. Era uma
cidade com um proletariado de imigrantes, arrastado pelo capitalismo
para a periferia duma cidade industrial. A grande maioria dos
proletários, especialmente em cidades como Chicago, eram da Alemanha, da
Irlanda, da Boêmia, da França, da Polônia ou da Rússia. Ondas de
operários lançados uns contra os outros, comprimidos em tugúrios e
açodados por guerras étnicas. Muitos eram camponeses analfabetos, mas
outros já estavam temperados pelas lutas de classes.
No inverno
de 1872, um ano depois da Comuna de Paris, em Chicago, milhares de
operários sem lar e famintos por causa do grande incêndio, fizeram
manifestações pedindo ajuda. Muitos levavam cartazes nos quais estava
inscrita a consigna “Pão ou sangue”. Receberam sangue. A repressão
policial os obrigou a refugiar-se no túnel sob o rio Chicago, onde foram
tiroteados e golpeados.
Em 1877,
outra grande onda de greves se estendeu pelas redes ferroviárias e
desatou greves gerais nos centros ferroviários, entre eles Chicago, onde
as balas da polícia dispersaram as enormes concentrações de grevistas
daquele ano.
Daquelas
lutas nasceu uma nova direção sindical, especialmente de imigrantes
alemães, conectados com a I Internacional de Marx e Engels. O
proletariado alemão tinha uma contagiosa consciência de classe:
aprendida, moldada por uma experiência complexa, profundamente hostil ao
capitalismo mundial. Como todos os revolucionários, eram odiados,
temidos e difamados ao mesmo tempo. A seu lado estava um lutador oriundo
dos Estados Unidos, Albert Parsons. Assim se deu uma fusão da
experiência política de dois continentes, do tumulto da Europa e do
movimento contra a escravidão dos Estados Unidos. Nos agitados anos da
emancipação dos escravos, Parsons fora um republicano radical que havia
desafiado a sociedade texana burguesa casando-se con uma escrava mestiça
liberta, Lucy Parsons, que chegou a ser uma figura política por si
mesma. Albert Parsons militou muito tempo na Liga das Oito Horas, mas
até dezembro de 1885 escrevera em seu jornal Alarma: “A nós, da
Internacional [fazia referência à anarquista IWPACOR] nos perguntam com
frequência por que não apoiamos ativamente o movimento da proposta de
oito horas. Coloquemos a mão naquilo que podemos conseguir, dizem nossos
amigos das oito horas, por que se pedimos demais poderíamos não receber
nada. Contestamos: porque não fazemos compromissos. Ou nossa posição de
que os capitalistas não têm nenhum direito à posse exclusiva dos meios
de vida é verdade ou não é. Se temos razão, reconhecer que os
capitalistas têm direito a oito horas de nosso trabalho é mais que um
compromisso; é uma virtual concessão de que o sistema de salários é
justo”. A imprensa anarquista sustentava: “Ainda que o sistema de oito
horas se estabelecesse nesta tardia data, os trabalhadores assalariados…
seguiriam sendo os escravos de seus amos”.
Após
recuperar-se dos acontecimentos de 1877, o movimento operário se
propagou como um incêndio incontrolável, especialmente quando se
concentrou na demanda da jornada de oito horas.
Naquela
época, havia duas grandes organizações de trabalhadores nos Estados
Unidos. A Nobre Orden dos Cavalheiros do Trabalho (The Noble Orden of
the Knights of Labor), majoritária, e a Federação de Grêmios Organizados
e Trade-uniões (Federation of Organized Traders and Labor Union). No IV
Congresso desta última, celebrado em 1884, Gabriel Edmonston apresentou
uma moção sobre a duração da jornada de trabalho, que dizia: “Que a
duração legal da jornada de trabalho seja de oito horas diárias a partir
do 1o de
Maio de 1886”. A moção foi aprovada e se converteu numa reivindicação
também para outras organizações não afiliadas ao sindicato.
No 1o de
Maio de 1886, os trabalhadores deviam impor a jornada de oito horas e
fechar as portas de qualquer fábrica que não a aceitasse. A demanda de
oito horas se transformaria, de uma reivindicação econômica dos
trabalhadores contra seus patrões imediatos, na reivindicação política
duma classe contra outra.
O plano
recebeu uma tremenda e entusiástica acolhida. Um historiador escreve:
“Foi pouco mais que um gesto que, devido às novas condições de 1886, se
converteu numa ameaça revolucionária. A efervescência se estendeu por
todo o país. Por exemplo, o número de membros da Nobre Ordem dos
Cavalheiros do Trabalho subiu de 100.000 no verão de 1885 para 700.000
no ano seguinte”.
O movimento
das oito horas recebeu um apoio tão caloroso porque a jornada de
trabalho típica era de 18 horas. Os trabalhadores deviam entrar na
fábrica às 5 da manhã e retornavam às 8 ou 9 da noite; assim, muitos
trabalhadores não viam sua mulher e seus filhos à luz do dia. Os
operários, literalmente, trabalhavam até morrer; sua vida era conformada
pelo trabalho, por um pequeno descanso e pela fome. Antes que os
trabalhadores como classe pudessem levantar a cabeça em direção a
horizontes mais distantes, necessitavam momentos livres para pensar e
formar-se.
Nas ruas, trabalhadores rebeldes cantavam:
Nós propomos refazer as coisas.
Estamos fartos de trabalhar para nada,
escassamente para viver,
jamais uma hora para pensar.
Antes da primavera de 1886 começou uma onda de greves em escala nacional. “Dois meses antes do 1o de
Maio”, escreve um historiador, “ocorreram repetidos distúrbios [em
Chicago] e se viam com frequência veículos cheios de policiais armados
que corriam pela cidade”. O diretor do Chicago Daily News escreveu: “Se
predizia uma repetição dos motins da Comuna de Paris”.
Em fevereiro
de 1886, a empresa McCormick, de Chicago, despediu 1.400 trabalhadores,
em represália a uma greve que os trabalhadores da empresa, dedicada a
fabricar máquinas agrícolas, haviam realizado no ano anterior. Os
Pinkertons, uma espécie de polícia privada empresarial, vigiavam todos
os passos dos grevistas, foram contratados muitos espiões, mas a greve
durou até o 1o de
Maio. Ao manter-se a greve e aproximar-se a data chave que o IV
Congresso havia sinalizado, ia-se associando a idéia de coordenar essas
duas ações.
Nesse dia,
20.000 trabalhadores paralisaram em distintos Estados, reivindicando a
jornada de oito horas de trabalho. Os trabalhadores em greve da empresa
McCormick também se uniram ao protesto.
O 1o de
Maio era o dia chave para exigir o novo horário; todos os comentários e
expectativas estavam centralizadas naquela data, e se aproveitou mais
ainda o descontentamento dos trabalhadores e a greve de Chicago.
Naquele dia
os operários dos maiores complexos industriais dos Estados Unidos
declararam uma greve geral. Exigiam a jornada laboral de oito horas e
melhores condições de trabalho.
A imprensa
burguesa reagiu contra os protestos dos trabalhadores; por exemplo,
nesse mesmo dia o jornal New York Times dizia: “As greves para obrigar o
cumprimento da jornada de oito horas podem fazer muito para paralisar a
indústria, diminuir o comércio e frear a renascente prosperidade do
país, mas não poderão lograr seu objetivo”. Outro jornal, o Philadelphia
Telegram disse: “O elemento laboral foi picado por uma espécie de
tarântula universal, ficou louco de remate. Pensar nestes momentos
precisamente em iniciar uma greve para conquistar o sistema de oito
horas…”.
Esse
Primeiro de Maio de 1886 foi tão agitado como se havia prognosticado.
Realizou-se uma greve geral em Wilkawee, onde a polícia matou 9
trabalhadores. Em Louisville, Filadelfia, San Luis, Baltimore e Chicago,
produziram-se enfrentamentos entre policiais e trabalhadores, sendo o
ato desta última cidade o de maior repercussão. Chicago, onde também
estava a greve dos trabalhadores da empresa McCormick, foi o símbolo da
luta e do sacrifício dos trabalhadores. Ali os acontecimentos foram
especialmente trágicos. Para reprimir os grevistas, a burguesía urdiu
uma provocação: em 4 de maio, na praça de Haymarket, onde se celebrava
uma maciça assembléia operária, explodiu uma bomba. Era a senha para que
os policiais da cidade e os soldados da guarnição local abrissem fogo
contra os grevistas.
Os
acontecimentos ocorridos nos Estados Unidos em maio de 1886 tiveram uma
imensa repercussão mundial. No ano seguinte, em muitos países os
operários se declararam em greve simultaneamente, símbolo de sua unidade
e fraternidade, passando por cima de fronteiras e nações, em defesa de
uma mesma causa.
Como
resultado da greve, os patrões fecharam as fábricas. Mais de 40.000
trabalhadores se puseram em pé de guerra. Começou una repressão maciça
não só em Chicago, principal centro do movimento grevista, senão que
também por todo os Estados Unidos. A burguesia desatou uma de suas
típicas campanhas de propaganda de ódio contra a classe operária e os
sindicatos. Aos operários, os encarceravam às centenas.
Em 21 de junho de 1886, teve início o processo contra 31 responsáveis, que logo foram reduzidos a 8.
O sistema
judicial fez o resto: passou por cima de sua própria legalidade e, sem
prova nenhuma de que os acusados tivessem algo a ver com a explosão em
Haymarket, ditou uma sentença cruel e infame: prisão e morte.
Prisão
• Samuel Fielden, inglês, 39 anos, pastor metodista e operário têxtil, condenado à cadeia perpétua.
• Oscar Neebe, estadunidense, 36 anos, vendedor, condenado a 15 anos de trabalhos forçados.
• Michael Swabb, alemão, 33 anos, tipógrafo, condenado à cadeia perpétua.
Morte na forca
Em 11 de novembro de 1887, consumou-se a execução de:
• Georg Engel, alemão, 50 anos, tipógrafo.
• Adolf Fischer, alemão, 30 anos, jornalista.
•
Albert Parsons, estadunidense, 39 anos, jornalista, esposo da mexicana
Lucy González Parsons, ainda que se tenha provado que não esteve
presente no lugar, entregou-se para estar com seus companheiros e foi
igualmente condenado.
• Hessois Auguste Spies, alemão, 31 anos, jornalista.
• Louis Linng, alemão, 22 anos, carpinteiro, para não ser executado suicidou-se em sua própria cela.
Aquele
crime legal tinha um só objetivo: não permitir que se estendessem os
protestos operários e atemorizar os operários por muito tempo. Um
capitalista de Chicago reconheceu: “Não considero que essa gente seja
culpada de delito algum, mas deve ser enforcada. Não temo a anarquía em
absoluto, posto que se trata de um esquema utópico de uns poucos, muito
poucos loucos filosofantes e, ademais, inofensivos; mas considero que o
movimento operário deve ser destruído”.
Principais declarações dos processados
Albert Parsons (1845-1887),
estadunidense, jornalista
| “Nos Estados do sul meus inimigos eram os que exploravam os escravos negros; nos do norte, os que querem perpetuar a escravidão dos operários.” |
August Spies (1855 -1887),
alemão, jornalista
| “Neste tribunal eu falo em nome duma classe e contra outra.” |
George Engel (1836-1887),
alemão, tipógrafo
| “Todos os trabalhadores devem preparar-se para uma última guerra que porá fim a todas as guerras.” |
Adolph Fischer (1858-1887),
alemão, jornalista
| “Sei que é impossível convencer os que mentem por oficio: os mercenários diretores da imprensa capitalista, que cobram por suas mentiras.” |
Luis Lingg (1864-1887),
alemão, carpinteiro
| “Os Estados Unidos são um país de tirania capitalista e do mais cruel despotismo policialesco.” |
Michael Schwab (1853-1898),
alemão, tipógrafo
| “Milhões de trabalhadores passam fome e vivem como vagabundos. Inclusive os mais ignorantes escravos do salário se põem a pensar. Sua desgraça comum os move a compreender que necessitam unir-se e o fazem.” |
Samuel Fielden (1847-1922),
inglês, pastor metodista e
operário têxtil
| “Os operários nada podem esperar da legislação. A lei é somente um biombo para aqueles que os escravizam.” |
Óscar Neebe (1850-1916),
estadunidense, vendedor
| “Fiz o quanto pude para fundar a Central Operária e engrossar suas fileiras; agora é a melhor organização operária de Chicago; tem 10.000 afiliados. É o que posso dizer de minha vida operária.” |
*centrodosocialismo
A ALEMANHA, DE NOVO.
(JB)-Todos
os povos do mundo têm seu orgulho nacional, o que os faz supor serem melhores
que os demais. Em alguns casos, ostentam seus conhecimentos técnicos; em
outros, seu talento artístico, e, nos casos extremos, a excelência racial. Em
nome dessa superioridade, reivindicam o direito de governar os outros povos.
Mas, no interior dessas sociedades presunçosas há – felizmente – os que
percebem as coisas com lucidez.
A Alemanha é um país estranho. Deu ao mundo alguns dos melhores pensadores
humanistas, ao longo dos séculos. As idéias igualitárias encontraram ali o
terreno fértil para que se desenvolvessem e encontrassem instrumentos coletivos
de transformação da sociedade. As idéias socialistas nasceram da associação entre
o pensamento filosófico, a solidariedade e a luta dos trabalhadores contra a
opressão. Ao mesmo tempo, ali medraram o militarismo, o culto ao corpo, a
fascinação pela beleza, e o desprezo aos débeis, aos pacifistas, aos enfermos,
aos diferentes de um modo geral.
O racismo sempre existiu em todos os povos, mas na Alemanha ele conduziu
à brutalidade que se conhece.
Ontem, Portugal lembrou a bela jornada da Revolução dos Cravos. Suas razões,
seus atos e seus resultados são conhecidos. Os portugueses se livraram da carga
de um colonialismo anacrônico, redigiram uma constituição avançada, deram
passos enormes rumo a um regime plenamente democrático. A direita, no entanto,
ao tomar o governo fez reverter essas conquistas, e Portugal se entregou às
razões neoliberais, além de aliar-se a Washington, seguindo a Espanha, na ação
contra o Iraque. Um ano depois de Lisboa, era a vez de Madri – com mais
dificuldades, é certo – iniciar o processo de sepultamento do período
ditatorial de Franco.
Espanha e Portugal passam hoje por imensas dificuldades sociais. Quase um
terço dos espanhóis em idade de trabalhar estão desempregados (27,16%). Em
Portugal, a taxa é menor (17,5%), mas as dificuldades não o são.
Os dois países executam uma política orçamentária enlouquecida, a fim de pagar
as dívidas assumidas com o sistema financeiro internacional. Mas se a situação
é grave na Península Ibérica, não é muito melhor no continente. A Itália, que
havia sido entregue a um fiel servidor dos bancos, Mario Monti, não conseguiu
superar a crise política, e teve que se apoiar em um dos poucos homens sensatos
do país, Giorgio Napolitano. A França começa a assustar-se com o desemprego. Os
britânicos não saem das ruas, em protesto contra a mal chamada “austeridade”.
Como lembrou o grande estadista português Mário Soares, em entrevista
reproduzida ontem neste jornal, os países podem deixar de pagar seus débitos,
se não conseguirem fazê-lo, e ninguém morre por isso. É velho o entendimento de
que, embora todos devam cumprir os pactos, situações de força maior conduzem às
renegociações necessárias.
A crise econômica européia é conseqüência das fraudes e incompetência de
alguns dos grandes bancos do mundo que se associaram para a prática do crime
organizado. Em lugar de punir os banqueiros irresponsáveis, que devem responder
com seus bens e o castigo da justiça aos delitos cometidos, os governantes
europeus, sob a arrogante determinação de Frau Merkel, exigem os sacrifícios de
seus povos, a fim de reunir os recursos a serem pagos ao “mercado”.
A situação é dramática, com hospitais sendo fechados; a mortalidade infantil
retornando, o desespero assolando as camadas mais débeis da sociedade, e o
racismo em ascensão.
O presidente de Portugal, Cavaco Silva, embora tenha feito um discurso dúbio,
resumiu a situação de que o país está sofrendo “fadiga de austeridade”, da
mesma austeridade que todos os governantes europeus estão impondo a seus
cidadãos. Mas não deixou de exigir que Portugal “honre seus compromissos”, ou
seja, que continue a sua política de corte de gastos sociais.
A pequena e sacrificada Grécia, submetida a um regime de fome pelas
exigências da “troica” (A Comissão Européia, o Banco Central Europeu e o Fundo
Monetário Internacional) parece decidida a reclamar da Alemanha 126 bilhões de
euros, como reparação de guerra. Durante três anos de ocupação do país, de 1941
a 43,
os alemães mataram de fome mais de 300.000 pessoas, destruíram toda a
infraestrutura do território e obrigaram os gregos a pagar todos os
gastos da ocupação. Sabemos que sua postulação é inútil. Os alemães não
tomarão conhecimento da reclamação.
E, tal como ocorreu com a Europa dos anos 30 e 40, todos procuram
apaziguar-se com Berlim. A Alemanha que, com Willy Brandt, deu provas ao mundo
de sua disposição para a paz, recorre hoje à sua superioridade econômica a fim
de avançar no velho propósito de dominar o continente. A única esperança é a de
que a outra Alemanha reaja nas urnas e volte ao bom senso de homens como
Brandt. É provável que ainda haja alguns.
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