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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quinta-feira, maio 03, 2012

O Ópio das multidões



A Informação que hoje nos servem é assim a modos como o novo ópio. E é também, em boa medida, uma Informação censurada e autocensurada. Pelos interesses políticos de quem manda e pelos interesses económicos que serve.


(Isto apesar de um assessor de longa data do professor Cavaco ter lamentado, ainda recentemente, que "uma informação não domesticada constitui uma ameaça com a qual nem sempre se sabe lidar").

O autor deste lamento, que fez vida nos jornais e chegou à Direcção do Diário de Notícias e que com o seu punho assinou editoriais do matutino lisboeta, é caso exemplar da dependência económica e política da Imprensa portuguesa actual e dos servidores atentos e reverenciais que a dirigem.

Eduardo Galeano, escritor, jornalista e humanista uruguaio, diz que o Mundo é hoje dominado por uma "ordem criminosa". Uma ordem criminosa cujas "corporações controlando os governos de quase todo o planeta, dispondo também de instituições como o FMI, a OMC e o Banco Mundial para defender os seus interesses" leva a que hoje "500 empresas detenham mais de 50% do PIB Mundial, sendo que muitas delas pertencem a um mesmo grupo".

Uma ordem criminosa, que se apoderou da Imprensa mundial e a coloca aos serviços das suas estratégias ideológicas, económicas e financeiras.

Assim, acontece com a generalidade da chamada Comunicação Social, também ela na mão de endinheirados, ou endividados, que embora muitas vezes sejam apenas meros testas-de-ferro, são zelosos cumpridores das ordens dos verdadeiros patrões.

E isso explica várias coisas. Como estas que aqui se deixam:
  • O despedimento cirúrgico de jornalistas seniores, respeitados entre a classe e com capacidade interventiva e reivindicativa;
  • A opção por jovens jornalistas pagos com baixos salários ou pagos à peça, sem capacidade interventiva e reivindicativa. – Sem memória também;
  • O pagamento milionário a algumas "damas" e a alguns "cavalheiros" para que assistam à missa dominical do prof. Marcelo ou à novena do dr. Marques Mendes, à quinta-feira; (Nota: Isto enquanto o desemprego de jornalistas se agrava, sendo que, segundo o Sindicato dos Jornalistas, nos últimos cinco anos (2007-2011), deram entrada na Caixa de Previdência e Abono de Família dos Jornalistas (CPAFJ) 566 novos pedidos de subsídio de desemprego, num total de 694 processos. Mais: os OCS são dominados por dois/três grupos económicos – Controlinveste/Impresa/Cofina/Impala, na chamada imprensa cor de rosa, pelo que jornalista caído em desgraça jamais, como dizia o outro, voltará ao exercício da profissão.)
  • Ou, também, para que os "Prós" sempre derrotem os "Contras" que se manifestam contra o PU (Pensamento Único) que domina o mundo, o país, e teima em dominar as nossas vidas.
A Imprensa, escrita, televisiva, radiofónica e muito daquela que hoje por aí vagueia impõe a Censura, pois promove a autocensura.

E manipula "inocências e consciências".

Vendendo a imagem de "vamps" e e "vips", das suas festas e carros; servindo-nos um qualquer fiúza a dizer que iria dar espumante aos sem-abrigo de uma terra esventrada pelo desemprego; dando tempo de antena e páginas inteiras a uma qualquer irmã do Cristiano Ronaldo; ou a qualquer similar indigente mental.

(sendo que tal overdose de tão criminosa mediocridade, a que não são alheios, também, os muitos programas sobre futebol, tem consequências nefastas sobre as pessoas, nomeadamente sobre os mais jovens, que assim são formatados para que cresçam sem massa crítica e sujeitos a manipulações de inocências e consciências.) 

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Como tão bem anunciou Sofia de Melo Breyner.

E se esqueçam, também dos 100 anos do nascimento de Alves Redol e Manuel da Fonseca ou dos 103 de Soeiro Pereira Gomes, símbolos maiores do neo-realismo.

Ou que nada digam sobre o facto de Américo Amorim entupir as contas fiscais da sua holding com pensos higiénicos e destaquem em letras garrafais que "60 mil recebem rendimento mínimo e não mexem palha", como ainda há dias titulava, esquecendo os rendimentos máximos de quem nada faz, o matutino que já se preocupou com os mais desfavorecidos.

Imprensa alternativa – Imprensa contra poder

Num mundo dominado pela ordem criminosa de que nos fala Galeano, fazer uma Imprensa séria, alternativa, uma Imprensa de contra poder. E não de quarto poder, como alguns defendiam e que, prova-o a história e os factos, acabou no quarto do poder. Poder que dela se serve a seu bel-prazer.

Ou seja: precisamos de um jornalismo de contra poder, que mude o mundo e nos faça reflectir, que nos dê uma outra visão e contrarie o Pensamento Único que nos domina.

(Mas essa é, hoje, uma tarefa financeira quase impossível. Nomeadamente quando essa outra Imprensa é feita em suporte de papel. Explico: nenhum jornal de contrapoder sobreviverá através da sua venda; nenhum patrão o apoiará financeira e publicitariamente; nenhuma acompanhante de mais ou menos luxo, como agora se diz, trocará o "RELAX" do Correio da Manhã e do Jornal de Notícias por um jornal assim).

Sobretudo na Europa, nesta Europa dominada por mercados e mercadores que a encaminham para o maior retrocesso civilizacional de que há memória.

A Internet é, pelo menos por agora, um suporte alternativo, bem como a Informação que nos chega da América Latina.

Nomeadamente com o nascimento da Telesur – rede de televisão criada em 2005 na Venezuela como contraponto à hegemonia das grandes redes privadas de TV, tais como a CNN e a Univisón.

Ou, também, e entre nós pela leitura dos sítios:
- o diario.info;
- resistir.info.
 Por exemplo.

Mussolini e Clara Petacci são pendurados pelos pés, na praça principal de Milão, Itália,
após terem sido fuzilados


Pois só assim ficaremos a saber a razão que levou o farmacêutico Dimitris Christoulas a suicidar-se, com um tiro, junto ao parlamento grego.

Eis a carta do herói da Praça Syntagma:
"O governo de ocupação aniquilou-me literalmente qualquer possibilidade de sobrevivência dado que o meu rendimento era inteiramente proveniente de uma pensão que eu, sem qualquer apoio de ninguém nem do Estado, financiei durante 35 anos.


Porque a minha idade me impede de assumir uma acção radical (se não fosse isso, se um cidadão decidisse lutar com uma Kalashnikov, eu seria o primeiro a segui-lo), não me resta nenhuma solução excepto colocar um fim decente à minha vida antes de ser forçado a procurar comida nos caixotes do lixo e de ser um peso para os meus filhos.


Eu acredito que a juventude sem futuro brevemente se erguerá [literalmente: "empunhará armas"] e enforcará todos os traidores nacionais de cabeça para baixo, como os Italianos fizeram a Mussolini em 1945".
Uma carta que dá para pensar a que ponto chegou esta Europa e um dos berços da Civilização.

 fonte: resistir.info

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