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Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quarta-feira, outubro 05, 2011

Atitude laica da BBC faz Vaticano explodir em ira

 


A emissora pública de radiodifusão britânica British Broadcasting Corporation (BBC) mudou a forma como se refere aos anos da nossa era e, com isso, acabou sendo vítima da ira do Vaticano, que por meio de seu jornal, L'Osservatore Romano, disparou contra a emissora, chamando a medida tomada de "hipocrisia historicamente insensata".

A datação feita pelos meios de comunicação católicos tradicionalmente se referia aos anos como Antes de Cristo e Depois de Cristo. Portanto estariamos vivendo em 2011 DC. A BBC acabou mudando a forma para Antes da Era Comum e Era Comum (portanto, 2011 EC), para não causar problemas com membros de outras religiões.

A reação feroz do Vaticano não tardou. O jornal afirma que a BBC "pretende" na realidade cancelar "qualquer raiz do cristianismo no mundo". Um exagero que só o papa Bento XVI endossa.

O jornal oficial do catolicismo vai além e ainda prega contra outras religiões e contra a própria ciência, ao afirmar que "negar a função historicamente revolucionária da vinda de Cristo à terra, aceita também por quem não lhe reconhece como filho de Deus, é uma estupidez do ponto de vista histórico, e sabem disso tanto os judeus quanto os muçulmanos".

O despautério segue nas páginas do house-organ religioso: "Muitíssimos não cristãos disseram que não se sentem ofendidos pela datação tradicional antes de Cristo, AC, e depois de Cristo, DC. O que está bem claro é que o respeito a outras religiões é só um pretexto, porque o que se procura é cancelar qualquer raiz de cristianismo da cultura ocidental", esbravejou o jornal, tentando achar pelo em ovo.

O problema é que ele não traz nenhum depoimento de judeus ou muçulmanos, por exemplo, sustentando sua alegação. Os judeus comemoraram recentemente mais uma passagem de ano e, sem dúvida, não estão ligando muito para a forma como o "ocidente cristão" data sua passagem do tempo, muito menos os muçulmanos, mas há uma distância grande em dizer que os membros dessas religiões não se sintam ofendidos com essa imposição da religião cristã.

O reacionário artigo esbraveja contra a ideia porque ela é de "péssimos antecedentes". Citando a Revolução Francesa, o fascismo de Mussolini e erradamente a Revolução Russa, o jornal do Vaticano omite e distorce a história, quando afirma que Lênin mudou a forma de datação após a revolução.

A Revolução Russa simplesmente abandonou o calendário Gregoriano, adotado pela Igreja Ortodoxa, adotando o calendário seguido pelos países ocidentais, justamente o "instituído" pelo Vaticano. É por isso que a Grande Revolução de Outubro é comemorada, na verdade, em 7 de novembro e é por isso que na Rússia, hoje, é o dia 4 de outubro, e não 21 de setembro.

Para a publicação, o momento do "nascimento de Cristo" marca o surgimento da ideia de que todos os seres humanos são iguais, e seria impossível negar o "princípio sobre o qual se fundam os direitos humanos, princípio que até esse momento ninguém tinha mantido e que tem base na tradição cristã".

O maior problema é que não há nenhuma evidência histórica sobre qual foi o verdadeiro momento de "nascimento"
*Onipresente

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