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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sexta-feira, abril 27, 2012

Até tu, Miro Teixeira? Blindando a Veja?



O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) vai argumentar na CPI, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que é vedado o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo, como jornalistas. O PT tenta levar parte da mídia para o foco da investigação.
Comento:
Isso é traição a memória e ao legado de Leonel Brizola, o fundador do PDT de Miro.
Brizola nunca abaixou a cabeça para a TV Globo e venceu a emissora no escândalo da Proconsult, nas eleições de 1982. Ele teve também embates homéricos com os Civita, donos da revista Veja.
Jornalistas tem sim o direito assegurado pela Constituição de preservar o sigilo da fonte, mas isso não significa que não possam responder perguntas sem revelar o sigilo.
Inclusive há vários precedentes. Para citar um exemplo, em 22/2/2005, o jornalista da revista Veja, Policarpo Júnior, prestou depoimento no Conselho de Ética da Câmara em processo contra o então deputado André Luiz (ex-PMDB-RJ), que era acusado de extorsão na CPI da Loterj por... advinha quem? Carlinhos Cachoeira.
O relatório final da CPI da Loterj indiciou e recomendou a prisão de Cachoeira. As matérias publicadas na revista Veja, naquela época, retratavam o bicheiro como se fosse apenas um empresário de jogos, vítima de extorsão.
Hoje, sabe-se que constam 200 telefonemas entre Policarpo Júnior e Cachoeira dentro da Operação Monte Carlo da Polícia Federal.
Quanto à luta para acabar a corrupção e cartel dos barões da mídia, o deputado Miro Teixeira já tem maus precedentes: tomou posições mais próximas dos demotucanos do instituto Millenium, inclusive sendo agraciado com uma generosa entrevista nas páginas da revista Veja.
*ajusticeiradeesquerda

Miro Teixeira perde tempo ao defender silêncio de Policarpo e Veja. Interessa é o que está nos grampos da PF



Se verdadeira uma nota publicada na coluna Painel da Folha de ontem, o deputado Miro Teixeira é o ponta de lança de uma estocada da mídia corporativa em defesa da tese de que jornalistas não podem falar na CPI, sob pena de perda da garantia do sigilo da fonte:

Vacina
O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) vai argumentar na CPI, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que é vedado o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo, como jornalistas. O PT tenta levar parte da mídia para o foco da investigação. [Fonte]


O deputado - do partido do Brizola, diga-se - é o mesmo que defendeu a esdrúxula e vencedora tese do fim puro e simples da Lei de Imprensa em 2008 (sem que outra fosse colocada no lugar) e que na época chegou a declarar o seguinte:

“Quem se julga ofendido pela imprensa deveria convocar entrevistas coletivas e disputar espaço no noticiário para se defender”.


Sobre essa inacreditável tese de Miro (já imaginou você, leitor, leitora, convocando uma coletiva para se defender de matéria caluniosa da Veja ou da Rede Globo, por exemplo?) cheguei a escrever aqui Miro Teixeira pensa que todo brasileiro é deputado.

Agora, como o título da nota do Painel informa, Miro lança uma vacina contra possível convocação de jornalistas para falarem à CPI do Cachoeira. Especialmente da Veja, envolvida em reportagens articuladas com Cachoeira e com 200 grampos espetados no inquérito com diálogos entre o diretor da revista Policarpo Junior e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Mas é inútil. Roberto Civita, presidente da Abril, que publica Veja, é jornalista, mas não exerce a profissão, portanto não tem sigilo a preservar.

Quanto a Policarpo, o caso é diferente. O que interessa não é tanto o que Policarpo venha a dizer, mas o que ele disse nas 200 ligações com Cachoeira. Se forem comprometedoras (o que devem ser, ou já teriam vazado há tempos até pela Veja), Policarpo vai querer falar para se justificar.

É como a nova lei para motoristas infratores. Antes, o bebum se recusava a soprar o bafômetro, direito que lhe assegura a Constituição de não produzir prova contra si. Agora é o contrário. Se há suspeita de que o motorista esteja bêbado, ele tem o direito de solicitar o bafômetro para provar que não está. Portanto, Policarpo não vai pedir para ficar calado, vai "pedir o bafômetro" e implorar para ser ouvido - caso tenha como se defender, lógico.

Quanto ao deputado Miro Teixeira, que vergonha, voltando a suas origens chaguistas, ein, deputado?...

Se dependesse de Miro o Brasil seria privado de um dos momentos grandiosos de nossa TV, o direito de resposta de Leonel Brizola lido por Cid Moreira no Jornal Nacional:

*BlogdoMello

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