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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

sexta-feira, abril 13, 2012

Já alugam policiais na Grécia. E agora?

 

Leio nos jornais que na Grécia já estão alugando policiais para ajudar o Estado a pagar as contas e assim permitir que os bancos recebam seus lucros de volta. Pelo que entendi, é assim: você precisa de um guarda para tomar conta da rua, vai até a delegacia e contrata o cara por algumas dezenas de euros. Precisa de um carro, vai até lá e aluga uma viatura.
Escrevo isso e penso: o que mais está sendo alugado na Grécia, além de policiais e viaturas?
Seria a dignidade nacional?
Ou são apenas médicos, professores, políticos, enfermeiros … nem quero escrever o que estou pensando porque seria obsceno.
Mas impossível não pensar: o que ainda não se pode comprar nem alugar na Grécia, hoje?
Confesso que levei alguns anos para aceitar a ideia de que a capacidade de exploração dos homens não tem limite — apenas sua capacidade física.
Eu pensava, por exemplo, que há um patamar mínimo abaixo do qual ninguém ousa avançar porque aí se ameaça a sobrevivência da espécie. Essa seria a função, imaginava, do salário mínimo. Engano.
Há situações em que a pessoa recebe menos do que precisa para sobreviver e segue vivendo. Morre, desmaia, não consegue se mexer. Mistura trabalho, mendicância, delinquência. Em momentos particulares da história, isso pode acontecer com um povo inteiro.
Será este o futuro da Grécia?
Imagine como se encontra o país, hoje. Mesmo para quem foi ocupado pelos nazistas durante a Segunda Guerra, e que jamais teve direito a ser indenizado pela imensa destruição causada pelas forças de ocupação militar — será muito abuso acusar os alemães de ocupação financeira da Grécia hoje ? — o que se assiste representa um novo degrau de vergonha e crueldade.
A Grécia foi atacada em sua soberania. Traída pelos banqueiros e por uma parcela dos parlamentares, que impediram o país de decidir de forma democrática se aceitaria ou não submeter-se a um pacote dos bancos europeus — que nem pagaram o prometido até agora — agora ela é atacada em sua sobrevivência.
Vamos combinar: o que separa a Idade Média da idade moderna é o crescimento das cidades e o nascimento do Estado, com seus direitos e prerrogativas, entre os quais o poder de polícia, a segurança, o monopólio da violência.
O Estado não pode ser alugado nem comprado. Não pode ser assim, de forma descarada e aberta, como alguém que entra na delegacia e leva para casa os responsáveis pela Lei e pela Ordem como se estivessem dentro de uma lata de refrigerante adquirida num supermercado.

Paulo Moreira Leite

*esquerdopata

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