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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

terça-feira, dezembro 14, 2010

A Cristandade se acabou. Viva a fé!






Este é o título do editorial de um número recente da revista Le Monde des Religions, (outubro 2010). Esta afirmação não parece confirmada quando vemos como o comércio e o consumismo tomaram conta da festa do Natal. A cultura parece ainda cristã, mas sem a profundidade que o Evangelho pede a quem crê. De fato, em um mundo individualista e competitivo, é ótimo que o Natal seja ocasião de encontro humano e confraternização das famílias e amigos. Pode ser positivo que, para muitas pessoas, esta festa não fique restrita à fé cristã. Ela nasceu no século IV de uma comemoração do solstício do inverno. Celebrada em seu início pelos seguidores da antiga religião romana, hoje se tornou uma festa mais humana do que religiosa. Entretanto, é lamentável que o seu conteúdo cristão tenha sido substituído pela febre do comércio e pelo Papai Noel das lojas e da cultura consumista.
Como qualquer pessoa pode constatar, este assunto pode ser visto, ao menos, por dois ângulos diversos. Depende do que se entende por "Cristandade" e por Cristianismo. Há quase 50 anos, durante o Concílio Vaticano II, ao ver o esforço da Igreja Católica se renovar em suas bases mais profundas, Paul Ricoeur, pastor evangélico, afirmava: "A Cristandade está morta. Viva o Evangelho!". Isso pode parecer estranho para quem não percebe que, desde muitos séculos, governos e sociedades se aproveitaram de sua ligação com a Igreja, (católica ou evangélica), para se perpetuar e se legitimar com uma aparência de fé e uma tintura de espiritualidade cristã. Já no século XIX, Soren Kierkegaard,filósofo dinamarquês e pensador cristão, refletia: "A Cristandade é o regime no qual uma sociedade faz tudo para permanecer como é, injusta e desigual em suas bases e, ao mesmo tempo, usar os aspectos exteriores e a aparência de Cristianismo para se desembaraçar da mensagem do Evangelho". Em nossos dias, durante uma palestra do padre José Comblin, um participante externou o seu descontentamento com o tipo de mundo que, durante vinte séculos, as Igrejas não conseguiram transformar para melhor. O teólogo Comblin respondeu: "É verdade. Mas, de fato, até hoje, o Cristianismo nunca foi vivido, a não ser por pouquíssimas pessoas que sempre contestaram este modelo social de mundo". O primeiro destes contestadores foi o próprio Jesus Cristo. Ele chegava a dizer aos religiosos da época: "As prostitutas e os desonestos cobradores de impostos a serviço dos romanos (odiados pelo povo judeu) participarão do reinado divino mais do que vocês" (Mt 21, 31). Ele não aceitava que a sociedade, em nome da religião e de Deus, condenasse uma mulher adúltera e nada dissesse ao homem com quem ela tinha relações. Não se pode culpabilizar apenas a parte mais frágil. É o que, nestes dias, vimos em toda esta campanha com a qual os meios de comunicação noticiaram a guerra da polícia e do governo do Rio de Janeiro contra o tráfico nas favelas. Todos concordamos em libertar os morros cariocas do domínio do crime e ficamos felizes em ver o povo se declarar contente com a ação da polícia. Mas, o que não apareceu em nenhum órgão da imprensa foi o lado oculto do sistema. Se traficantes mantinham na favela toneladas de drogas e montavam casas ricas e com piscinas é porque barões das classes mais altas sustentam e garantem o comércio. E sem dúvida, estes senhores importantes não moram no Morro do Alemão. Nem a policia, nem jornalistas fizeram menção deste elo da corrente. Sem as pessoas de classe alta que financiam o tráfico e os de classe média que compram as drogas, estas não seriam distribuídas e se acabariam por si mesmas.
A celebração do Natal vem nos recordar de que a paz nunca se fará pelas armas. Contam que uma vez alguém perguntou a São Francisco de Assis como se poderia vencer as trevas da violência e do mal. Ele respondeu: "Para que agredir as trevas? Basta acender uma luz e as trevas fogem apavoradas". De fato, a verdadeira paz é o esforço de transformar as tensões destrutivas em polaridades criativas. Isso não se constrói com soldados armados e sim com educadores/as e artistas que expressem a beleza e ajudem as pessoas a conviver melhor. Ao contrário de transformações superficiais, o verdadeiro Natal é anúncio de paz para toda pessoa a quem Deus ama. Jesus revelou a predileção divina pelos mais pobres e desprotegidos. Na noite escura do inverno do mundo, a luz divina vem iluminar nossas consciências e nossas realidades. Ela nos dá uma consciência mais crítica e a liberdade interior de colaborar sempre pela construção de uma sociedade nova. Não é um processo mecânico nem automático. Pede nossa adesão. Um antigo pastor da Igreja dizia: "De nada teria adiantado Jesus nascer em Belém se ele não renascer em nosso coração, transformando nossas pessoas e nosso modo de viver.
* Monge beneditino e escritor

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