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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sábado, abril 24, 2010


Marta_Folha_2010


Escolhida para disputar o Senado pelo PT, a ex-prefeita de São Paulo e ex-ministra do Turismo Marta Suplicy volta a testar seu desempenho nas urnas em outubro, dois anos após ter sido derrotada pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) na capital paulista. Com 43% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha divulgada em março, a petista considera a campanha por um cargo legislativo “menos tensa”, mas diz que não é “frágil” nem tem medo de ser chamada para a briga na Casa majoritariamente masculina – palco de diversos arranca-rabos em 2009.

Em entrevista ao R7 em São Paulo, Marta disse que não veria “problema algum” em compor uma aliança com o cantor e vereador Netinho de Paula (PC do B) para o Senado – apesar da oposição de alguns petistas – e negou qualquer mal-estar com o partido de Aldo Rebelo, com quem compôs a chapa nas eleições municipais de 2008.

Marta já garantiu, na aliança em torno da pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, uma das duas vagas na disputa ao Senado, a outra seria de Netinho, por isso a dobradinha. A petista destacou, porém, que o PT ainda está em negociação com os partidos aliados para fechar a chapa, e que nada está definido.

Dias após pedir desculpas a Kassab pela propaganda eleitoral que levantou dúvidas sobre a vida pessoal do adversário, Marta foi categórica ao afirmar que não guarda rancores da época, ao ser questionada se também merecia um pedido de desculpas de alguém:

- Já virei a página.

Com três eleições para a prefeitura da capital paulista na bagagem, Marta recomenda que a amiga Dilma não tente acompanhar o “pique” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

R7 – Em 2008, pouco antes do resultado das eleições municipais, a senhora falou que não saberia como lidar com a derrota. Como foi a decisão de concorrer ao Senado?

Marta Suplicy – Quando você perde uma eleição sempre fica um período triste, introspectivo, tentando entender o houve. O tempo passa, a vida anda, e você se reanima novamente pra construir algo importante para o país. Eu me coloquei para o partido disponível para ocupar o cargo que mais ajudasse a Dilma [Rousseff] nesta eleição. Poderia ser governo, Senado ou deputada federal. O partido optou pelo Senado e eu fiquei muito feliz porque é um cargo que eu nunca ocupei, nem nunca disputei, e representar seu Estado é uma honra e hoje eu sinto que tenho maturidade para desempenhar esse papel muito bem.

R7 – A senhora disse várias vezes que gostou muito de ser ministra do Turismo. Caso a Dilma ganhe as eleições, a senhora aceitaria voltar a ocupar esse cargo, ou há outro ministério que lhe agradaria?

Marta – Eu estou concorrendo ao Senado, e tenho que pensar nisso. O que vem depois, é depois. Mas eu estou animada com a perspectiva de poder defender o Estado de São Paulo.

R7 – Enfrentar uma campanha para o Senado é mais fácil, ou menos doloroso, que encarar uma eleição pela prefeitura?

Marta – Enfrentar uma disputa para o Senado é mais tranquilo, porque você não tem cinco repórteres todo dia na porta da sua casa quando acorda. É uma campanha que você vai mais solta fazer a campanha, com menos cobertura. O que é ruim, por um lado, mas é positivo porque te permite ter menos tensão. A campanha para prefeitura, ou para um candidato ao governo ou à Presidência, é extremamente tensa, porque você acorda e onde você vai já tem pessoas do seu lado, o que é mais difícil. Agora, em termos de responsabilidade, de preparo, é igual, porque você tem que se preparar muito para saber o que vai fazer.

R7 – A senhora deu algum conselho para a ex-ministra Dilma, que em sua primeira candidatura vai enfrentar uma eleição presidencial?

Marta – Sim, para ela não ir a tudo que a agenda propor, no sentido de que ela tem que se poupar, porque a mulher não tem a resistência que o homem tem, muito menos a que o Lula tem [risos]. Ela tem que pensar em uma agenda diferente, por ser mulher. [...] Então eu disse pra ela ficar muito atenta a isso, a não deixar montarem uma agenda das 6h da manhã até as 10h da noite.

R7 – Em relação à chapa do Senado, já está definido quem será o suplente?

Marta – Não. Nem quem será o coligado.

R7 – Ainda estão em negociação com o PC do B?

Marta – Tem o PC do B, tem a possibilidade de o Chalita [Gabriel Chalita, vereador de São Paulo pelo PSB] vir, tem o PDT que também pode propor. Então isso ainda não está certo. Ainda temos até junho.

R7 – Nos bastidores, fala-se em um mal estar com o PCdoB por conta da insistência do partido em indicar o vereador e cantor Netinho para compor a sua chapa para disputar o Senado. O que a senhora acharia de formar uma chapa com ele?

Marta – Eu não sei como esse boato surgiu, mas [as pessoas] têm me perguntado isso, e não sei por quê, nem de onde [o boato surgiu]. Mas acho que o Netinho é um vereador muito amado pela população, e o PC do B tem independência para indicar quem quer.

R7 – Mas a senhora aceitaria então formar a chapa com ele?

Marta – Sim, sem nenhum problema.

R7 – Em entrevistas recentes, a senhora pediu desculpas ao prefeito Gilberto Kassab (DEM) pela propaganda que a sua campanha veiculou questionando se o então candidato era casado e tinha filhos. Acha que alguém também lhe deve desculpas daquela época, ou mesmo e outra época?

Marta – Eu já virei a página. Não guardo ressentimentos, rancores, isso é a coisa mais resistente da minha personalidade.

R7 – O Senado é majoritariamente masculino. A senhora teme algum enfrentamento, alguma briga na Casa?

Marta – Não tenho medo nenhum, vou com a maior tranquilidade. Aliás, ao contrário, as pessoas normalmente tem muita delicadeza comigo, porque sabem que eu vou revidar se for atacada [risos]. Não sou uma pessoa frágil.

R7 – O senador Eduardo Suplicy [ex-marido de Marta e colega de partido] deu algum conselho a você sobre o Senado?

Marta – Não, só desejou boa sorte. E [desejou] que eu consiga vencer pra gente trabalhar em parceria.
Postado por Luis Favre

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