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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

     Marcelo Freixo e o rojão da Globo


Por Kiko Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:



As maiores vítimas da campanha sistemática da Globo contra o deputado Marcelo Freixo e os “vândalos” são a verdade e, em seguida, ela própria.

Depois de basear sua cobertura nas declarações apressadas e confusas de Jonas Tadeu, advogado dos acusados de soltar o rojão que matou Santiago, o Globo publicou alguns editoriais que merecem entrar para qualquer antologia do jornalismo.

(Tadeu, é bom lembrar, defendeu o ex-deputado estadual Natalino José Guimarães, citado na CPI das Milícias presidida em 2008 por Freixo. Antes disso, fora condenado por dano moral em 2000. Já ameaçou desistir de trabalhar com Caio Souza e Fábio Raposo algumas vezes. Passa muito longe de ser a chamada fonte fidedigna).

Num primeiro editorial, ainda com o cadáver de Santiago quente, publicou-se o seguinte: “O crime jogou luz sobre a inaceitável atuação do gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) em defesa de vândalos”.

Mais tarde, diante da reação ao massacre insustentável de Freixo — inclusive por parte de um colunista do Globo, Caetano Veloso –, veio um mea culpa esquisito: “O que faz um jornal diante disso? Omite os fatos na presunção de que o deputado Marcelo Freixo é um homem acima do bem e do mal? Mas esses homens, infelizmente, não existem.”

Dizer uma platitude dessas é de lascar, mas, no caso de Freixo, ainda serve como uma desculpa esfarrapada para uma cotovelada. Afinal, Freixo, que se acha acima do bem e do mal, é só um político sacana como qualquer outro.

Mas o pior estava por vir: “O jornal não disse em momento algum que o deputado Marcelo Freixo era ligado ao homem do rojão, nem de forma alguma induziu seus leitores a acreditarem nessa versão. Seria absurdo e leviano, porque não há prova alguma sobre isso”.

Bem, então o que explica a manchete do dia 9 de fevereiro?: “Advogado: ativista diz que jovens envolvidos em lançamento de rojão que atingiu cinegrafista seriam ligados a Freixo”.

O PT do Rio divulgou nota oficial, se solidarizando com o PSOL e Freixo, “vítimas recentes da sanha da mídia empresarial” — embora muitos de seus militantes continuem achando que o deputado, de alguma maneira, merece apanhar.

Deveria ser caso para processo. Não será, provavelmente, porque não dará em nada. Brizola levou anos para ter um direito de resposta no Jornal Nacional. Agora, uma coisa é certa: a cobertura da Globo de seu próprio equívoco está servindo, novamente, para que ninguém tenha dúvida a respeito da repulsa que ela provoca e que se mostrou, de maneira clara, nas ruas. E esse ódio é culpa exclusivamente de suas práticas, expostas diariamente.

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