A possível rebelião francesa
Se
eleito presidente, François Hollande terá de enfrentar ditadura dos
mercados. Recuará, humilhado? Ou abrirá disputa capaz de sacudir Europa?
Por Ignacio Ramonet | Tradução: Antonio Martins
“A maior força dos poderosos é a inércia dos povos”
Maquiavel
Algo
como a sensação de asfixia. É o que vivem, em diversos países da União
Europeia (UE), inúmeros cidadãos, estrangulados por tantas restrições,
reduções e golpes claros. Um sentimento acentuado pela constatação de
que a alternância política não modifica o “furor de austeridade1” dos governantes.
Na
Espanha, por exemplo, a sociedade havia sito duramente penalizada pelas
doses cavalares dos “remédios” ministrados, a partir de maio de 2010,
pelo primeiro-ministro (socialista) José Luis Rodriguez Zapatero. Nas
eleições legislativas de 20 de novembro último, Mariano Rajoy, candidato
do Partido Popular (PP, conservador) prometeu nada menos que a
“mudança” e o “restabelecimento da felicidade”. Mas um dia depois de
eleito, machado à mão, lançou-se à mais devatadora destruição de
conquistas sociais da história da Espanha.
Pode-se
citar outros exemplos, notadamente Portugal. Neste país, em junho de
2011, depois de ter imposto quatro programas muito impopulares de
“disciplina fiscal” e de submeter-se a um “plano de salvamento” da troika,2 o
premiê socialista José Socrates perdeu, obviamente, as eleições. Embora
criticasse com virulência as medidas de “ajuste” dos socialistas, um
novo chefe do governo, o conservador Pedro Passos Coelho, afirmou já em
sua eleição que cumpriria as exigências da UE, aplicando “uma dose ainda
mais forte de austeridade3”…
De
que servem, então, as eleições se, nos temas essenciais – questões
econômicas, financeiras e sociais – os novos governantes adotam a mesma
política de seus antecessores? Como não duvidar do próprio sistema
democrático? Porque todos constatam que, nos marcos da União Europeia,
não há controle cidadão sobre um enorme elenco de decisões cruciais para
a vida das pessoas. E que as exigências – consideradas prioritárias –
dos mercados, das agências de avaliação de risco e dos especuladores
limitam severamente os princípios essenciais da República4.
Muitos governos (de direita e de esquerda) estão agora convencidos que
os mercados têm sempre razão, sejam quais forem as consequências para os
cidadãos. S seus olhos, os mercados são a solução; e a democracia, o
problema.
Os cidadãos convencem-se, cada vez
mais, de que há, no interior da UE, algo como uma “agenda oculta”,
ditada pelos mercados, com dois objetivos concretos: 1) Reduzir ao
máximo a soberania dos Estados (em matéria orçamentária e fiscal); 2)
Desmantelar o que resta do estado do bem-estar social (para transferir
ao setor privado a Educação, Saúde e Previdência). São prova da
existência de tal “agenda”, as recentes declarações de Mario Draghi,
presidente do Banco Central Europeu (BCE): “O modelo social europeu está
morto” – diz ele – “e quem tentar dar reverter a redução dos orçamentos
sociais será imediatamente punido pelos mercados (…) Já o Pacto
Orçamentário Europeu5 é um enorme avanço, porque graças a ele os Estados perdem uma parte de sua soberania nacional6”. Impossível ser mais claro.
Os
europeus regrediram a um regime de despotismo esclarecido. Na forma
como funciona, a democracia não se define pelo votou, ou pela
possibilidade de escolha – mas pelo respeito obrigatório às regras e
tratados (de Maastricht, Lisboa, MES7,
Pacto Orçamentário…) já adotados ou em vias de ratificação, diante de
indiferença quase generalizada. Estes textos tornaram-se verdadeiras
“prisões jurídicas”, das quais é quase impossível fugir.
Para
quê, então, votar, se estamos condenados a eleger governos cuja missão
limita-se a aplicar as diretrizes e tratados definidos de uma vez para
sempre8?
Temos
sob os olhos um caso de “dissimulação democrática”: o do Pacto
Orçamentário Europeu. Por que não se trava um grande debate público
sobre seu conteúdo (atualmente em via de ratificação a portas fechadas,
pelos Parlamentos), que vai condicionar nossa vida?
Pode-se
dizer o mesmo do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), do qual
depende o Pacto Orçamentário. Estos dois dispositivos constituem ataques
frontais contra os direitos dos cidadãos. Eles constrangerão para
sempre os países signatários – entre os quais a França – a reduzir ainda
mais as competências do Estado (em matéria de orçamentos sociais, de
garantia dos serviços públicos ou de valor das aposentadorias). Eles
colocarão sob autoridade da UE as políticas orçamentárias dos
Estados-membros. E absorverão as atribuições dos Parlamentos nacionais,
transformando muitas vezes os países em crise em simples protetorados
europeus9.
Pode-se
sair desta opressão austeritária”? Talvez a eleição presidencial
francesa abra perspectivas. Não em razão dos milhões de eleitores que,
exasperados ou desesperados, votaram no primeiro turno por uma
extrema-direita xenófoba. Mas porque o candidato socialista, François
Hollande – favorito, segundo a maior parte das pesquisas – prometeu, a
este respeito, “mudança”.
Consciente de que esta
eleição pode significar um fato novo para a Europa, Hollande propõe
acrescentar ao Pacto Orçamentário um conjunto de medidas em favor do
crescimento econômico10.
Ele também reivindica que o BCE empreste diretamente aos Estados em
dificuldades (e não aos bancos privados), para abrir caminho mais rápido
para a recuperação. Defende ainda obras de infraestrutura financiadas
pelo lançamento de títulos europeus específicos (project bonds),
o reforço do Banco Europeu de Investimentos (BEI), um verdadeiro
imposto sobre as transações financeiras (tributo Tobin) e a reativação
dos fundos estruturais europeus não utilizados.
Ainda
que sejam exigências mínimas, por certo insuficientes e sempre
acompanhadas de um discurso ambíguo sobre a “flexibilização do mercado
de trabalho”, e a “moderação social”, Hollande desafia o dogma
estabelecido pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo Bundesbank, que
estão na origem das políticas de “ajuste” da UE. O socialista francês
advertiu, além disso, que se for eleito, e se a Alemanha não aceitar a
renegociação do Pacto Orçamentário (e certamente do MEE), Paris não os
ratificará. É uma mudança não desprezível, se se compara esta posição à
atitude submissa de Nicolas Sakrozy, descrito por uma parte da imprensa
internacional como “o chefe de Estado francês que mais cedeu à Alemanha,
desde Pétain11.
Mas
como os mercados reagirão se, uma vez eleito, Hollande mantiver sua
ideia de estimular a qualquer preço o crescimento? Há dois cenários
possíveis. No primeiro, a especulação desencadeia-se, conforme anunciado
por Mario Draghi, e ataca imediatamente a França12;
Hollande recua e cede diante dos mercados, como seus colegas
social-democratas Zapatero (Espanha), Sócrates (Portugal) e Papandréou
(Grécia). Como eles, torna-se o dirigente de esquerda mais desprezado da
história da França.
No segundo cenário,
persuadido que nada se pode fazer no seio da UE sem a França – segunda
economia do bloco e quinta do mundo – Hollande mantém sua posição e
aceita a queda-de-braço com os mercados. Decide apoiar-se na mobilização
de forças populares (começando pelas que se reúnem em torno da Frente
de Esquerda). Recebe o apoio – impĺícito ou explícito – de diversos
governos europeus, de esquerda e também de direita, partidários de
políticas de recuperação e crescimento. A Alemanha e o Bundesbank cedem.
A especulação bate em retirada. A vontade política vence – e prova que,
numa democracia, quando recebe o mandato do povo, nenhum objetivo é
impossível.
-
1. Ler, de Christophe Ventura, “Dettes souveraines, mécanismo européen de stabilité, pacte budgetaire. L’Europe dans la Mâchoire austéritaire”, Mémoire des Luttes.
2. A troika é constituída pelo Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional.
5.
Lançado pela Alemanha, o Pacto Orçamentário Europeu, ou Tratado para
Estabilidade, Coordenação e Governança no interior da União Econômica e
Monetária (TSCB) foi assinado em 2/3/2012 em Bruxelas, por 25 Estados da
UE (o Reino Unido e a República Checa não aceitaram subscrevê-lo). Este
pacto obriga cada país signatário a inscrever em sua Constituição um
limite – a famosa “regra de ouro” – ao déficit público, fixado em 0,5%
do PIB. Também prevê pesadas sanções contra os países que ultrapassaram
os 3%. Sua entrada em vigor está prevista para 1º/1/2013. Em todos os
países, está prevista a ratificação apenas pelos Parlamentos. Só a
Irlanda, por razões constitucionais, programou um referendo (em
31/5/2012). Na Holanda, o governo, um dos mais firmes partidários da
“disciplina fiscal”, caiu em 23/4, por ter perdido, no Legislativo, o
apoio necessári para votar um plano de corte de investimentos
indispensável para reduzir o déficit aos 3% exigidos por Berlin.
7.
Mecanismo Europeu de Estabilidade, organismo intergovernamental criado
pelo Conselho Europeu (os 27 chefes de Estado e de governo da UE) em
março de 2011. Entrará em vigor em 1º/7/2012. Substitui o Fundo Europeu
de Estabilidade Financeira (FEEF) e o Mecanismo Europeu de Estabilidade
Financeira (MESF).
9. Ler, de Ignacion Ramonet, “Nuevos protectorados”(edição espanhola), março de 2012.
10.
Outros governos, entre os quais os de Mario Monti na Itália e Elio di
Rupo na Bélgica, também pediram alívios e medidas em favor do
crescimento. O próprio presidente do BCE, Mario Draghi, propôs em 25/4, a
deputados europeus, um “pacto de crescimento (growth compact).
Mas por trás desta expressão, ele enxerga sobretudo a adoção do que
chama de “reformas estruturais” (que liberalizariam ainda mais os
mercados de trabalho, por exemplo); e, em hipótese alguma, medidas de
relançamento da economia por meio de investimento públicos. Por seu
lado, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, anunciou, em
26/4, que a reunião do órgão em 28 e 29/6 poderia ser precedida por um
Encontro Extraordinário de Chefes e Estado e Governo, dedicado à questão
do crescimento, “principal prioridade dos dirigentes europeus”…
12. Ver, a este respeito, vídeo
de 12 minutos, em que um quadro influente das finança especulativa
mundial explica com franqueza (em 19/3/2012) um documento que deveria
ter permanecido secreto. Este financista – Nicolas Doisy,
“economista-chefe” do Cheuvreux, filial globalizada do banco francês
Crédit Agricole – é entrevistado por Franços Ruffin, para o programa Là-bas si j’y suis, de Daniel Mermet, na emissora France Inter.
Francia: Programa nuclear y de misiles balísticos de Irán no amenaza a Europa ni a EE.UU.
Via Russia Today
Francia
ha reconocido que el programa de misiles balísticos de Irán no
representa ninguna amenaza para Europa o EE. UU., mientras que su
programa nuclear tiene exclusivamente fines pacíficos.
"En
primer lugar quiero asegurar que el programa de misiles balísticos de
la República Islámica por el momento no amenaza ni a Europa ni al país
norteamericano", ha declarado Michel Miraillet, director del
Departamento de Asuntos Estratégicos de Ministerio de Defensa de Francia
en el marco de la conferencia de defensa de misiles que se está
llevando en Moscú. "En segundo lugar, el programa nuclear iraní se sigue
desarrollando solamente para uso civil", añadió.
Por
otra parte, Miraillet aseguró que “el sistema de defensa antimisiles,
que busca desplegar la OTAN y Washington en Europa, está dirigido contra
las naciones 'amenazantes' y, en particular contra Irán”.
No
obstante, según destaca, "sería un riesgo ignorar el hecho de que la
República Islámica está desarrollando rápidamente la tecnología de
misiles balísticos, aumentando su arsenal que incluye hoy día más de
varios cientos de misiles".
La creciente presión
por parte de diferentes estados occidentales y la amenaza de un ataque
militar de EE. UU. o Israel contra Irán, que lleva unos meses flotando
en el ambiente a causa del programa nuclear iraní, ha hecho que las
autoridades de la República Islámica intensifiquen la actividad dirigida
al fortalecimiento de la defensa nacional.
Desde
el inicio de las tensiones Irán sigue afirmando que su programa nuclear
tiene un carácter exclusivamente pacífico. No obstante, no todos los
países se fían de estas declaraciones, exigiendo que sean demostradas,
algo que la República Islámica no ha logrado hacer por el momento.
*GilsonSampaio


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