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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

terça-feira, abril 03, 2012

Malvinas: memória, verdade e justiça



Não é possível deixar de assistir o discurso da presidenta argentina Cristina Kirchner, ontem, na celebração dos 30 anos da Guerra das Malvinas.
Uma fala que toca qualquer coração sensível, qualquer cérebro lúcido.
Editei um trecho, logo após ela saudar os ex-combatentes.
Cristina percorre o sentido de três palavras.
A memória daqueles fatos dolorosos, sim.
Mas a necessidade de que todos possam conhecer toda a verdade, explicando sua ordem parta que se desclassificasse o sigilo sobre o Informe Rattenbach, elaborado ainda sob o período ditatorial e jamais conhecido em sua íntegra, apesar dos vazamentos que vinha tendo pela mídia.
E, evocada pela memória e esclarecida pela verdade, a necessidade de justiça.
Uma justiça que venha desde o direito de cada mãe poder, ao menos, ter o corpo de seu filho sob uma lápide e poder chorá-lo e que chegue à ideia obvia de não podem haver mais colônias no mundo, que um país não possa se arvorar a detentor de terras a 14 mil quilômetros de distância de si, pelo simples razão de ser forte.
Kirchner pronuncia um libelo contra a guerra, mas também um libelo contra a mentira e a injustiça.
Depois de ouvi-la, dá pena ler a forma caricata, quase folclórica, com que nossa imprensa trata esta questão.
Chega a ser ridículo mostrar aquelas típicas cabines telefônicas vermelhinhas dos ingleses como “prova” de que as Malvinas, quando todos sabem que ali se disputa o ponto de apoio para o controle do Sul do Atlântico, agora ainda com o plus de vir gratinado em petróleo.
Chega a ser vergonhoso que haja a necessidade de uma chefe de Estado, nos extremos da Patagônia, ter de lembrar ao mundo que todas as nações e povos merecem o mesmo respeito.
Todo cidadão do mundo deveria ouvir este discurso.
Nossos militares, nossos diplomatas, nossos jornalistas, para que deixassem de lado as visões mesquinhas, frias e sem paixão, com que olham esta questão.
Mas também nós, cidadãos descrentes da política, que nos acostumamos a ver pequenez e cinismo nas palavras dos governantes.
Cristina Kirchner nos faz sentir orgulho de sermos dignos, decentes, humanos e – porque tanto se nega esta palavra? – patriotas. Com isso, ao afirmarmos o direito de autodeterminação dos povos e o respeito a todos eles, abraçarmos a única ideia de cosmopolitismo possível: a que embute a paz e a igualdade.
*Tijolaço

ORA, DIREIS: ANTI-IMPERIALISMO! CERTO. PERDESTE O SENSO!

Galtieri: 'Esa noche me emborracho...'

Trinta anos atrás, um bando de generais facínoras, que em 1976 tinham tomado o poder de assalto na Argentina, massacrando cerca de 30 mil pessoas, desencadearam uma operação militar para ocupar as ilhas Malvinas, que desde 1833 era uma possessão britânica no Atlântico Sul reinvindicada pelos argentinos. Foi uma patriotada destinada a unir o país em torno da ditadura militar, desgastada por uma grave crise econômica e social.
O pior é que eles conseguiram: dias depois da invasão, multidões se concentraram em frente à Casa Rosada e até militantes montoneros, que tinham sido torturados nos cárceres do regime, foram defender a ação dos militares. Em nome do "anti-imperialismo". Até Cuba apoiou a ditadura argentina - que teve um papel fundamental em operações de contra-insurgência na America Central patrocinada pelos EUA.
Os militares argentinos cometeram erros colossais de avaliação. Primeiro, achavam que a Grã-Bretanha jamais se daria ao trabalho de despachar uma frota tão longe para reocupar ilhas quase desertas. Não perceberam que a Dama de Ferro estava em apuros e que uma guerra como essas seria uma excelente oportunidade para ela reconquistar a popularidade. Segundo, os generais acreditavam que os Estados Unidos, agradecidos pelo papel de Buenos Aires na guerra suja contra o "comunismo" na América Latina, apoiariam incondicionalmente a Argentina, em detrimento do Reino Unido, aliado preferencial dos americanos na Europa e na Otan.
Em dois meses, os britânicos acabaram com a aventura militar dos argentinos, mal-preparados e mal equipados para uma ação como aquela. O conflito matou 649 argentinos e 255 britânicos e mergulhou a ditadura numa crise terminal. Felizmente. 

Prisioneiros de guerra argentinos: humilhação
Ficou a humilhação de um povo que se deixou levar pela fanfarronice de seus ditadores. O mais grave é que grande parte da esquerda latino-americana, nesse episódio, perdeu completamente o senso, incapaz de ver o que aconteceria se os generais argentinos vencessem aquela guerra. E levantaram a bandeira da soberania, mas se esqueceram da autonomia. Afinal, quem foi se importou com a opinião dos kelpers, os habitantes das Malvinas?
     



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