Páginas

Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quarta-feira, agosto 20, 2014

Saiba como a sólida parceria firmada entre os países emergentes Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul

‪#‎BRICS‬ Saiba como a sólida parceria firmada entre os países emergentes Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul consolidou-se como força positiva para democratização das relações internacionais com cooperação de seus membros em mais de 30 áreas: http://goo.gl/UJIPqS
* Os BRICS, reunidos, estendem-se por 26% da área terrestre do planeta e abrigam 46% da população mundial. Em matéria de crescimento econômico, os BRICs encontram-se à frente do prognóstico de 2001 (África do Sul não incluída): 18% do PIB mundial, à frente da previsão original do Banco Goldman Sachs, de 14,2%.
A participação dos BRICS nas exportações mundiais, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), mais do que dobrou no período entre 2001 e 2011, passando de 8% para 16%. Nesses onze anos, o volume total de exportações dos BRICS cresceu mais de 500%, comparado com o crescimento de cerca de 190% do montante global de exportações. Entre 2002 e 2012, o comércio intra-BRICS cresceu 922%, de US$ 27 a 276 bilhões. Entre 2010 e 2012, o fluxo comercial do BRICS aumentou 29%, de US$ 4,7 trilhões para US$ 6,1 trilhões.
Fonte: MRE

terça-feira, agosto 19, 2014

Postura imperial de Bonner faz parecer que a Globo não tem mazelas

A postura supostamente independente de Bonner, agressivo com todos os candidatos, faz parecer que as Organizações Globo são exemplo de ética, que nunca apoiaram a ditadura militar, nem tentaram “ganhar” eleições no grito

william bonner dilma jornal nacional
William Bonner está assumindo o papel de garoto-propaganda da criminalização da política (reprodução)
Luiz Carlos Azenha, Viomundo
Trata-se de um simulacro de jornalismo, que nem original é. Nos Estados Unidos, muitos âncoras se promoveram com agressividade em suposta defesa do “interesse público”. Eu friso o “suposta”. Lembro-me de um, da CNN, que fez fama atacando a invasão do país por imigrantes ilegais. Hoje muitos âncoras do jornalismo policial fazem o mesmo estilo, como se representassem a sociedade contra o crime.
William Bonner está assumindo o papel de garoto-propaganda da criminalização da política. Ao criminalizar a política, fazendo dela algo sujo e com o qual não devemos lidar, ganham as grandes corporações midiáticas. Quanto mais fracas forem as instituições, mais fortes ficam as empresas jornalísticas para extrair concessões de todo tipo — do Executivo, do Legislativo, do Judiciário.
postura supostamente independente de Bonner, igualmente agressivo com todos os candidatos, faz parecer que as Organizações Globo pairam sobre a política, que nunca apoiaram a ditadura militar, nem tentaram “ganhar” eleições no grito. Que os irmãos Marinho não fazem politica diuturnamente, com lobistas em Brasília. Que os irmãos Marinho não tem lado, não fazem escolhas e nem defendem com unhas e dentes, se preciso atropelando as leis, os seus interesses. Como em “multa de 600 milhões de reais” por sonegar impostos na compra dos direitos de televisão das Copas de 2002 e 2006.
A agressividade de Bonner também ajuda a mascarar onde se dá a verdadeira manipulação da emissora, nos dias de hoje: na pauta e no direcionamento dos recursos de investigação de que a Globo dispõe. Exemplo: hoje mesmo, no Bom Dia Brasil, uma dona-de-casa do interior de São Paulo explicava como está fazendo para economizar água.
A emissora não teve a curiosidade de explicar que a seca que afeta milhões no Estado não é apenas um problema climático, resulta também de falta de investimentos do governo de Geraldo Alckmin, que beneficiou acionistas da Sabesp quando deveria ter investido o dinheiro no aumento da capacidade decaptação de água. Uma pauta complicada, não é mesmo?
A não ser que eu esteja enganado, a Globo não deslocou um repórter sequer para visitar o aeroporto de Montezuma, que Aécio Neves mandou reformar quando governador de Minas Gerais perto das terras de sua própria família. Vai ver que faltou dinheiro.
Tanto Alckmin quanto Aécio são tucanos. Na entrevista com Dilma, Bonner listou uma série de escândalos. Não falou, obviamente, de escândalos relacionados à iniciativa privada, nem em outras esferas de governo. Dilma poderia muito bem tê-lo lembrado disso, deixando claro que a corrupção é uma praga generalizada, inclusive na esfera privada, envolvendo entre outras coisas sonegação gigantesca de impostos. Mas aí já seria coisa para o Leonel Brizola.
*PragmatismoPolitico

CPMI METRÔ INSTALADA

A VEZ DA JUSTIÇA
A resistência do PSDB, de Aécio Neves e Geraldo Alckmin, não foi suficiente para barrar a instalação da CPMI do Metrô de São Paulo.
A investigação do esquema - que causou prejuízo de 2,5 bilhões de reais aos cofres públicos - é urgente para o deputado Renato Simões (PT-SP).
“Se tem alguma bancada com compromisso histórico de fiscalização das irregularidades do governo estadual de São Paulo é a bancada do Partido dos Trabalhadores”, ressaltou.
Segundo o parlamentar, a imprensa brasileira realizou uma “blindagem absurda que, em 20 anos, impediu efetivamente que o governo de São Paulo fosse fiscalizado”.
Leia mais na Agência PT de Notícias: http://bit.ly/1owEWK7

A data dessa sessão de tortura midiática entra agora para a história do jornalismo brasileiro como exemplo de falta de compostura profissional.

Duas batalhas cruciais eclodiram em Ferguson, Missouri, essa semana.

EUA: A economia do militarismo policial

 [*] Sarah StillmanThe New Yorker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militarização das Polícias Civis
Duas batalhas cruciais eclodiram em Ferguson, Missouri, essa semana. A primeira começou com a onda de tristeza e fúria popular, depois que um jovem de 18 anos, Michael Brown, foi morto por um policial em Canfield Court, no subúrbio de St. Louis, às 14h15, sábado passado (9/8/2014). Depois, começou a ação dos policiais nas primeiras rodadas de manifestações públicas. Os policiais saíram às ruas com uma frota de blindados, rifles de ataque, bombas de gás lacrimogêneo, o que reintroduziu na consciência coletiva a expressão “militarização da polícia civil” (como já se devia esperar; quem duvide, deve ler ou reler The Rise of the Warrior Cop [A ascensão do policial guerreiro], de Radley Balko.

Num momento, vê-se um jovem com uma marca de tiro de bala de borracha entre os olhos; momento seguinte, três policiais com armas enormes atiram contra outro homem negro, que tem as mãos erguidas.

Jelani Cobb
Na 5ª-feira (14/8/2014), Jelani Cobb publicou  potente relato  do que se via nas calçadas e lares, em Ferguson. Cobb perguntava sobre

(...) as questões econômicas e de aplicação da lei interconectadas naqueles protestos,  entre as quais, por exemplo, as custas processuais e multas que muita gente em Ferguson tem de pagar, e que com frequência começam por infrações menores até que se convertem “elas mesmas, em violações sempre crescentes.

Temos gente aqui que é procurada por causa de multas de trânsito, obrigada a viver praticamente como prisioneiro dentro da própria casaNão podem sair de casa, porque serão presos por causa daquelas dívidas. Em alguns casos, as pessoas até tinham empregos, mas decidiram que o risco de serem presos não compensava a tentativa de sair de casa para o trabalho, disse a Cobb, Malik Ahmed, presidente de uma organização chamada “Better Family Life” [Melhor Vida Familiar].

A crise das dívidas com a justiça criminal é um dos muitos afluentes que alimentaram o rio caudaloso da fúria profunda que tomou conta de Ferguson. Mas é afluente importante – tanto porque é problema que se vê em todos os cantos da região, como, também, porque é problema que facilmente desaparece de cena ante o espetáculo-gigante dos tanques e canhões giratórios. No início desse ano, passei seis meses acompanhando o crescimento do valor de custas e multas nos tribunais nos EUA, que acontece pela proliferação de taxas e multas aplicadas a quaisquer pequenas infrações – e que é parte de um movimento crescente na direção do que tenho chamado de “indústria da justiça custeada pelo infrator”. [1] Empresas privadas de cobrança são contratadas, em alguns estados, para cobrar multas não pagas. (Na maioria dos casos, é tática usada contra os mais pobres, que tenham multas de tráfego não quitadas). As reportagens que estão chegando de Ferguson levantam questões sobre como amilitarização da polícia e a coerção econômica pelos órgãos da justiça, alimentaram fúria que, hoje, já é difícil de controlar.

O Missouri foi dos primeiros estados a permitir a ação de empresas privadas de cobrança, no final dos anos 1980s, e desde então seguiu a tendência nacional de permitir que custas processuais e multas cresçam muito rapidamente. Agora, em grande parte dos EUA, o que começa como simples multa por excesso de velocidade pode, se você não conseguir pagar, converter-se numa dívida impagável, que não para de crescer, aumentada, se você não comparecer ao tribunal, por taxas de busca e prisão. (Não raras vezes, o não pagamento acontece não só por falta de meios mas também porque o devedor já não vive no endereço para onde a notificação é enviada, e não a recebe).

Alec Karakatsanis
O que mais se vê nos EUA é gente empobrecida, rotineiramente mandada para a cadeia por custas, impostos, taxas ou multas que não conseguempagar – disse Alec Karakatsanis, cofundador de “Equal Justice Under Law”, organização sem finalidades lucrativas de defesa de direitos civis, que começou a denunciar essa prática em cortes municipais.

São multas que crescem como bola de neve quando as multas não pagas são entregues, para cobrança, a empresas privadas, porque essas empresas acrescentam suas próprias taxas “de supervisão”. O que acontece em muitos bairros pobres dos EUA, quando alguém atrasa seus pagamentos? Muito frequentemente, a polícia bate à porta e leva o devedor para a prisão.

Daí em diante, a bola de neve só cresce.

Ser preso tem impacto muito grave na vida de pessoas que já estão à beira da pobreza. Já perderam o emprego, já perderam aguarda dos filhos, estão atrasados no pagamento da hipoteca da própria casa. – diz Sara Zampieren, do Southern Poverty Law Center.

Tudo isso somado, o efeito é “devastador”. Enquanto permanecem na prisão, as “multas de usuários” só se acumulam. De tal modo que quando você sai da cadeia, nem por isso está livre. Recente pesquisa feita pela National Public Radio mostrou que pelo menos em 43 estados dos EUA os réus podem ser cobrados pelo trabalho do Defensor Público – um serviço ao qual todos os norte-americanos têm direito garantido pela Constituição; e em pelo menos 41 estados nos EUA, os prisioneiros podem ser cobrados por “casa e comida” durante o tempo que permaneçam em detenção e prisão.

Agora, as polícias militarizadas dos EUA têm ferramentas muito visíveis à disposição delas; várias dessas ferramentas estiveram nas manchetes essa semana: metralhadoras, óculos para visão noturna, veículos blindados e, ao que parece, quantidade ilimitada de munição.

Mas essa arma econômica da militarização policial é quase sempre muito menos visível, e a “justiça custeada pelo infrator” é parte desse subarsenal. Os medos dos quais Cobb e Ahmed falam – dívidas cobradas por tribunais e polícias, e gente que, por causa dessas dívidas tem medo de sair de dentro de casa – são ingredientes da força que se viu ativada nos protestos e tumultos das ruas do Missouri.

PRISÃO - por Casey Serin
O medo dos devedores altera toda a vida diária – será que conseguem ir à padaria ou levar uma criança à escola, sem serem presos?

Esse medo impede as pessoas que tenham problemas, dechamar a polícia, e tira da polícia a capacidade para fazer o que se espera que policiais façam – ajudar as pessoas nas comunidades a responder a emergências – disse Karakatsanis.

É situação que corrói a confiança das comunidades e mata qualquer possibilidade de cooperação entre os agentes da lei e a própria comunidade.

No Alabama, “Equal Justice Under Law” impetrou ação conjunta contra a cidade de Montgomery, em nome de pequenos infratores que foram encarcerados por dívida; a ação está suspensa, e a cidade refutou as acusações, mas, diz Karakatsanis, pelo menos 35 pessoas foram libertadas da prisão, onde estavam por dívidas, desde o início da ação. (Um juiz já emitiu sentença preliminar a favor dos devedores). Mais frequentemente porém, os devedores que levam o problema aos tribunais não obtêm qualquer tipo de resultado favorável. Muitas vezes, essas dificuldades só fazem aumentar o ressentimento dos cidadãos e a desconfiança geral em relação a qualquer autoridade “pública”.

Há muitos anos, quando estava integrada às tropas em Kandahar, Afeganistão, passei muitas horas com uma unidade cuja tarefa era aplicar um conjunto de treinamentos chamados “Commander’s Guide to Money as a Weapons System” [Diretivas do Comando sobre Dinheiro como Sistema de Armamento]. Esse treinamento instrui os soldados a usar ferramentas econômicas para promover objetivos militares, e havia um alerta impresso nas páginas iniciais de um dos manuais que eles usavam:

Soldados combatentes e seus comandos devem cuidar para que suas ações sejam defensáveis ante Comissões de Inquérito do Congresso e não gerem problemas para o Departamento de Defesa.

EUA - mais prisões que escolas
Quanto a isso, o militarismo “real” tem pelo menos uma vantagem sobre o militarismo policial doméstico, pelo menos no plano doutrinal – entre militares “reais” o princípio é investimento genuíno nas comunidades, cuja confiança os militares esperam conquistar, para influenciar. Não surpreende que seja “teoria” sempre complicada de aplicar (que muito frequentemente falhou horrivelmente), mas, pelo menos em teoria, é de longe muito melhor que policiais ou militares abrindo caminho à bala em áreas civis. Nos EUA, dentro de casa, as equipes SWAT continuam a detonar as proverbiais linhas de força.

É sinal de esperança que o novo comandante de polícia de Ferguson, Capitão Ron Johnson, da Patrulha Rodoviária Estadual do Missouri (criado em Ferguson), pareça ter imediatamente entendido essa questão, ao assumir o cargo na 5ª-feira (14/8/2014).

Todos queremos justiça. Todos queremos respostas – disse ele à Associated Press − é pessoalmente importante para mim conseguirmos romper esse ciclo de violência.

Ao considerar a militarização da polícia, o lado econômico do fenômeno deve também ser considerado. A conexão pode não ser óbvia para quem jamais teve cortado o fornecimento de gás ou de energia elétrica da própria casa. Mas essas forças operam juntas – o gás cortado e as multas não pagas; o armamento e as intimações para “pagamento imediato” – o que agride lista imensa de direitos fundamentais que parecem, como em Ferguson e em outros locais, já terem virado fumaça.


[*] Sarah Stillman é jornalista da equipe da revista The New Yorker e professora visitante no Arthur L. Carter Journalism Institute da New York University. Escreve sobre os mais diversos temas tais como: confisco civil sobre obras irregulares, uso de drones por cartéis de drogas do México, direitos trabalhistas para trabalhadores de Bangladesh.
Recebeu o National Magazine Award for Public Interest por suas reportagens no Iraque e no Afeganistão sobre abusos de trabalho e tráfico de seres humanos em bases militares dos Estados Unidos.
Recebeu também os prêmios (awards): Michael Kelly, o Overseas Press Club’s, o Laurie Dine para Direitos Humanos, Direitos de Informação e o Hillman Prize  da Magazine Journalism. Sua repotagem sobre o alto risco do uso de jovens como informantes confidenciais na guerra contra as drogas recebeu o George Polk Award e o Molly National Journalism Prize.
Antes de ingressar na The New Yorker, Stillman escreveu sobre as guerras dos EUA no exterior e os desafios enfrentados pelos soldados na volta para casa no Washington Post, The Nation, New RepublicSlate e The Atlantic. Seus trabalhos estão incluídos no The Best American Magazine Writing 2012.


Nota dos tradutores
[1] 24/6/2014, The Leonard Lopate Show (rádio) em Profiting from Offenders When They Get Out of Jail (excerto traduzido) a seguir:

Alguns comparam o sistema de hoje à “justiça custeada pelo infrator” do tempo da prisão por dívidas do século XIX. Falei com vários advogados que disseram que se o contexto fosse um pouco diferente – se fossem empresas de cartões de crédito que estivessem perseguindo os devedores – com certeza estaríamos num quadro de prisão por dívidas e absolutamente inconstitucional. Mas o que temos é que são os próprios tribunais que obram para extrair cada vez mais dinheiro dos condenados. Assim, a prática conseguiu prosperar.

segunda-feira, agosto 18, 2014

Quando eu nasci já era impura, pecadora. Me batizaram – Nada de Livre arbítrio

Pedaços de mim

00


Por Ana Burke
.
Quando eu nasci já era impura, pecadora.
Me batizaram – Nada de Livre arbítrio
Me chantagearam: “Se você não segue a Jesus, vai ser condenada”
Me ameaçaram: “Se você não obedecer, vai ser atormentada no Inferno por toda a eternidade”
Me colocaram de joelhos porque deus queria assim
Me deram uma cruz porque deus amava o meu sofrimento
Me deram estátuas que tinham alma, podiam me ouvir e atender os meus pedidos. Sempre me ignoraram.
Algumas eram tão poderosas que poderiam me salvar…de quê eu nunca soube
Aliás, criança não tem que saber de nada, têm que obedecer porque adulto sabe o que faz – é o livre arbítrio. Afinal, Deus não pode ser contrariado! Ele sabe tudo, está em todos os lugares e me vigiava o tempo todo…Nada de Paz ou privacidade.
Eu ía ao Banheiro e lá estava Ele. Era um tormento fazer xixi…Esquece o resto!
…E lia os meus pensamentos – Melhor não pensar.
Eu gostava de “plantar bananeira” no gramado e o meu vestido ía parar no pescoço – Lá vinha chinelada na bunda…Nem “bunda” eu podia falar.
Pecado mostrar as vergonhas…Diabos! Eu nem sabia o que era sexo (não pode falar diabo)…Assim não dá! Pra mim a “coisa” era só uma máquina de fazer xixi e…Diabos! Falei novamente o nome da entidade malígna….Ai!
Entrei no teatro da igreja … me deram o papel de São Tomé. Muito bom!
Pelo menos este duvidava…era o mais inteligente
Depois é que eu percebi porque ninguém queria fazer o São Tomé!
Era proibido duvidar e questionar…têm que ter fé…
São Tomé era discriminado, um pária e só servia para dar o exemplo que nunca deve ser imitado. Diabos!…Falei de novo…Anta
E vieram os missionários na cidade…e lá fui eu me confessar…Que desastre!
Eu pensei…pensei…pensei…e não encontrava muitos pecados…inventei um “monte”, mas escondi que eu tinha uma cabana só minha do outro lado do rio e ficava lá horas lendo livros proibidos. E foi aí que eu descobri que deus não sabia era de nada…E os representantes dele também. Nem desconfiaram que eu soltei o passarinho do vizinho da gaiola e o coitadinho foi direto para o fogo no fogão…foi fritado…Não dormi por muito tempo.
Se deus sabia de tudo…via tudo…porque eu tinha que me confessar…espertos. Queriam era saber da minha vida e da vida da minha família. Conta tudo, me disseram! Pra que contar? Deus não sabe? Eu era rebelde…só até certo ponto. 
Eu acho que não foram muito com a minha “cara”.
Me deram um terço e uma bíblia. “Reza o terço todos os dias”…Barbaridade!
Ave Maria cheia de graça… Ave Maria cheia de graça… Ave Maria cheia de graça…mais o Pai Nosso…e Salve Raínha…e ainda por cima ir ao catecismo… E fazer as lições do catecismo…E as liçoes da escola? Não…isto parecia ser menos importante. Quando eu teria tempo pra brincar? Pra ler? Pra correr pelos pastos? …Nada de roubar laranja nas fazendas! Nada de subir em árvores…Nada de atravessar as pontes e andar pelos caminhos…Cachoeira? Nem pensar…E a minha cabana?
A molecada estava jogando queimada na rua…Droga de reza… Eu sempre dei um banho na molecada…não tinha um que conseguisse me queimar… E lá vem sermão! Menina não pode brincar com moleque! Sabiam de tudo…Deus ditava regras!
Me deram uma penitência pelos pecados que eu contei… e tinha que ir à missa rezar…rezar e rezar…Fui…ou pretendia ir. Passando pela praça vi o “Zé da Alice” sentado no banco tocando violão…Fiquei lá. Delícia…esqueci a missa. Esta Deus não contou pra eles. Furei a penitência.
E o pior aconteceu…Chegou o circo e se instalou do lado da minha casa…Rezar o terço? “Banana”…Não tem dinheiro? Lá vou eu por debaixo da lona…O palhaço “Mexerica” era mais engraçado que o terço. Não me lembro mas acho que ninguém deu por minha falta…Tinha muita gente na casa, visitas.
Adorava ir atrás das mulheres catar lenha e ouvia todas as suas histórias. Eram histórias de arrepiar…dava mais medo que as histórias do inferno que o padre contava.Lobisomem, mulas sem cabeça (Toda mulher de padre se transformava em mula sem cabeça), corpo seco e assombração (depois eu aprendi que os espíritas falavam com assombração e até seguiam as suas doutrinas). E todas juravam que tinham visto tais entidades. Foi por isto que eu comecei a duvidar do espiritismo. Se todas viam lobisomem, mulas sem cabeça, corpo seco e assombração era um sinal de que as pessoas poderiam ver o que quer que quisessem ver quando eram sugestionadas.
Eu passava por entre as árvores e tinha a certeza de que o corpo seco estava lá, via lobisomem mula sem cabeça por todo lado até que me convenci que era mais poderosa que eles. Sumiram…acho que ficaram com medo…mas eu queria mesmo era fazer Deus sumir também, assim ele não me vigiaria mais, não faria chantagens comigo ou me ameaçaria com o inferno. Ele era pior que o “Cão”. Criou a porcaria do inferno só pra me enfiar lá dentro.
E foi aí que eu percebi o quanto eu era importante. Deus não teve o trabalho de criar um inferno pra mim? Criou demônios, o diabo, a mula sem cabeça, o lobisomem, o corpo seco e as assombraçoes. Pimba! Descobri que podia me livrar de todas estas coisas como me livrei das assombraçoes. E se eu pude me livrar de tudo isto, eu poderia me livrar também do resto que me prendia, e ficar livre. Todos sofriam e eram aterrorizados com as visões do inferno! Eu? Matei o inferno e joguei o rosário no lixo…pronto.

Fui pra praça escutar o “Zé da Alice” tocar violão.
*A.Burke