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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

segunda-feira, maio 21, 2012

Quem tem medo da verdade?

Blog do Tessler

É impressionante a quantidade de vozes conservadoras que se levantaram – salivando de ódio – contra a instalação da Comissão da Verdade, que procura desvendar os exageros do tempos de chumbo da ditadura brasileira.
Por que tanto medo?Alguém pensa em revanche? Alguém se orgulha de viver em um país que matou e torturou pessoas cujo crime era pensar de uma maneira diferente que os militares do poder?
Na República Dominicana, ilha caribenha vizinha ao Haiti, viveu o maior fascínora de toda América Latina, Rafael Leónidas Trujillo. O tirano se divertia em perseguir profissionais liberais, jornalistas, estudantes ou mesmo pais de meninas virgens que se negavam a entregar a filha para suas noites de orgia. Era Deus na terra do Sol. Matava, torturava, enganava os dominicanos, se divertia e ainda enchia as contas pessoais em bancos estrangeiros. Trujilo chegou a ser dono de 70% das terras cultiváveis da República Dominicana.
Na madrugada de 30 de maio de 1961 Trujillo, aos 70 anos, seguia com seu motorista para a casa de uma das tantas amantes. Escondido. Sem segurança. Aí caiu em uma emboscada preparada por funcionários da presidência que não concordavam com os abusos. Foi assassinado em uma estrada à beira-mar, na periferia de Santo Domingo.
O local do assassinato – comemorado em silêncio pela esmagadora maioria do povo dominicano – é hoje um lugar de homenagem…aos assassinos. Os dominicanos entendem que em um regime ditatorial a revolta contra o poder estabecido à força é legítimo. Se a subida ao poder aconteceu graças às armas, nada mais justo que utilizar as mesmas armas para derrubá-lo.
Os dominicanos entendem essa lógica, os conservadores brasileiros não.
A ditadura brasileira estabeleceu-se com um golpe militar. Todos os atos, a partir de então, são questionáveis – e sujeitos à revolta. A tortura, método utilizado para forçar supostos opositores a falar o que sabiam e o que não sabiam, foi a medíocre ferramenta utilizada. "Não existe nada mais hediondo na natureza humana que a tortura, a agressão a um ser semelhante", observou o ex-deputado e torturado Carlos Araújo, ex-marido da presidenta Dilma Rousseff.
Quem não aceita a Comissão da Verdade tem medo. Medo de que? De revelar à família, aos vizinhos e amigos seu passado sujo?
O Brasil foi governado de 1964 a 1985 pela força. O estado democrático foi esquecido. A oposição corajosa, de um povo de paz que simplesmente tentava resgatar a legimitimidade, foi torturada, morta ou misteriosamente desaparecida. E os responsáveis pela barbárie seguem assando churrasco aos domingos em seus luxuosos condomínios, muitas vezes ao lado de filhos de suas vítimas, sem revelar seu passado. Rindo e assistindo futebol.
A Argentina passou pela Comissão da Verdade nos primeiros anos da volta à democracia – liderada pelo escritor Ernesto Sábato. O Chile lembra os tempos da barbárie com um impressionante museu. O conservadorismo brasileiros pretende soterrar o passado.
Quem tem medo da verdade?

*esquerdopata

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