A esquerda e as eleições na França
A França realiza amanhã (22/4) o primeiro turno das eleições
presidenciais que podem significar um resgate das lideranças e dos
governos de esquerda no país - e, quem sabe, na Europa.
Pelo que indicam as pesquisas, haverá segundo turno entre o atual
presidente, Nicolas Sarkozy, e o socialista François Hollande. Os
números mais recentes revelam empate nas intenções de voto, com
percentuais próximos.
Mas a tendência é a de que Hollande saia vitorioso no primeiro turno,
pois sua campanha está em ascensão e contrasta com o declínio da
campanha à reeleição de Sarkozy.
Há muita coisa ainda para acontecer nas eleições francesas, até pelo
histórico de grande abstenção das últimas eleições, mas até o momento
Sarkozy tem se apegado a uma campanha cujo tom principal é o medo.
Apregoa o temor de que uma vitória socialista traria instabilidade ao
país, como se não fosse o presidente a conduzir a França nesse período
de grave crise econômico e política.
Sarkozy tem se distanciado do papel de governo durante a campanha, para
evitar mais desgastes, mas a estratégica não tem surtido efeitos e o
campo conservador começa a se desmobilizar.
E a perda de apoio na corrida presidencial tem levado Sarkozy a recorrer
com maior frequência aos discursos que o aproximam da extrema direita,
representada nestas eleições por Marine Le Pen, filha de Jean-Marrie Le
Pen -que tem 16% nas pesquisas.
É o que se verifica nas posições de Sarkozy em questões como imigração e nacionalismo, caras à extrema direta francesa.
No campo oposto, Hollande faz uma campanha pautada na esperança e nas
possibilidades de mudança. Acena com políticas que tragam novas
perspectivas socioeconômicas aos franceses - em especial, preocupados
com o alto desemprego e o baixo nível de crescimento, frutos amargos de
um receituário neoliberal de enfrentamento à crise que impõe cortes nos
gastos públicos e nos benefícios sociais como meio de controle fiscal.
Crítico das políticas do atual governo de Sarkozy, que adotou as
receitas que têm levado recessão à Europa, o socialista Hollande chega
até a usar propostas semelhantes às adotadas no Brasil. É o caso da
ideia de atrelar o salário mínimo não apenas à inflação, mas também ao
crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do país.
Assim, na medida em que a atividade econômica se recuperar, isso se
reverterá em ganhos para a sociedade em forma de aumento da renda.
Essa dinâmica de valorização do salário mínimo permite aquecer o
consumo, estimular a produção, gerar empregos, favorecer o crescimento
e, fechando o círculo virtuoso, ampliar os recursos na mão dos cidadãos.
Trata-se de estratégia que deu certo no Brasil e que pode ser uma das alavancas da recuperação da economia europeia.
Hoje, a profundidade da crise e o equívoco do remédio aplicado (as
políticas recessivas neoliberais) levaram à desarticulação do Estado de
Bem-Estar Social, que marcou os países da Europa.
Os cortes em benefícios sociais, aposentadorias e nos salários, com os
consequentes impactos negativos nos níveis de emprego, retiraram dos
cidadãos franceses o sistema de proteção social que levou décadas para
ser montado.
Essa crise econômica que se estendeu para a área social acaba por
descortinar uma crise política, de falta de lideranças nacionais capazes
de formular e executar propostas de superação da crise.
O maior crítico das medidas adotadas pelo governo francês é o candidato
de esquerda, Jean-Luc Mélenchon. Com 13% das intenções de voto,
Mélenchon não admite a redução do papel do Estado na superação da crise e
também denuncia a submissão do atual governo às determinações da Troika
(nome dado à junta de interventores do Banco Central Europeu, da
Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional).
Se o processo de crise socioeconômica e política na França resultar numa
eleição que produza novas lideranças de esquerda, estaremos diante de
uma luz no fim do túnel. Pode ser esse o saldo mais relevante das
eleições francesas: o início de uma recuperação da capacidade das
esquerdas europeias em formular, propor e realizar políticas públicas de
crescimento econômico e proteção social.
Se isso se concretizar, o sufrágio na França pode significar um marco de um novo momento no continente.
Espera-se da esquerda francesa que utilize o atual processo eleitoral
para se reorganizar, aproximar-se da sociedade e de seus anseios e
produzir novas lideranças políticas. A profundidade da crise na Europa
exige que a esquerda tome a dianteira das necessárias transformações no
continente e seja condutora da trajetória de recuperação.
Não só a França e a Europa serão beneficiadas, mas o mundo todo.
José Dirceu, advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT
*comtextolivre



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