




Os desafios da época atual estão, certamente, bem acima das capacidades humanas.” Esta frase do papa Joseph Ratzinger, proferida na Basílica de São Paulo por ocasião das festividades dos apóstolos Pedro e Paulo, dá a dimensão exata das tribulações de um papado que corre o sério risco de ter de assumir, em razão de falências financeiras em várias dioceses dos Estados Unidos, o pagamento de indenizações judiciais em face de solidária responsabilidade civil por danos morais decorrentes de abusos sexuais cometidos por clérigos.
De maio de 1994 a outubro de 2009, A Igreja Católica pagou 1,26 bilhão de dólares para 1.835 vítimas de abusos sexuais. Pelos últimos levantamentos, mais de 50 mil vítimas formularam 4.392 acusações de crimes sexuais- contra religiosos entre 1950 e 2002. Estão insolventes, pelos valores monetários versados, as dioceses de Boston (85 milhões de dólares a 540 vítimas), San Diego (198 milhões a 144), Oakland (56,3 milhões a 56 crianças e adolescentes), Spokane (48 milhões a 75 vítimas), Los Angeles (660 milhões para mais de 500 vítimas), Portland (53 milhões) Tucson (22,2 milhões).
Para piorar, a Corte Suprema dos EUA acaba de tomar uma inédita decisão, à luz de caso a envolver um padre de Portland, no Oregon. O tribunal deixou de conhecer recurso da Santa Sé por não contar ela com imunidade diplomática. Em consequência, ficou confirmada a decisão que reconhecia a responsabilidade solidária do Vaticano. Ruíram repetidas teses vaticanas, no sentido de inexistência de vínculos, a saber: 1. Não pagamento de salários aos clérigos. 2. Ausência de pensão por aposentadoria. 3. Inexistência de controle sobre o ministério religioso.
Em 2002, um cidadão do estado do Oregon apresentou-se em ação civil como vítima, quando contava com 15 anos, do sacerdote pedófilo Andrew Ronan, morto em 1992. O sacerdote, por abusos sexuais, tinha sido transferido da Irlanda para os EUA. Dos autos processuais consta uma declaração de Ronan pouco antes de falecer. O religioso reclama do fato de a Igreja, em lugar de prestar-lhe apoio psicológico, tê-lo transferido para um colégio de meninos no estado norte-americano.
Segundo o advogado do Vaticano, Jeffrey Lena, a Corte Suprema errou. Como a questão está definitivamente resolvida, não se sabe o que fará Lena numa ação em curso e ajuizada por um cidadão de Louisville. O autor espera uma sentença declaratória da responsabilidade dos bispos norte-americanos por omissões e ocultações de casos de pedofilia na Igreja. Segundo a peça inicial, os bispos não impediram a proliferação dos abusos e ilícitos sexuais por parte de clérigos.
As coisas também não andam bem na Bélgica, país que nasceu no século XIX de acordo entre católicos e liberais. O embate entre a Justiça e a Igreja prospera em um forte e crescente clima de indignação popular. A começar contra o clérigo Roger Vanheluwe, de 73 anos, então bispo de Burges. Ele confessou ter abusado sexualmente de um jovem durante dois anos. Parte dos abusos ocorreu quando ele já ocupava o cargo de bispo. A situação agravou-se por ser público e notório que o presidente da Conferência Episcopal da Bélgica, André-Joseph Leonard, abafava as apurações sobre casos de pedofilia.
Os juízes belgas de instrução determinaram buscas e apreensões na cidade- de Mechelen, próxima à capital, Bruxelas. Mais especificamente na sede da Conferência e na catedral de Saint-Rombaut. Foram apreendidos 475 dossiês sobre casos de pedofilia e abusos sexuais a envolver menores de idade. Os clérigos que participavam de uma sessão da Conferência tiveram os celulares e os computadores apreendidos, além de ficarem custodiados durante a diligência. Apenas o núncio Giacinto Berloco, por possuir passaporte diplomático, pôde circular à vontade.
De passagem pela universidade de Lunsa, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, falou em sequestro de bispos, que teriam ficado sem água e comida por nove horas. Disse também que duas sepulturas foram violadas na cripta da catedral e se voltou ao tempo do regime comunista, onde ocorriam tais ações. Bertone foi desmentido pelo premier belga. E o jurista Pierre Mertens, falando aos jornais, frisou que não ocorreram violações nas sepulturas: “Realizou-se apenas uma perfuração para colocação de uma minicâmera para examinar a cripta, sem tocar nas sepulturas dos dois cardeais”.
Ratzinger, no episódio, fugiu do conflito diplomático capaz de levar à ruptura com o Estado laico da Bélgica: ele se limitou a enviar uma carta de solidariedade aos bispos, na qual usou os termos “deploráveis” e “surpreendentes”. A jornalistas avisou que a Igreja continuará a colaborar com as autoridades dos Estados que apuram crimes de sacerdotes. Ou seja, depois de tantas vacilações, o papa passou ao discurso da “tolerância zero” para com os pedófilos, pediu desculpas às vítimas e interrompeu as ensaiadas manifestações, a partir de fundamentalistas, de que a meta era desmoralizar a Igreja. Não se fala, como o decano do Conselho de Cardeais, em “fofocas”, dada a enxurrada de comprovados casos de pedofilia.
Enquanto a magistratura endurece e fala em “engavetados” dossiês da Igreja a revelar abusos contra menores, ocorridos há anos e já prescritos pelas leis da Bélgica, o psiquiatra Peter Adriaessens, presidente da comissão instalada pela Igreja belga para levantamentos, deixou o posto.
Para tentar reduzir os desgastes, Ratzinger tomou duas providências nas festas de Pedro e Paulo. Primeiro, avisou o cardeal de Viena, Christoph Schönborn, que só a ele competia advertir um ex-secretário de Estado do Vaticano, no caso Angelo Sodano. Para o cardeal de Viena, o seu colega Sodano “colocava areia nas apurações sobre pedofilia”. Com a chamada papal, o cardeal desculpou-se pela invasão de competência.
Em nota final, a Santa Sé admite eventuais erros cometidos pela Propaganda da Fé em avaliação do patrimônio imobiliário e em razão da flutuação de mercado. Isso tudo para tentar minimizar o escândalo de ligações de altos prelados com políticos e dois ministros demissionários do governo de Silvio Berlusconi, na Itália. No centro do escândalo financeiro, e já acusado por corrupção pelos magistrados do Ministério Público de Florença, está o cardeal Crescenzio Sepe, ex-presidente da Congregação para Evangelização dos Povos e, desde maio de 2006, arcebispo de Nápoles.
Wálter Fanganiello Maierovitch
RubensA Igreja Católica (leia-se: os seus dirigentes) está perdida na corrupção e abusos sexuais contra menores. A partir do momento em que o celibato clerical é requisito obrigatório para o ofício do sacerdócio, doutrina que, a propósito, está em confronto com as escrituras (I Timóteo cap. 3 versículos 1 e 2, e Mateus cap. 8 versículos 14 e 15 - Pedro, "o primeiro papa", era casado), que a própria Igreja, "em tese", vaticina como sagradas, temos então um quadro de incoerência intrínseca, vale dizer, a luz do livro que a Igreja afirma guardar (a bíblia), ela mesma é a primeira a descumprir o texto sagrado, demonstrando sua atuação hipócrita por toda a terra.
docartacapital

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