Páginas

Ser de esquerda é não aceitar as injustiças, sejam elas quais forem, como um fato natural. É não calar diante da violação dos Direitos Humanos, em qualquer país e em qualquer momento. É questionar determinadas leis – porque a Justiça, muitas vezes, não anda de mãos dadas com o Direito; e entre um e outro, o homem de esquerda escolhe a justiça.
É ser guiado por uma permanente capacidade de se estarrecer e, com ela e por causa dela, não se acomodar, não se vender, não se deixar manipular ou seduzir pelo poder. É escolher o caminho mais justo, mesmo que seja cansativo demais, arriscado demais, distante demais. O homem de esquerda acredita que a vida pode e deve ser melhor e é isso, no fundo, que o move. Porque o homem de esquerda sabe que não é culpa do destino ou da vontade divina que um bilhão de pessoas, segundo dados da ONU, passe fome no mundo.
É caminhar junto aos marginalizados; é repartir aquilo que se tem e até mesmo aquilo que falta, sem sacrifício e sem estardalhaço. À direita, cabe a tarefa de dar o que sobra, em forma de esmola e de assistencialismo, com barulho e holofotes. Ser de esquerda é reconhecer no outro sua própria humanidade, principalmente quando o outro for completamente diferente. Os homens e mulheres de esquerda sabem que o destino de uma pessoa não deveria ser determinado por causa da raça, do gênero ou da religião.
Ser de esquerda é não se deixar seduzir pelo consumismo; é entender, como ensinou Milton Santos, que a felicidade está ancorada nos bens infinitos. É mergulhar, com alegria e inteireza, na luta por um mundo melhor e neste mergulho não se deixar contaminar pela arrogância, pelo rancor ou pela vaidade. É manter a coerência entre a palavra e a ação. É alimentar as dúvidas, para não cair no poço escuro das respostas fáceis, das certezas cômodas e caducas. Porém, o homem de esquerda não faz da dúvida o álibi para a indiferença. Ele nunca é indiferente. Ser de esquerda é saber que este “mundo melhor e possível” não se fará de punhos cerrados nem com gritos de guerra, mas será construído no dia-a-dia, nas pequenas e grandes obras e que, muitas vezes, é preciso comprar batalhas longas e desgastantes. Ser de esquerda é, na batalha, não usar os métodos do inimigo.
Fernando Evangelista

quarta-feira, março 19, 2014

    “Abram alas, a Idade Média vai passar”




Há exatos 50 anos, no dia 19 de março de 1964, São Paulo assistia à famigerada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. E não é que agora, meio século depois do Golpe que eliminou a democracia e qualquer resquício de participação popular, amordaçou o país, e fez da tortura e do extermínio de seus opositores uma política de Estado, está programada uma reedição da Marcha, pedindo a volta dos militares ao poder?

Querem reeditá-la no próximo sábado, dia 22 de março. Pretendem fazê-la em mais de 200 cidades brasileiras. Assim, sábado, podemos ter de volta as famosas marchadeiras de 64, terço nas mãos e cabeça na Idade Média… Hoje, quando se completam 50 anos daquela nefasta e reacionária marcha, nós da Equipe do Blog do ex-ministro Zé Dirceu não podemos deixar de recomendar o artigo “Marcha da família: negar tortura na ditadura equivale a negar o Holocausto”, do jornalista Mário Magalhães.Não poderíamos deixar de fazê-lo, sendo este blog do ex-ministro que deu 50 de seus 68 anos de idade à luta pela democracia e a liberdade neste país.

O artigo do Mário Magalhães é uma análise importante porque joga luz sobre um ponto crucial do discurso dos que defendem a manifestação: a rejeição de que a tortura foi, sim, uma política de Estado durante a ditadura e um “instrumento empregado contra milhares de pessoas”. E mais: que levou à morte “a parcela expressiva de mais de 400 opositores assassinados pelo regime que vigorou até 1985″.

Mário Magalhães lembra, ainda, que “não foram somente os ‘guerrilheiros os mortos na tortura’: “Numerosos militantes antiditadura que se opunham ao método da luta armada também foram assassinados. Do ponto de vista histórico e legal, inexiste diferença entre as vítimas: nem mesmo a legislação da ditadura autorizava sevícia, execução e desaparecimento forçado”.

“Abram alas para a nova marcha da família – conclui o biógrafo de Carlos Marighella – abram alas porque, como apregoou certa feita um personagem histórico, a Idade Média vai passar”. Clique aquipara ler o artigo do Mário Magalhães na íntegra.

Em tempo: 

Recomendamos, também, a leitura de “Marcha a ré”, artigo com fina ironia do cronista e biógrafo Ruy Castro publicado hoje na Folha que traz um alerta importante: sob o mando militar (1964-1985), “a família se esgarçou, a liberdade acabou e, em pouco tempo, o próprio Deus saiu de fininho para não se comprometer” (Clique aqui).

Não deixem de ler, também, o excelente artigo de Janaína Oliveira – “À ‘marcha da família’, opomos as Reformas de Base do Século XXI, capítulo ‘direitos civis’”. Janaína é coordenadora do setorial LGBT do PT, publicado aqui, no Espaço do Leitor. 

(Foto: Marcello Camargo/ABr)

Nenhum comentário:

Postar um comentário