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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sexta-feira, maio 28, 2010

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A eleição na Colômbia e os rumos do continente

publicada quinta, 27/05/2010 às 09:37 e atualizada quinta, 27/05/2010 às 20:55

Derrota do candidato apoiado por Uribe, na Colômbia, pode ser mais uma pedra no sapato dos EUA

No próximo domingo, a Colômbia passará por eleições presidenciais. Mas o pleito não deve ser decidido no primeiro turno. Pesquisas apontam que é pequena a diferença entre o candidato oficialista, Juan Manuel Santos, e Antanas Mockus, do Partido Verde.

Leia a seguir a análise de Marcelo Salles, que em breve terá uma coluna aqui no
Escrevinhador.

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A eleição colombiana e os rumos do nosso continente

Por Marcelo Salles*

A eleição presidencial que se avizinha na Colômbia pode dar um fim ao uribismo, mas isso não significa, necessariamente, uma mudança radical nas políticas implementadas pelo governo colombiano na última década.

O principal candidato da oposição, Antanas Mockus, do Partido Verde, já lidera as pesquisas de opinião com 32,8% das intenções de voto (Instituto Datexco). O quadro é muito diferente das eleições parlamentares de 14 de março, quando o Partido Conservador e o Partido de La U – que sustentam o uribismo – receberam quase a metade dos votos, enquanto o Partido Verde ficou com cerca de 3% das cadeiras.

Mockus, filósofo e matemático, é visto como um liberal nos costumes. Certa vez, quando reitor da Universidade Nacional de Bogotá, baixou as calças para chamar a atenção dos alunos. Prefeito da capital, entre 1995 1997, empreendeu campanha de pela redução da violência em que, entre outras coisas, distribuía aos motoristas de trânsito cartões com polegares para cima e para baixo, que eram levantados mediante manobras corteses ou imprudentes. Mockus decretou toque de recolher em bares e até determinou que num certo dia apenas mulheres poderiam sair às ruas. Pra completar, chegou a se fantasiar de super-heróis para divulgar suas ideias.

Por outro lado, Mockus já deixou claro seu conservadorismo ao afirmar que vai continuar a política de segurança de Uribe – ressalvando que não permitirá violações de direitos humanos – e ao mostrar-se favorável à abertura econômica.

Por sua vez, o situacionista Juan Manuel Santos, que tem 29,3% das intenções de voto (Datexco), foi ministro da Defesa de Uribe e um dos grandes ideólogos das últimas investidas contra as Farc, inclusive aquelas que violaram a soberania do Equador e assassinaram guerrilheiros desarmados.

A eleição colombiana seria uma espécie de disputa entre extrema-direita x direita. Ou, mal comparando, a diferença entre Mockus e Santos seria aquela que existia entre Clinton e Bush. “Clinton era alguém com quem se podia conversar”, disse certa vez o presidente Hugo Chávez.

No plano geopolítico, essa diferença sutil entre Mockus e Santos pode contar muito. A Colômbia tem funcionado, com Uribe, como um satélite estadunidense encravado na América do Sul. Na última década o Plano Colômbia tem jorrado bilhões de dólares ianques, que desembarcam junto com armas, equipamentos e pessoal no país sul-americano – o que constitui uma ameaça para o equilíbrio em todo o continente.

* Marcelo Salles é jornalista.



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