Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista
sábado, maio 11, 2013
VAN GOGH NA BELEZA DO PRETO E BRANCO, POR ALAIN RESNAIS
Vincent van Gogh é hoje um dos
maiores pintores modernos. Difícil quem não o conheça, quem não tenha
ouvido falar sobre ele alguma vez. Mais difícil ainda não se impactar
com suas pinturas, com suas formas delirantes, com suas cores colossais
que, de certa forma, refletem a trajetória complexa e densa de um dos
maiores nomes do impressionismo mundial.
Para contar um pouco da história de Van Gogh o diretor francês Alain Resnais
foi convidado, em 1948, para fazer um filme curto sobre ele, que
coincidia justamente com uma exposição do artista que então estava sendo
montada em Paris. O filme, intitulado Van Gogh, recebeu diversos prêmios e foi o primeiro de muitos outros filmes feitos pelo diretor sobre o universo da arte moderna, como Gauguin (1950) e Guernica (1950).
Reproduzimos aqui uma versão com legendas em espanhol, mas, para
além dos diferentes códigos linguísticos, o arte/documentário de Resnais
fala em uma linguagem universalmente conhecida pelo público: a
linguagem da arte. E mais ainda, essa linguagem é transmitida pela
pureza essencial do preto e branco, o que deixa os quadros de Van Gogh
ainda mais sublimes.
A tentativa foi de reconstituir a vida do pintor por meio de seus
quadros, tornando-o mais conhecido do grande público. Tarefa nem sempre
fácil, pois Van Gogh foi um daqueles artistas que teve sua existência
atravessada pela miséria, pela loucura, e por todas as regiões de sombra
que possam se abrir diante da existência humana. Nele, no entanto, as
experiências do limite só fizeram aumentar a genialidade do seu
trabalho.
Assim como Hölderlin e Nietzsche, Van Gogh vivenciou em vida a
experiência da morte, rompeu a barreira entre os domínios e, por isso,
conseguiu na sua obra a maturidade do estilo e o frescor de uma
atualidade sempre potente, sempre renovada.
França, 1948. Direção e edição: Alain Resnais. Narrador: Claude Dauphin. Diretor: Gaston
Diehl e Robert Hessens. Producão: Pierre Braunberger, Gaston Diehl e
Robert Hessens. Música original: Jacques Besse. Fotografia: Henry
Ferrand. Versão original em francês com legendas em espanhol. Duração:
18 min.
Vale a pena também ver este vídeo, uma bela experiência estética que traz o quadro De sterrennacht EM MOVIMENTO.
Van Gogh não morreu
devido a uma condição delirante, e sim por haver chegado a ser
corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate,
desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade, o predomínio da
carne sobre o espírito, o do corpo sobre a carne, do espírito sobre um
ou sobre outra. Onde está, neste delírio, o lugar do eu humano? Antonin Artaud
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